Ensinando educação ambiental

Depois de ministrar uma disciplina sobre métodos Monte Carlo e programação em R, fui para Barreirinhas, no Maranhão, ministrar uma disciplina chamada Educação Ambiental e Conservação do Cerrado. Ensinar estatística e logo depois ministrar uma disciplina de educação ambiental foi uma experiência… Inusitada, eu diria.

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Olhem quanta gente bonita numa foto só!

“Mas Pav, por que é que você foi ministrar uma disciplina de educação ambiental, e tão longe ainda por cima?”

Bom… Por que não? Porque sim Porque é dahora Porque queria passear e visitar uma amiga e ela perguntou se eu poderia dar uma disciplina sobre este tema, no Instituto Federal de Maranhão (IFMA) em Barreirinhas! Aí eu falei, quero uai. Unir o útil ao agradável (aí fica a pergunta, qual dessas partes é a útil e qual é a agradável? Hummmmm….).

Um pouco de plano de fundo: Nos meus dez anos na UFSCar, além de fazer iniciação científica-mestrado-doutorado, eu fiz parte, entre outras atividades, do grupo Trilha da Natureza, cuja principal atividade é a realização de visitas monitoradas em uma área de cerrado na UFSCar. Também fiz uma especialização em educação ambiental pela USP, fazendo uma pequena pesquisa sobre a importância que a Trilha teve para a formação de quem faz ou fez parte dela, e participei do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Ambiental (GEPEA) na UFSCar. Então acho que tenho algo pra falar sobre o assunto; o interessante foi que só percebi que tinha algo pra falar depois de ministrar a disciplina! Cheguei lá meio perdido e pensando, “será que sou de fato apto a isso?”…

Foi uma experiência fascinante. As/os discentes eram excelentes, super interessadas/os e participando ativamente da aula. Eu gosto de ter uma abordagem dialógica (tentando seguir os ensinamentos de Paulo Freire, talvez? Viés de educador ambiental!), conversando com a turma e promovendo questionamentos. Desta vez a participação foi muito boa – é claro que houve momentos “cri… cri… cri…”, mas a participação foi intensa, principalmente se tratando de questões de interesse local. Quais são as ameaças que o cerrado de Barreirinhas enfrenta? Que soluções têm sido propostas? E os problemas sociais?

Existe um conceito bem interessante, o conceito de wicked problems que talvez possa ser traduzido como “problemas perversos”. Não perversos no sentido de malignos (embora às vezes o sejam…), mas no sentido de problemas sem uma solução clara sobre a qual pessoas concordem. São problemas que podem ser vistos de muitos ângulos, e frequentemente não têm uma definição ou conceituação única, e lidar com eles frequentemente requer a participação de múltiplos atores, pontos de vista e abordagens… Transdisciplinaridade na veia! Pois bem, educação ambiental – e questões ambientais como um todo – se encaixam muito bem neste conceito. Afinal, qual o nosso objetivo na educação ambiental? Conscientizar? Transformar hábitos? Sensibilizar? É possível conscientizar alguém, ou isso vem de dentro? É possível transmitir conhecimento, ou conhecimento precisa ser construído e apenas informação é transmitida?

Então, tentei passar um pouco destes questionamentos e falar das diferentes linhas de educação ambiental, com ênfase na educação ambiental crítica… Uma que diz que não basta cada um e cada uma fazer a sua parte, é importante também ter uma ação coletiva. Afinal, a educação ambiental não é neutra, mas ideológica (palavras do Tratado de Educação Ambiental, não minhas), então dar uma disciplina sobre ela de forma neutra seria no mínimo contraditório! E também falei da minha experiência monitorando visitas, falando do que acho que funciona melhor em uma visita… Inclusive fizemos uma prática no cerrado no próprio IFMA, um cerrado lindo e que alguns discentes da turma já conheciam (e puderam assim praticar a monitoria!).

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O cerradinho do IFMA.

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Pessoas no cerradinho do IFMA

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Uma ninfa de gafanhoto (acho)! Viram como é legal olhar debaixo de folhas? Sempre pode ter um bichinho fofinho assim.

E não esqueci da parte ecológica. Dividi a disciplina da seguinte forma: 1) Introdução sobre trilhas interpretativas, 2) Ecologia do cerrado, 3) Conservação do cerrado – incluindo impactos como perda e fragmentação de hábitat, influência de borda, espécies invasores e incêndios atrópicos, 4) Aula prática, 5) Educação ambiental* e 6) Seminários, com as/os discentes apresentando pequenas propostas de atividades de educação ambiental a serem desenvolvidas envolvendo o cerrado. Acho que deu bem certo, mesclar os dois tipos de conteúdo – ecologia e educação ambiental – e finalizar com um seminários. Afinal, embora educação ambiental não se resuma à ecologia, acho complicado trabalhar com educação ambiental sem uma base ecológica, quase tão complicado quanto trabalhar com educação ambiental sem uma base pedagógica!

E acho que aprendi algumas coisas nessa experiência toda:

  • Trazer aspectos da realidade local pode fazer toda a diferença. Eu mostrei fotos que tirei vindo a Barreirinhas e nos meus passeios por lá** e acho que deu bem certo!
  • Pessoas da área podem saber bem mais que você sobre questões ambientais. Aproveite isso!
  • Se você trabalhou bastante tempo com alguma coisa, mesmo não tendo uma formação oficial intensa ou artigos publicados sobre o assunto, você provavelmente tem algo para falar e muita gente terá interesse em ouvir!
  • Conciliar trabalho e turismo dá trabalho… rsrsrs

E acho que é isso 🙂 E se o texto pareceu sem nexo, bom, ainda não organizei minhas ideias direito!

*Aproveito para agradecer à Mayla Valenti e à Valéria Iared por cederem alguma aulas sobre o tema, me ajudou muito!

**Vocês não acharam que eu ia deixar de conhecer os Lençóis Maranhenses, né? Fotos aqui.

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Um pensamento sobre “Ensinando educação ambiental

  1. Comentário feito pelo Prof. Amadeu Logarezzi, da UFSCar, por email:

    tem uma questão que você enuncia e que me provocou certa imagem/reflexão que compartilho contigo, como parceiro de buscas:

    [ É possível conscientizar alguém, ou isso vem de dentro? ]

    a meu ver (e com base em Freire…), conscientizar não vem propriamente de dentro… diria que vem do encontro do dentro com o fora, sendo que no fora estão outros tantos dentros e o mundão efetivo sobre o qual dialogam os dentros em busca de enunciá-lo, conferir-lhe sentido, problematizá-lo e solucionar os problemas que o tenham feito tão desigual socialmente e tão degradante ambientalmente

    valendo frizar que a enunciação do mundo, a conferência de sentido a ele, sua problematização e a solução de seus problemas mais perversos (“wicked”, né?) devem ser processos dialógicos no sentido freiriano, portanto, necessariamente coletivos, além de abertos (inconcluível por princípio), respeitosos (cada pessoa, e todas elas, sabe coisas que merecem respeito na interação dialógica… e nenhuma pessoa sabe tudo – daí a necessidade da humildade epistemológica) e amorosos (ao me reconhecer a partir daquilo que não sou, do que fora de mim está, me identifico como eu e, ao, nisso, me com’fundir com o que não sou, desenvolvo um amor profundo ao mundo em sua efetividade, em particular às pessoas em sua subjetividade… e é no encontro dos amores, desses amores profundos e amplos – frutos dessas com’fusões de dentros e foras -, que surge tacitamente o compromisso com a transformação social que move cada uma e cada um de nós em seus âmbitos individuais e coletivos)

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