Não consigo escrever! Como faz?

Depois de uma longa parada, cá venho eu escrever mais um post. (Em minha defesa: há tantos blogs supimpa por aí que nem sobra muita coisa pra escrever. E as coisas que sobram pra escrever via de regra requerem um estudo mais aprofundado. Mas, vem aí, em um tempo próximo ou mais ou menos próximo ou distante, uma revisãozinha de softwares livres de estatística 🙂 )

Venho escrever hoje sobre um fenômento talvez universal entre nós estudantes: o bloqueio criativo. Sabem, aquele bloqueio que faz com que você sente em frente ao computador… olhe pra tela… abra um arquivo no word… Olhe pra ele… Olhe pra ele… Escreva uma frase… Olhe pra ele… Olhe mais um pouco… Escreva mais duas palavras… Vá almoçar, porque nisso já se passou a manhã inteira… Tente lembrar onde você leu aquela informação muito interessante pra colocar no trabalho… vá atrás da referência… volte pro computador… olhe pra tela… escreva uma frase… apague metade do que escreveu… Vá preparar um miojo porque nisso já se passou o dia todo…

Tá, posso ter exagerado um pouco, mas vocês entenderam… Aquele momento em que você precisa escrever sua tese/artigo/TCC, e simplesmente nada sai. Momentos estes frequentemente intermeados por visitas ao facebook, obviamente.

Bem, eu não sou nenhum especialista no assunto, mas acho que posso dar uma ou duas sugestões para superar estes momentos e, tal qual um grupo de zerglings que invade a base inimiga em um piscar de olhos, escrever a sua tese/artigo/TCC de uma forma (relativamente) rápida e eficiente.

Começo com uma tradução livre de algo que Frank Herbert, escritor de ficção científica (entre outras profissões) e autor de Duna, disse sobre o assunto (trecho retirado de Shoptalk: learning to write with writers, editado por Donald Morison Murray, Cook Publishers, 1990 – de acordo com o Wikiquote ):

“Um homem é tolo se não coloca tudo que tem, em um dado momento, naquilo que ele está criando. Você está aí, agora, fazendo seu trabalho no papel. Você não está matando o ganso, você está apenas produzindo um ovo. Então eu não me preocupo com inspiração, ou qualquer coisa do tipo. É uma questão de sentar e trabalhar. Eu nunca tive o problema do bloqueio do escritor. Eu ouvi falar sobre ele. Eu estive relutante em escrever alguns dias, por semanas inteiras, ou às vezes até por mais tempo. Eu preferiria estar pescando, por exemplo, ou apontando os lápis, ou nadando, ou qualquer outra coisa. Mas, posteriormente, voltando e lendo o que eu havia produzido, eu não consegui ver diferenças entre o que vinha fácil e quando eu tinha que sentar e falar, ‘Bem, agora é hora de escrever e agora eu vou escrever’. Não há diferença no papel entre os dois.” (Frank Herbert, 1990)

Ou seja… Não adianta esperar a inspiração, porque ela pode não vir. Mas não estou dizendo que adianta ficar sentado o dia inteiro olhando pra tela do computador para tentar escrever algo. Adiantaria mais se fôssemos escritores; mas somos cientistas, ou aspirantes a cientistas, ou ao menos estamos brincando de cientista… E, cientistas que somos, temos muitas coisas diversas a fazer (não estou falando que escritores e outros profissionais não tenham; não me levem a mal!) – analisar dados, coletar dados, pensar em projetos, delinear experimentos, fazer gráficos, tabelas, figuras, ir atrás de referências, estudar…

Então, eu mudaria a frase do Herbert para “Bem, agora é hora de fazer ciência e agora eu vou fazer ciência”. Se você não está conseguindo escrever a tese porque a inspiração acabou – faça aquele gráfico lindo pra convencer a banca de que seus resultados fazem sentido; ou leia aquela referência chave para sustentar melhor as suas conclusões; ou ao menos formate o trabalho pra ter menos trabalho com isso depois. Pode parecer pouco, mas, na minha experiência (muito limitada), esses pequenos progressos vão se somando e de repente o trabalho está pronto, só falta fazer o sumário, dar uma lida final, e imprimir.

Uma outra recomendação que tenho é desse artigo sobre snack writing, que eu considero leitura essencial pra qualquer aspirante a cientista. Esse artigo, publicando em um dos blogs da Nature (e que não tentarei traduzir aqui, rs), traz um conselho bem-simples, que ele denomina de snack writing. A idéa é escrever por curtos períodos de tempo, talvez 40 minutos, ou até uma hora e meia, duas horas, todo dia. Sendo que “todo dia” quer dizer “todo dia”. Não “todo segundo dia” ou “de vez em quando”. (Não fala nada sobre fins de semana, então isso vai de cada um…) E define bem claramente  o que significa “escrever”:  “Escrever – ao menos para suas sessões de snack-writing – significa colocar palavras novas na página ou reescrever substancialmente as palavras existentes”. Não é procurar artigos, não é ajeitar referências (e definitivamente não é responder emails). As outras tarefas, como as citadas acima, podem ser feitas no restante do dia, quando não se está escrevendo.

O que eu tenho feito é já me planejar para trabalhar de modo a sempre ter algo novo a escrever na sessão de snack writing do dia seguinte. Por exemplo, se estou travado na introdução, tento ir atrás de artigos que eu possa citar, e no dia seguinte eu adiciono um ou dois parágrafos com esses artigos. É claro que não consigo sempre, mas isso funciona bem melhor do que eu tentava escrever à medida que ia lendo. Talvez porque precisemos de um tempo para organizar as idéias e decidir o que de fato deve ser escrito. Afinal, um trabalho científico é um conjunto de idéias apoiadas em referências, não um conjunto de referências tentando formar uma idéia. Então eu acredito que a sugestão que posso dar, com base na minha experiência limitada, é: escrever, o quanto conseguir escrever de forma eficiente, todo dia; e usar o restante do dia para se preparar para escrever melhor no dia seguinte. Ao menos é o que tem funcionado melhor pra mim; seria legal ouvir o que funciona para outros pessoas! (Isso foi um convite para comentar no post 😉 )

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