“Lá fora” – intercâmbio acadêmico no exterior

Ontem aqui na UESC tivemos uma série de seminários sobre como é fazer um doutorado-sanduíche no exterior, na qual também falei da minha experiência; e hoje o Marco Mello postou um excelente texto sobre o (provável?) fim do Ciência sem Fronteiras e como ele não representa o fim dos intercâmbios. Este blog não poderia ficar fora dessa, né? 😉

Para mim, pessoalmente, fazer parte do meu doutorado no exterior sempre foi um sonho, um objetivo e algo que eu nem cogitava não fazer. Assim, recomendo que, havendo oportunidade, façam. Têm medo? Normal. Medo faz parte da vida, mas medo pode ser superável. Visualizem como será uma experiência linda e como trará novos aprendizados. E lembrem-se que medo é o caminho para o Lado Negro. Medo leva à raiva. Raiva leva ao ódio. Ódio leva ao sofrimento. Palavras de Mestre Yoda, não minhas.

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Dito isso, não havendo oportunidade, busquem-na! Mas não recomendo uma busca determinada pelo lugar – algo como “Poxa, queria tanto ir pro exterior… Austrália parece um lugar legal! Será que lá tem alguém que trabalha com relacionado com o meu projeto?”. Este caminho não vai levar ao Lado Negro (acho), mas provavelmente levará a um aproveitamento sub-ótimo. Um pensamento melhor seria “Queria tanto trabalhar com [insira aqui nome de pesquisador ou pesquisadora que você admira]! Citei seus trabalhos e aprendi muito com eles e estar sobre a tutela desta pessoa seria um sonho. Onde ela trabalha mesmo?”. Depois disso entram outros fatores relevantes – a universidade, o grupo de pesquisa (grupo de pesquisa pode ser até mais importante que o orientador ou a orientadora!), o país, a língua… (Palavras minhas, mas também do Marco Mello. Como podem ver, apenas grandes nomes aqui.)

Falando um pouco da minha própria experiência: Foram seis meses no Canadá, e provavelmente foram o melhor período da minha vida. Fiquei quatro meses em Halifax, NS, onde morei em um alojamento do YMCA (sim, YMCA). Contato com gente do Brasil: quase nenhum. Portanto, intensivão de conversação em inglês, com gente de sotaques diferentes. Sotaque chinês é dahora. Trabalhei na Dalhousie University; escrevi artigos, analisei dados, e me preparei para o meu campo – sim, fiz campo no exterior. E essa provavelmente foi a experiência mais marcante. Ainda não publiquei aqueles dados (mas está em andamento!), mas o simples fato de fazer campo na tundra, em terra de ursos polares – eu estudei plantinhas mas também vi ursos polares – foi incrível.

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Eu não ia deixar de fazer uma montagem assim né? :-)*

Duas outras pessoas do meu lab também fizeram campo no exterior, e acho que foi igualmente marcante. E além de tudo, isso permite ver melhor como diferentes pessoas trabalham “lá fora” – como fazem campo, como por vezes sofrem em campo, como os campos por vezes não são lá muito organizados… Além de ver o que funciona bem em outros lugares, também vemos o que funciona bem no Brasil. (Tem também uma questão ideológica – não sou a favor de simplesmente exportarmos dados para os analisarmos “lá fora”; talvez um dia eu escreva sobre isso.)

E sobre a questão de financiamento – o Ciência sem Fronteiras não é nem nunca foi a única opção. Eu mesmo fui financiado por um programa canadense direcionado a estudantes da América Latina. Portanto, havendo vontade suficiente e se esforçando o suficiente, é possível! Sendo assim, minha recomendação é procurar aquele pesquisador ou pesquisadora que você admira, fazer contato e ir atrás de oportunidades. (Isso são palavras minhas mesmo, acho) E a questão do medo? Bom, ao contrário do que diz o Iron Maiden, o medo não é a chave. Prefiro a litania das Ben Gesserit. Deixar o medo passar por você, fazer contato sem medo e enfrentar a saudade e a cultura diferente sem medo.

E você, já teve sua experiência acadêmica “lá fora”? Se sim, como foi? Se não, quais as expectativas? Comentem! 🙂

*Em terra de ursos polares, enquanto uma pessoa coleta dados outra pessoa fica de guarda com uma espingarda. Mas a arma é só para o último caso, quando tudo já deu errado, e acho que lá nunca teve acidentes com ursos em campo.

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5 pensamentos sobre ““Lá fora” – intercâmbio acadêmico no exterior

  1. Pingback: Oportunidades de bolsa no exterior – Mais Um Blog de Ecologia e Estatística

  2. Oi!
    Reli esse ótimo post, pois estou na fase de elaborar a papelada para poder ir para o exterior (Uhu!).
    É muito legal saber suas experiências no Canadá, pois, de certa forma, como você é meu amigo e eu te conheço bem, toda vez que você conta algo sobre lá é como se eu tivesse ido para lá também 😀
    Sugiro a todo mundo que está na pós que busque estágios no exterior, eles nos nivelam para cima. Acho que nos tornamos pesquisadores melhores e também muito possivelmente pessoas melhores tendo esse contato com o mundão “lá fora”.
    Sobre o comentado no post de que querer ir para um “lugar” mais do que ir para perto de uma “pessoa” pode pode levar um aproveitamento sub-ótimo, eu não sei se concordo.. O que eu acho é que tem muita gente boa em muito lugar bom. A ciência avança tão rapidamente, que pode existir um (ou vários) cara que estuda o mesmo processo que você em outro sistema, por exemplo na Austrália, linda e maravilhosa Austrália, que pode te orientar. E isso pode casar com seu sonho de querer ir morar na Austrália. E nesse caso você iria mais pelo lugar do que pela pessoa, e nem por isso seria sub-ótimo. E também, algo que meu orientador me ensinou nos últimos tempos é que o ótimo pode ser inimigo do bom, academicamente falando e também na vida fora da academia. Se você pode ter o bom na Austrália e isso te satisfará, sub-ótimo vira ótimo! Muitas vezes nós nos “viciamos” em ler o mesmo tipo de revista, e os mesmos grupos de pesquisas, em detrimento de descobrir pessoas muito boas que trabalham com coisas que complementam nossa pesquisa. Pessoas que às vezes nem lemos muito, nem citamos muito. E cada escolha uma renúncia, né? No fim, nunca saberemos qual seria o ótimo ideal nas nossas vidas a partir de N tipos de escolhas possíveis. O que eu busquei no mestrado foi justamente complementação, e não mais do mesmo na pesquisa que eu estava desenvolvendo.
    Agora sobre a escolha do “cara/mina” que vai te orientar: Sobre escolher pessoas, o que adianta você conseguir ir pro lab do cara que tem 10 Sciences e conseguir se reunir com o cara duas vezes em 10 meses? Talvez valha a pena pelo nome do cara, pelo ambiente de lab que o cara proporciona, mas também pode brochar expectativas de pensar junto com o cara.. Talvez os pós-docs do cara sejam de fato quem vai te acolher e trabalhar junto com você. Ou talvez valha a pena pelo nome do cara, pelo fato de a Instituição ser incrível, ou pelo país e suas pessoas!
    Por fim, acho que o feeling é essencial. Quando eu vou tomar a decisão de ir para um lugar, o limiar da decisão é algo que vai além da produção da pessoa, do lugar, do país. É algo que normalmente tem a ver com a pessoa que me receberá, tem a ver com sentir que a pessoa vai fazer bem para você tanto pessoal quanto academicamente. A relação mestre-aprendiz é linda e o ideal é não desperdiçar o período sanduíche com uma pessoa que não te valoriza enquanto aluno e pessoa.

    Viva as colaborações e a Ciência!
    Aproveitando, deixo o link do meu post sobre estágio no exterior:
    http://umabiologa.blogspot.com.br/2014/03/repasse-do-estagio-no-exterior-bepe.html

    • Oi Renadica! Bom te ver por aqui, e obrigado pelo comentário 🙂
      Concordo super com o que você falou! Talvez eu não tenha me expressado muito bem no post, ou talvez eu tenha mudado de ideia neste ano que se passou, rs. A verdade é que a minha experiência foi incrível em todos os sentidos, pela orientação da Karen, pelo lugar, pelas coisas que fiz, pelo campo, por aprender a manusear uma espingarda, por rodar uns GAMs pra minha amiga Caroline, pelo YMCA… Ou seja, uni totalmente o útil ao agradável, e nem se qual foi a parte agradável e qual foi a parte útil, rsrs.
      Então, sim, é uma combinação de fatores… Eu acho agora que devemos pensar em maximizar o nosso aprendizado, a nossa experiência, as lembranças que levaremos daquilo… Tenho uma amiga fazendo doc sanduíche com um cara top da área sendo que o cara não estará lá metade do tempo. Aí, de que adianta?
      Além disso, a vida não se resume ao Lattes e à Academia… Ter uma experiência acadêmica boa mas uma experiência pessoal ruim também não compensa muito. Novamente, no meu caso, foi um sonho em todos os sentidos – exceto talvez no de publicações, mas isso não era o objetivo mesmo.
      Então talvez o esquema seja pensar em o que o lugar, o ambiente, as pessoas, o orientador ou a orientadora vão te proporcionar… E achar uma solução parcimoniosa para isso.
      E acho que a produção científica da pessoa que vai te orientar não é um bom proxy pra experiência como um todo…

  3. Eeee ótimos comentários e concordo bastante com os pontos de vista de vocês, tive duas experiências bem legais de estágio no exterior e concordo que contribui muito para a formação do pesquisador, e além disso sair da zona de conforto e se expor é parte importante também pra aprender a superar o medo. Mas uma última coisa que eu acho importante lembrar é que as vezes a gente se frusta porque esperava ter um tipo de experiência e chegando lá as coisas não ocorrem como planejado, neste caso vale lembrar que quase todo pesquisador hoje em dia é super ocupado e muitas vezes pra eles (ou pra você) não fica claro qual tipo de orientação/colaboração se espera, por isso acho necessário conversar e combinar bem os objetivos do estágio. Outra coisa que aprendi é que os caras também tem seus problemas pessoais e da mesma forma que esta experiência é um misto de trabalho e vida pessoal pra nós temos que enxergar e as vezes relevar que pode ter muita coisa ocorrendo paralelamente na vida do supervisor, de novo a conversa honesta pra definir o tipo de interação que se espera entre aluno e professor e os objetivos do estágio ajudam a não deixar ninguém frustrado. Valeu Pavito!

    • Oi, Julia!
      Sim, acho que é bem por aí mesmo… Algo que ajuda é começar a conversar com a pessoa, e colaborar com a pessoa, um tempo antes da viagem. No meu caso a Karen já me coorientava fazia um bom tempo, então não houve nenhum problema. Mas se o contato prévio foi limitado a um aceite, do tipo “sim, pode vir aqui no meu laboratório”, as chances de frustração aumentam.
      E sim, empatia é importante! Todo mundo tem problemas… Não se pode esquecer que tanto orientadores quanto orientados têm sua vida, e conversas francas e honesstas são provavelmente o melhor jeito de evitar ou minimizar conflitos e frustrações 🙂

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