A universidade faz parte da cidade

Este é um post convidado, escrito pelo amigo Djalma Nery, amigo de São Carlos, permacultor e educador; e também candidato a vereador das eleições de 2016 mais votado que 2/3 da câmara atual eleita porém impedido de assumir devido às leis eleitorais que favorecem acordos e coligações. rs

Primeiramente, Fora Temer 😉 rs

Quero agradecer o convite do amigo Pavel para colaborar com seu blog. Gosto muito de escrever, e o tema que me foi proposto instigou-me ainda mais a expor algumas opiniões e ficar à disposição para qualquer diálogo que daí possa surgir.

Primeiro porque, em certa medida, me identifico com ele, uma vez que minha principal atuação profissional (e boa parte da social) se dá no meio acadêmico; depois porque se trata de um tema da maior importância em uma cidade como São Carlos, onde em termos relativos, temos a maior concentração de estudantes universitários do Brasil (não me perguntem a fonte, mas li isso em algum lugar há pouco tempo).

Outro dado interessante a nível local, é lembrar que dois prefeitos de São Carlos foram, antes disso, reitores da UFSCar (Newton Lima e Oswaldo Barba) sendo, portanto, quadros da comunidade acadêmica que alcançaram a confiança da população para assumir cargos gerenciais no município. Não obstante, é possível perceber uma enorme cissão entre a vida nas universidades e a vida no resto da cidade, e isso precisa ser debatido.

Sou de São Carlos e, por mais de uma vez, levei amigos e amigas universitários para locais da cidade que eles nunca tinham visto, como toda a zona sul (Antenor, Aracy, Gonzaga), ou mesmo regiões menos periféricas como Vila Prado, Jardim Medeiros e Redenção. E mesmo eu, que morei por 5 anos em Araraquara, praticamente não frequentei regiões afastadas do campus da UNESP como Selmi Dei e Vila Xavier. Isso é sintomático e demonstra a desconexão entre os círculos universitários e a cidade em si.

Um último exemplo é a atual restrição de entrada noturna no campus da UFSCar para não membros da comunidade acadêmica (professores, funcionários e alunos desta instituição). Novamente barreiras que se erguem com a justificativa de conter a criminalidade que se alastra para dentro dos muros da universidade mas que, na prática, só vão acentuar o abismo entre mundos que já se encontravam distantes, reforçando a cissão e uma artificial sensação de segurança.

Em minha opinião, precisamos pensar ações que aproximem as universidades e seus membros das cidades onde elas se encontram, e aproveitar dos profissionais e pensadores que elas produzem para formulação e implementação de políticas públicas das mais distintas naturezas. Até porque precisamos lembrar que as universidades públicas tem o dever de retornar o investimento com o que contam (que por vezes não é nada irrelevante, se observarmos o orçamento bilionário da USP, por exemplo) para a sociedade em geral, afinal, todas as pessoas, as de fora e as de dentro, são igualmente financiadoras de suas estruturas.

Guardadas as especificidades de cada circunstância, é preciso desterritorializar a política de dentro das universidades, e relacioná-la diretamente com a prática política municipal e regional, fazendo com que as instâncias acadêmicas (DCEs, centros acadêmicos, sindicatos, departamentos, etc) intervenham também sobre todas as esferas da administração pública com seu ferramental e arcabouço teórico/prático. Só dessa maneira, teremos um maior aproveitamento dos recursos investidos no ensino superior, e iremos superar essa cissão entre universidade e cidade.

Esse texto é, portanto, um convite ao engajamento. Por parte dos universitários, que se permitam conhecer e ser conhecidos pela cidade onde residem em sua completude (e assim que passarem no vestibular, transfiram seu título de eleitor para a cidade onde ficarão pelos próximos anos, porque isso vai fazer toda a diferença se for feito pela maioria, rs). Para os gestores locais: abram espaço para que os membros da comunidade acadêmica tenham cada vez mais vez e voz nas esferas da administração pública, e na formulação de ações concretas e políticas públicas efetivas.

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2 pensamentos sobre “A universidade faz parte da cidade

  1. Olá!

    Adorei esse post! Muito interessante a ideia de incentivar a comunidade de alunos a se envolverem com a cidade onde a universidade está estabelecida. De maneira geral, quando se discute o tema universidade versus sociedade, os argumentos sugerem uma solução vertical, que implicam que a universidade, representada pelos dirigentes, deve “se abrir à sociedade”. Só que ninguém pensa na ação dos alunos, né? Todo mundo espera que a Reitoria, os Departamentos, as Coordenações tomem as medidas. Tudo bem que eles tomam as medidas para fechar a universidade, sem dúvida. E aí, penso: quem sabe se, através de uma iniciativa como essa que você propõe, o tão defendido “acesso à universidade” ou a contribuição para a sociedade não sejam mais alcançáveis?

    Aliás, não acredito na boa vontade dos gestores locais.

    [Adendo: Falo pensando na USP-São Paulo, que é uma realidade muito aumentada de São Carlos, mas acho que não é tão diferente assim, mutatis mutandis.]

    Abraços!

    • Oi!
      Pois então, na UFSCar, por exemplo, boa parte das relações universidade-sociedade partia do corpo discente, ou ao menos tinha forte atuação dele. Iniciativas da Reitoria eram fracas; e uma pequena, mas importante, porção do corpo docente coordenava diversos projetos de extensão (que, novamente, não funcionariam sem a participação de estudantes, principalmente da graduação… Por algum motivo o interesse pela extensão parece se esvair quando alguém entra na pós. Salvo raras excessões.)
      Abraço!

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