Grupos de discussão

Hoje resolvi escrever sobre algo que eu considero essencial na Ecologia, e na Ciência como um todo, e que às vezes me parece um pouco negligenciado: discussões científico-acadêmicas. Com isso, me refiro a uma categoria específica de discussões que não deve ser confundida com, por exemplo, assembléias ou reuniões nas quais se conversa sobre, por exemplo, assuntos referentes a um dado curso de pós-graduação. Também não estou me referindo a discussões “formais” que às vezes podem ser encontradas em revistas, quando um autor publica um artigo ou nota defendendo um ponto de vista que é em seguida rebatido por outro autor na mesma revista. Não estou conseguindo pensar em nenhum exemplo agora, se lembrar posto aqui.

Neste post, quero falar sobre grupos de discussão entre colegas ou pares – grupos de estudo, journal clubs, lab meetings etc. A meu ver, esses grupos são essenciais para a formação acadêmica, especialmente na pós-graduação. Na graduação boa parte do aprendizado se dá em aulas, e grupos de estudo servem mais de aprofundamento. Na pós as aulas também são importantes, ao menos no começo. Mas aulas são limitadas, no sentido de que existe um certo conteúdo “ideal” que deve ser “absorvido” (na falta de uma palavra melhor). Por outro lado, grupos de estudo/discussão são mais flexíveis, às vezes tomando direções imprevisíveis. Podem haver, por exemplo, desvios do tema principal para outros temas relacionados e que são tão ou mais importantes.

Mas estes grupos (vou me referir a eles como “grupos de discussão” nesse texto, devido à semelhança com grupos de discussão online de que eu participava durante uma época e que também foram extremamente importantes pra minha formação) tem talvez uma função ainda mais importante, em se tratando da pós-graduação. Muitas vezes, na pós, ficamos tão focados no nosso projeto de mestrado ou doutorado que esquecemos que existe vida lá fora, e também que existem outras formas de vida dentro da academia, por assim dizer. Ouquei, eu estudo influência de borda no cerrado, mas isso não quer dizer que não posso também me interessar por distúrbios em costões rochosos ou por variação genética de palmito em áreas fragmentadas. E mais – eu vou sair do doutorado com o título de doutor em Ecologia (ou doutor em Ciências, não sei bem como funciona; vamos assumir que seja em Ecologia para fins de argumentação). Doutor em Ecologia, não em Influência de Borda no Cerrado. Ou seja, a meu ver, eu não tenho o direito de não ter ao menos uma noção básica sobre temas gerais de ecologia.

Mas, como todo pós-graduando e todo graduando e todo professor e, bem, provavelmente todo o resto do mundo sabe, o tempo é curto, os prazos são apertados e as exigências são altas. O que significa que eu não posso me dedicar a um estudo aprofundado de costões rochosos. Mas eu posso ler um artigo sobre eles e depois conversar, em um grupo de discussão, sobre este artigo, e, com alguma sorte, no grupo haverá alguém mais experiente no assunto que vai trazer informações e experiências que não estavam no artigo lido. Cada pessoa tem suas experiências e conhecimentos que podem ser muito bem compartilhados em um grupo de discussão. Assim cada um aprende um pouco, ou até bastante, sobre um assunto interessante e importante sem precisar gastar dias e dias naquilo.

Além disso, participar de grupos de discussão é uma bela forma de melhorar sua argumentação, sua capacidade de apresentar, de forma clara, o seu ponto de vista, e de explicar conceitos, métodos, experiências… Na vida acadêmica o principal meio de comunicação é o escrito, mas ele é lento. Apresentações de trabalhos em palestras e congressos são mais rápidos e permitem um feedback, mas o tempo é necessariamente muito limitado. Um grupo de discussão não tem tantas limitações e é muito mais flexível (além de ser bem mais divertido que a maioria das aulas! 😀 ).

Ouquei, o que falei acima vale principalmente para pós-graduandos. E na graduação? Com o excesso de aulas e atividades extra-curriculares e TCC e estágios e, bem, vida!!!, o tempo para participar de grupos de discussão na graduação é necessariamente mais limitado. A meu ver, na graduação, estes grupos de discussão (não confundir com grupos de estudo para, e.g., uma prova de mestrado) serviriam principalmente como uma introdução à vida de pesquisador. E, é claro, servem como uma ótima forma de aprofundamento ou de contato inicial com um tema de interesse. Então a minha recomendação seria participar deles sempre que possível. E pela minha experiência, graduand@s frequentemente tem idéias tão boas ou melhores do que alun@s do último ano de doutorado e podem contribuir muito em um grupo de discussão. 🙂

Bem… Dito isso (de forma talvez um tanto confusa), vou relatar abaixo a minha experiência com grupos de discussão de que participei ou participo.

O primeiro desses grupos (sem contar grupos de discussão online, eles são um tema à parte) foi o Gepea – Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Ambiental, na UFSCar. Participei dele durante um período na graduação, um período no mestrado e um no doutorado. Encontros quinzenais, que duravam em média umas três horas, e contavam em média com entre seis e doze participantes, incluindo professor@s, pós-graduand@s e graduand@s. No começo eu não entendia praticamente nada dos textos que eu tentava ler (afinal, fui treinado como biólogo, ler textos de educação é algo um tanto do outro mundo. Pode não ser um bicho de sete cabeças, mas é um bicho com três cabeças no mínimo. Além de serem textos gigantes pelos padrões ecológicos, 30 páginas ou mais ou bem mais), mas mesmo assim consegui extrair muito das discussões. Eu posso dizer que a maior parte do que sei da teoria de Educação Ambiental, eu aprendi no Gepea. Algo muito legal no Gepea é que muitas vezes, em outras discussões, pessoas querem falar mais do que ouvir. No Gepea não. Perguntas e indagações e dúvidas eram quase sempre seguidas por longos períodos de silêncio nos quais as pessoas pensavam qual seria a melhor forma de responder. Confesso que eu ainda não adquiri esta habilidade, mas estou tentando! Outra coisa interessante é que, depois de todo encontro, alguém faz uma ata relatando os principais tópicos discutidos. Esta ata é enviada para consideração por todos e depois armazenada online. É uma forma muito boa de relembrar o que foi discutido, além de passar as informações para alguém que não esteve presente no encontro.

No mestrado não participei de grupos além de Gepea, exceto por um grupo de discussão de artigos que não durou muito tempo. E no mestrado eu sentia que eu não tinha muito tempo para isso, com os prazos curtos e tal. Mas me arrependo de não ter ido atrás.

Então, no doutorado, continuando a participar do Gepea, senti uma necessidade muito grande de conversar sobre temas de Ecologia. E então veio a minha salvação, os LEEC Meetings! LEEC Meetings porque eram do Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação, na Unesp de Rio Claro. O que significa que eu tinha que dirigir ~50 minutos para participar deles, mas valia totalmente a pena. Encontros semanais, discutindo artigos relativamente curtos (não mais que dez páginas) sobre ecologia da paisagem. Algo interessante destes encontros é que a discussão normalmente gira em torno das questões: Qual é a variável-resposta e as variáveis-explanatórias usadas? Qual é a unidade amostral? E Como podemos fazer um estudo parecido na nossa região? Foi um aprendizado muito bom sobre ecologia da paisagem e também sobre como interpretar e avaliar melhor um artigo científico. (A desavantagem de ser em outra cidade é que às vezes o carro quebra no meio do caminho………….)

E outro exemplo, um grupo que estamos montando agora, é o Ecologia 222, na UFSCar. Ecologia 222 porque é um grupo de discussão de Ecologia que acontece toda segunda segunda-feira do mês às duas horas da tarde. Um belo nome, não? 😉 A idéia básica é discutir artigos de revisão sobre temas interessantes de ecologia. Ainda está bem no começo e eu não estou participando por motivos de distância, então depois conto como foi/está sendo!

E bem, não poderia deixar de falar de lab meetings nos quais se fala de projetos individuais dos membros de um dado laboratório. Considero eles também essenciais para receber um feedback sobre seu projeto ou sobre algum trabalho a ser apresentado. Mas não tenho tanta experiência com lab meetings assim e o texto já está gigante, então vou ficando pro aqui mesmo. 🙂

Abraços do Pavel, que está no Canadá, e que a Força esteja com vocês!