A universidade faz parte da cidade

Este é um post convidado, escrito pelo amigo Djalma Nery, amigo de São Carlos, permacultor e educador; e também candidato a vereador das eleições de 2016 mais votado que 2/3 da câmara atual eleita porém impedido de assumir devido às leis eleitorais que favorecem acordos e coligações. rs

Primeiramente, Fora Temer 😉 rs

Quero agradecer o convite do amigo Pavel para colaborar com seu blog. Gosto muito de escrever, e o tema que me foi proposto instigou-me ainda mais a expor algumas opiniões e ficar à disposição para qualquer diálogo que daí possa surgir.

Primeiro porque, em certa medida, me identifico com ele, uma vez que minha principal atuação profissional (e boa parte da social) se dá no meio acadêmico; depois porque se trata de um tema da maior importância em uma cidade como São Carlos, onde em termos relativos, temos a maior concentração de estudantes universitários do Brasil (não me perguntem a fonte, mas li isso em algum lugar há pouco tempo).

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Ensinando educação ambiental

Depois de ministrar uma disciplina sobre métodos Monte Carlo e programação em R, fui para Barreirinhas, no Maranhão, ministrar uma disciplina chamada Educação Ambiental e Conservação do Cerrado. Ensinar estatística e logo depois ministrar uma disciplina de educação ambiental foi uma experiência… Inusitada, eu diria.

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Olhem quanta gente bonita numa foto só!

“Mas Pav, por que é que você foi ministrar uma disciplina de educação ambiental, e tão longe ainda por cima?”

Bom… Por que não? Porque sim Porque é dahora Porque queria passear e visitar uma amiga e ela perguntou se eu poderia dar uma disciplina sobre este tema, no Instituto Federal de Maranhão (IFMA) em Barreirinhas! Aí eu falei, quero uai. Unir o útil ao agradável (aí fica a pergunta, qual dessas partes é a útil e qual é a agradável? Hummmmm….).

Um pouco de plano de fundo: Nos meus dez anos na UFSCar, além de fazer iniciação científica-mestrado-doutorado, eu fiz parte, entre outras atividades, do grupo Trilha da Natureza, cuja principal atividade é a realização de visitas monitoradas em uma área de cerrado na UFSCar. Também fiz uma especialização em educação ambiental pela USP, fazendo uma pequena pesquisa sobre a importância que a Trilha teve para a formação de quem faz ou fez parte dela, e participei do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Ambiental (GEPEA) na UFSCar. Então acho que tenho algo pra falar sobre o assunto; o interessante foi que só percebi que tinha algo pra falar depois de ministrar a disciplina! Cheguei lá meio perdido e pensando, “será que sou de fato apto a isso?”…

Foi uma experiência fascinante. As/os discentes eram excelentes, super interessadas/os e participando ativamente da aula. Eu gosto de ter uma abordagem dialógica (tentando seguir os ensinamentos de Paulo Freire, talvez? Viés de educador ambiental!), conversando com a turma e promovendo questionamentos. Desta vez a participação foi muito boa – é claro que houve momentos “cri… cri… cri…”, mas a participação foi intensa, principalmente se tratando de questões de interesse local. Quais são as ameaças que o cerrado de Barreirinhas enfrenta? Que soluções têm sido propostas? E os problemas sociais?

Existe um conceito bem interessante, o conceito de wicked problems que talvez possa ser traduzido como “problemas perversos”. Não perversos no sentido de malignos (embora às vezes o sejam…), mas no sentido de problemas sem uma solução clara sobre a qual pessoas concordem. São problemas que podem ser vistos de muitos ângulos, e frequentemente não têm uma definição ou conceituação única, e lidar com eles frequentemente requer a participação de múltiplos atores, pontos de vista e abordagens… Transdisciplinaridade na veia! Pois bem, educação ambiental – e questões ambientais como um todo – se encaixam muito bem neste conceito. Afinal, qual o nosso objetivo na educação ambiental? Conscientizar? Transformar hábitos? Sensibilizar? É possível conscientizar alguém, ou isso vem de dentro? É possível transmitir conhecimento, ou conhecimento precisa ser construído e apenas informação é transmitida?

Então, tentei passar um pouco destes questionamentos e falar das diferentes linhas de educação ambiental, com ênfase na educação ambiental crítica… Uma que diz que não basta cada um e cada uma fazer a sua parte, é importante também ter uma ação coletiva. Afinal, a educação ambiental não é neutra, mas ideológica (palavras do Tratado de Educação Ambiental, não minhas), então dar uma disciplina sobre ela de forma neutra seria no mínimo contraditório! E também falei da minha experiência monitorando visitas, falando do que acho que funciona melhor em uma visita… Inclusive fizemos uma prática no cerrado no próprio IFMA, um cerrado lindo e que alguns discentes da turma já conheciam (e puderam assim praticar a monitoria!).

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O cerradinho do IFMA.

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Pessoas no cerradinho do IFMA

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Uma ninfa de gafanhoto (acho)! Viram como é legal olhar debaixo de folhas? Sempre pode ter um bichinho fofinho assim.

E não esqueci da parte ecológica. Dividi a disciplina da seguinte forma: 1) Introdução sobre trilhas interpretativas, 2) Ecologia do cerrado, 3) Conservação do cerrado – incluindo impactos como perda e fragmentação de hábitat, influência de borda, espécies invasores e incêndios atrópicos, 4) Aula prática, 5) Educação ambiental* e 6) Seminários, com as/os discentes apresentando pequenas propostas de atividades de educação ambiental a serem desenvolvidas envolvendo o cerrado. Acho que deu bem certo, mesclar os dois tipos de conteúdo – ecologia e educação ambiental – e finalizar com um seminários. Afinal, embora educação ambiental não se resuma à ecologia, acho complicado trabalhar com educação ambiental sem uma base ecológica, quase tão complicado quanto trabalhar com educação ambiental sem uma base pedagógica!

E acho que aprendi algumas coisas nessa experiência toda:

  • Trazer aspectos da realidade local pode fazer toda a diferença. Eu mostrei fotos que tirei vindo a Barreirinhas e nos meus passeios por lá** e acho que deu bem certo!
  • Pessoas da área podem saber bem mais que você sobre questões ambientais. Aproveite isso!
  • Se você trabalhou bastante tempo com alguma coisa, mesmo não tendo uma formação oficial intensa ou artigos publicados sobre o assunto, você provavelmente tem algo para falar e muita gente terá interesse em ouvir!
  • Conciliar trabalho e turismo dá trabalho… rsrsrs

E acho que é isso 🙂 E se o texto pareceu sem nexo, bom, ainda não organizei minhas ideias direito!

*Aproveito para agradecer à Mayla Valenti e à Valéria Iared por cederem alguma aulas sobre o tema, me ajudou muito!

**Vocês não acharam que eu ia deixar de conhecer os Lençóis Maranhenses, né? Fotos aqui.