Artigos VS Tese

Interessante – foi só escrever que ia dar oficialmente um tempo neste blog que decidi voltar a escrever… Algo a se ponderar. (Bom, eu devia estar analisando dados, então acho que este post pode ser considerado uma procrastinação estruturada, talvez?) Estava hoje eu vindo no ônibus lotado pra universidade (“A vida é um buzu lotado pro Vilela”, diz a grafitagem em um muro próximo ao terminal urbano em Ilhéus. “A vida acadêmica é um buzu lotado pra UESC às 6h30 da manhã”, eu complementaria) e pensando sobre um texto para este blog (talvez para não pensar em artigos… Procrastinação estrutura FTW!).

Atualmente existe uma tendência, com a qual acho que concordo, de escrever dissertações de mestrado e teses de doutorado já diretamente em formato de artigos científicos, prontos para submissão. Isso tem algumas desvantagens: na tese podemos colocar mais detalhes e informações que provavelmente não fariam parte do artigo; podemos colocar imagens do nosso bichinho fofo ou das nossas plantinhas lindas; podemos colocar gráficos exploratórios, detalhes de análise que não vão pra versão final; enfim, é possível mostrar o que de fato foi feito nestes longos (às vezes muito longos, às vezes só um pouco longos) anos de pós-graduação.

Mas será isso uma vantagem mesmo? Do que adianta uma foto linda em uma tese que será lida por 1.6 pessoas, incluindo o(a) autor(a)? Ela estaria muito melhor colocada em um site de divulgação científica; ou talvez um blog; uma conta no Flickr; ou, idealmente, em uma revista ou outro material de divulgação científica, publicado e de ampla distribuição. E sobre aqueles gráficos exploratórios – bom, eles são apenas exploratórios, não é mesmo?, e sobre aqueles detalhes da análise ou análises adicionais que não cabem em um artigo científico – bom, talvez não caibam por não serem importantes, não? Já existe uma sobrecarga tão grande de informações na Rede, pra que aumentar mais ainda ela com informações não-essenciais?

(É claro que existe um espaço para tais informações, onde a liberdade é quase plena, as regras da escrita científica não se aplicam, e suas idéias podem voar livremente, como grandes aves nos céus. Você está neste espaço. Sinta-se livre para seguir o exemplo.)

Por outro lado, muitas vezes a tese ainda não está totalmente pronta para ser submetida como um artigo científico. E eu pessoalmente não vejo grandes problemas nisso. A meu ver, uma tese (ou uma dissertação de mestrado) tem a função primária de formar a pessoa que a escreveu. Afinal, tendo defendido a tese de doutorado, passa a se ter o título de Doutor, ou Doutora. Praticamente se adquire o direito de chegar para alguém e falar “Olá. Eu Sou O Doutor.” E dissertação de mestrado – você se torna quase um páreo para o Mestre Yoda! Tá, estou exagerando, mas aonde quero chegar é: o produto do mestrado ou do doutorado não é a tese. É a pessoa. E a tese, a meu ver, deve mostrar que a pessoa merece este título, está pronta para assumir as responsabilidades que vêm com ele. Pode escolher seguir por outro caminho, mas tem as habilidades e conhecimentos necessários. Não é o fim do caminho; como ao atingir a faixa preta em uma arte marcial, pode ser apenas o começo do caminho. Mas é um começo alto-nível, por assim dizer.

E se pressupõe que, antes de atingir o Primeiro Dan em uma área de conhecimento, um novo conhecimento científico seja produzido. Porque é isso que nós cientistas fazemos – nós produzimos conhecimento. Mas para produzir conhecimento, é preciso também ter conhecimento. E para que o conhecimento possa ser considerado como tendo sido produzido, ele precisa ser exposto ao mundo. Solto para correr, livremente, ser lido, criticado, festejado, servir de inspiração, estimular, desestimular, enfim… Tudo com um certo critério de qualidade. E é aí que entra o artigo científico.

O produto de uma pesquisa científica é o artigo científico. É ele que mostra qual conhecimento novo for criado. E reparem na diferença: o produto de um doutorado é a pessoa; mas de uma pesquisa é o artigo. A pesquisa não necessariamente termina na defesa; eu mesmo estou ainda analisando dados do meu doutorado… assim como da minha iniciação científica. A pesquisa ainda não esteja pronta quando defendi – mas eu estava. Ou assim eu gosto de pensar. Acho que pessoas têm concordado… (Em termos de produtos finais, talvez o principal produto direto da minha tese, até agora, tenha sido a disciplina sobre estatística Monte Carlo que comecei a ministrar ano passado aqui na UESC).

E, no caso de um artigo científico, não faz tanta diferença o que você, pessoa que escreveu este artigo, sabe ou não sabe. A questão ética é que só sejam listadas na autoria pessoas que tenham de fato contribuído com o artigo, e que pessoas que tenham de fato contribuído não sejam excluídas. Mas não se espera que todas/os as/os autoras/es saibam tudo sobre o artigo. Eu poderia muito bem escrever um artigo sobre como bordas afetam besouros rola-bosta no cerrado sem entender nada sobre estes besouros – mas precisaria ter junto alguém que entenda do grupo*. (Sabiam que existem três guildas de rola-bosta? Os que nidificam nas fezes, os que fazem túneis debaixo das fezes, e os que de fato rolam as fezes. Lindo, não?) Mas eu não poderia escrever uma dissertação ou tese nestas circunstâncias – na dissertação ou tese, eu teria que entender sobre todos os aspectos do trabalho, pois senão o produto final – eu – seria incompleto.

No caso de um trabalho de mestrado ou doutorado, eu diria que a pessoa precisa conhecer, talvez não com todos os detalhes mas com um bom grau de aprofundamento, todos os aspectos do trabalho. Em uma pesquisa ecológica, eu dividiria isso em quatro aspectos: o processo (e.g. influência de borda); o sistema de estudo (cerrado paulista); o grupo de estudo (besouros rola-bosta); e o método, dividido em amostragem (pitfalls) e estatística (seleção de modelos). Ao escrever um artigo, cada autor ou autora pode focar em um único aspecto disso tudo, e isso pode até resultar em trabalhos muito melhores – é difícil ter um conhecimento aprofundando sobre tudo, mas é relativamente fácil juntar estes conhecimentos aprofundados de diferentes pessoas. Mas eu esperaria que a autora ou o autor de uma tese ou dissertação entenda e saiba defender todos os aspectos.

E escrever artigos sem ter essa obrigação, podendo confiar nos conhecimentos das outras pessoas, tem sido uma experiência libertadora. 🙂

*Sim, estamos escrevendo justamente este artigo e sim, temos quem entenda dos besouros na nossa equipe. 🙂

Entrando oficialmente em standby

Só pra explicar a falta de postagens nos últimos tempos e nos tempos vindouros…

Minha idéia inicial com este blog era postar de vez em quando, talvez uma vez por mês, ou uma vez a cada dois meses, sobre temas relacionado a ecologia, análise de dados e quem sabe educação ambiental. Mas nem isso eu estava conseguindo fazer… Pois bem, em um resposta a comentário, o Jeremy Fox, do Dynamic Ecology, comentou que o ideal num blog é ter uma frequência ao mínimo semanal nas postagens. E, agora que comecei a acompanhar mais blogs por aí, acho que concordo.

Bom… Eu tenho várias idéias sobre temas para escrever. Mas tudo isso demanda tempo; e atualmente eu estou fazendo pós-doutorado (PNPD) o que, para mim, significa me dedicar a 1) publicar artigos, 2) dar aulas (de preferência boas…), e 3) estudar, estudar, estudar, estudar, já falei em estudar? Infelizmente isso não inclui trabalhar com extensão (um outro tema sobre o qual eu pretendo escrever ainda; algo com que trabalhei durante a graduação, mestrado e doutorado inteiros) e tampouco atualizar este blog…

A questão, no fundo, é que, numa carreira acadêmica, ou numa carreira de qualquer outro tipo, ou na vida quem sabe, decisões precisam ser tomadas e algumas coisas devem ser priorizadas para atingir um objetivo; e a priorização de algo sempre tem um preço. Não existe almoço grátis, exceto para as/os penetras em coffee-break de congresso. Sendo assim… Aguardem uns meses que este blog um dia voltará à ativa. 🙂

Vida longa e próspera! \\//_