Por que ler blogs?

Nós cientistas e aspirantes a cientistas lemos muito. Lemos artigos (ao menos um artigo por dia, quando possível… Eu ainda não consegui fazer isso, mas um dia chego lá!), para nos mantermos atualizados e para nos aprofundarmos em algum assunto; lemos livros, para nos familiarizarmos com assuntos novos ou para nos aprofundarmos em algum assunto; lemos emails infinitos; lemos projetos, artigos, dissertações, teses que precisamos avaliar; coisas inúteis notícias do mundo da ciência no facebook; e, dependendo do gosto pessoal, podemos passar nosso tempo livre lendo sobre outras coisas (ou às vezes sobre as mesmas coisas – por que não ler mais sobre um tema do qual se gosta?). E boa parte do tempo que não estamos lendo estamos escrevendo – artigos, às vezes livros, emails, códigos em R e em Python, posts no facebook reclamando da vida divulgando coisas interessantes… Por que gastar mais tempo ainda lendo um blog?

(Se você está lendo isso, acredito que já tenha seus motivos… Soa até meio contraditório escrever um texto, em um blog, sobre por que ler blogs, né? …confusão mental… Mas você sempre pode usar este texto ao indicar um blog para alguém! Ou não.)

Bom, eu diria que há alguns motivos para ler blogs:

– É uma leitura mais simples e rápida do que um artigo cientifico. Um post de um blog pode ser tranquilamente lido em coisa de cinco a quinze minutos, a não ser que seja um post do Brian McGill explicado como organizar seus dados… O investimento de tempo é menor do que para ler um artigo científico, então é um tempo fácil de ser conseguido;

– A linguagem de um blog é mais simples e direta. Para mim, postagens em um blog são algo parecido com uma conversa informal ou talvez uma palestra em um ambiente colaborativo, por exemplo num laboratório – sendo que o texto pode alcançar milhares de pessoas em alguns casos. Blogs permitem falar de zumbis* para criticar hipóteses ecológicas e de Han Solo para explicar estatística Bayesiana**. É uma combinação ótima de leitura agradável e ideias profundas.

– Blogs mostram o caminho das pedras na jornada da/o cientista. As aulas na universidade, os livros, os artigos são excelentes nas questões técnicas, na teoria e por vezes na filosofia por trás disso tudo, mas não costumam falar sobre como é a vida no meio acadêmico. É claro que existem artigos e livros discutindo justamente isso, mas, a meu ver, são poucos e nem de longe suficientes para as necessidades de quem está começando esta jornada; ou quem já a começou e de repente está pensando “onde é que fui me meter?”; ou até mesmo de quem está percorrendo o caminho a passos largos sem dúvidas e sem desvios, mas ainda assim precisa de algum direcionamento (vai que era pra pegar aquele desvio ignorado com tanta convicção?). Eu mesmo aprendi muito com o blog Sobrevivendo na Ciência, do Marco Mello, e recentemente comecei a seguir outros blogs – Dynamic Ecology, Scientist Sees Squirrel, Ecology B1ts – que estão ampliando minha visão da ciência, da ecologia e da estatística. Assim, blogs podem fornecer uma tutoria e orientação que raramente temos na Universidade, uma orientação sobre como ser cientista.

– Blogs permitem discutir ideias de uma forma que artigos científicos não permitem. Uma ideia nova, uma crítica a alguma teoria ou hipótese, considerações sobre análise de dados – tudo isso tem seu espaço em blogs científicos. Opiniões a que em outros tempos só teríamos acesso em livros ou artigos nem sempre disponíveis, ou assistindo palestras em eventos, adquirem seu espaço na internet, podendo ser lidos em qualquer esperto-fone. E – o melhor de tudo – há espaço para comentários! Pode-se comentar sobre a opinião, discordar dela, fazer perguntas – e ser respondida/o! Além de ajudar na discussão de ideias, isso até ajuda a criar um sentimento de pertencimento, do tipo “olha só, estou discutindo com cientistas do outro lado do mundo com quem nunca me encontrei na vida real, e até que temos uma certa sintonia”. Embora os comentários em blogs parecem estar ficando cada vez mais raros e sendo substituídos por uma comunicação (a meu ver muito mais rasa) no facebook, eu diria que eles são uma parte essencial de blogs. Inclusive o velho mantra “nunca leia os comentários”, tão comum no facebook e no saudoso orkut, não se aplica a blogs de qualidade.

– E, para mim, leitura de blogs fica numa deliciosa interface entre trabalho e lazer. Eu adoro ler, e ao ler um blog estou simultaneamente me divertindo (sim, é divertido, uai! Talvez isso seja o melhor motivo pra ler blogs, no final das contas) e trabalhando (afinal, é sobre ciência e ecologia que estou lendo). 🙂

E vocês, caras leitoras e caros leitores, quais motivos os levaram a ler blogs? Comentem nos comentários! 🙂

*Bom, até aí, existe ao menos um artigo científico falando de unicórnios***… Mas vocês entenderam.

**Inclusive tenho usado este exemplo nas minhas aulas!

***Sabiam que as feridas provocadas pelo chifre**** de um unicórnio não podem ser curadas, nem com magia? Pois é.

****Ou será corno? o.O

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12 pensamentos sobre “Por que ler blogs?

  1. hahahaha adorei as notas de rodapé!
    E gostei muito do texto, Pavo! Você está ficando muito bom nisso!
    E acho que são chifres, pois eles não crescem de novo, crescem? XP

    • Obrigado! Adoro notas de rodapé, rs. São muito usadas no Dynamic Ecology e no Scientist Sees Squirrel. E chifres são trocados ao longo da vida, mas cornos não… O formato no unicórnio parece o corno do rinoceronte, mas o unicórnio talvez tenha mais a ver com cervídeos… Acredito que seja uma estrutura filogeneticamente e anatomicamente única! Nem corno nem chifre! rsrs

      On 8/30/16, Mais Um Blog de Ecologia e Estatística

  2. Muito interessante, Sensei! Bem, acho que blogs são divertidos. Eu mesmo tinha um durante a graduação, mas acabei ficando sem tempo…hehe

    • Obrigado! Eu já tive outros blogs antes desse, mas sem muitos objetivos… Aí percebi que também, quem sabe, eu tivesse coisas para compartilhar, e também fiquei inspirado com postagens de grandes mestres da ciência e dos blogs… 🙂

      On 8/30/16, Mais Um Blog de Ecologia e Estatística

  3. O mais fascinante dos blogs em estilo diário, tão em baixa hoje em dia, é justamente pôr à vista o processo de construção do conhecimento (obstáculos, mudança de objetivos e prioridades, da onde a pessoa tirou a ideia, como lidou com a ideia, etc.) e o experimentalismo. Aí, quando se trata de experimentalismo, o céu do tamanho do texto é o limite mesmo! Dá pra experimentar em texto pra 15 minutos e em texto pra 15 horas de leitura.

    Tem muito conteúdo na Internet, mas falta qualidade de conteúdo e generosidade pra compartilhar conteúdo sem medo de julgamentos e juízos. Acho que a prática dos blogs deve ser incentivada e um hábito muito saudável pro conhecimento e pra pessoa como ser humano. 🙂

    PS.: Tinha escrito um comment gigantesco mas deu um pipoco na luz, desligou o PC e meu comentário foi pro espaço! Nunca acontece isso aqui! Humpf!

    • Acho que esse é o maior comentário que já recebi neste blog… rs
      Não tinha pensado sobre esse estilo de blog, mas se for ver, foi assim que eles surgiram, né? De fato, seria interessante acompanhar o processo criativo de alguém; uma vez fiz isso com a escrita de um poema, mas nunca pensei para um artigo científico… Mesmo porque acho que seria entediante!
      Eu vejo mais como uma oportunidade de compartilhar ideias que valham a pena (ou não… rs) serem compartilhadas… E assim mostrar, indiretamente, a evolução das ideias com o tempo!
      …Pior que parece que o hábito de comentar em blogs, apesar de tudo, está se perdendo… O que é uma pena, porque é uma troca muito boa de ideias! Vide o Dynamic Ecology 🙂

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