Pesquisa, ensino e extensão, e unicórnios

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Quais são as funções da Universidade, no Brasil e no mundo? E as atribuições de quem faz parte desta Universidade?i

Universidade é um centro de pesquisa por excelência, e também um centro de ensino, formando profissionais de alto nível. Mas esses dois aspectos ficam frequente restritos à própria Universidade, como instituição – boa parte do conhecimento gerado é altamente específico e uma parte considerável do ensino forma pessoas para continuarem pesquisando e formando mais pessoas para continuar pesquisando… E às vezes ainda se sente uma frustração quando alguém decide não continuar na universidade fazendo pós-graduação e prestando concursos para trabalhar com outras coisas. Que é uma frustração bem estranha, considerando que nem todo mundo tem vocação para trabalhar com ciência!

Mas não é exatamente disso que quero falar hoje. E que fique claro – eu sou totalmente a favor da produção de conhecimento sem aplicações práticas imediatas, mesmo porque não sabemos o que terá utilidade no futuro!, e acredito no papel da Universidade em formar profissionais de alto nível. Mas não pode ser só a isso! Especialmente quando se trata de universidades públicas, sustentadas pelos impostos pagos pela população inteira. Precisa haver um retorno social que não seja apenas o retorno indireto das pesquisas que um dia retorna em forma de tecnologias ou políticas públicas (ou não) e das/os profissionais que se formam e preenchem o mercado de trabalho. Que fique claro mais uma vez, não estou desmerecendo a importância desses dois aspectos, da Pesquisa e do Ensino! Estou, pelo contrário, tentando chamar a atenção para um outro aspecto, o da Extensão.

Na minha graduação eu fiz parte do grupo PET Biologia, na UFSCar, e lá tive contato com uma ideia que levo para a vida: que a Universidade é formada e sustentada por três pilares: o do Ensino, o da Pesquisa, e o da Extensão. E idealmente, deveria haver investimento mais ou menos equivalente em todos eles. Como na imagem no começo deste post.

Mas na prática, me parece que às vezes é mais fácil achar um unicórnio do que um projeto de extensão numa universidade…

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Um unicórnio registrado na UESC pela minha amiga Letícia Aldrigui

Mas Pavel, o que são estes projetos de extensão de que tanto falas? Extensão não é aquilo que usamos pra ligar eletrônicos numa tomada que está longe?

Também, jovem padawan, também! O que me refiro aqui como extensão (ou outreach em inglês) é a ligação entre Universidade e Sociedade – levando projetos para a sociedade fora da Academia. Afinal, grande parte da Sociedade não tem contato com as atividades desenvolvidas na Universidade, muitas vezes nem sabe pra que a Universidade serve (não que a comunidade universitária necessariamente saiba…). Trabalhos de extensão servem para preencher este vazio.

Ah, legal! Então se eu der uma palestra sobre a minha pesquisa numa escola, por exemplo, estarei preenchendo este vazio?

Bom… Em parte sim. Mas só isso pode não ser suficiente. Por um lado, de fato, é muito interessante levar informações deste tipo para escolas e outros públicos! Melhor ainda se isso é algo institucionalizado e regular – por exemplo, um evento mensal. Lembro que havia, na USP de São Carlos, o Ciência às 19 Horas. E ainda tem! São palestras sobre temas diversos realizados no campus da universidade e abertas ao público. Eu fui em algumas durante meu terceiro colegial e, bom, o fato de eu lembrar delas mostra que foi uma experiência marcante.

Mas talvez não seja disso que aquelas pessoas precisam. Ou melhor, não seja apenas disso. Extensão deve servir também, ou quiçá até principalmente, para ajudar a resolver problemas enfrentados pela sociedade. Então um projeto de extensão poderia vir a suprir alguma demanda daquela escola. Talvez falte conteúdo de alguma matéria; ou talvez aquela escola seria melhor com uma horta coletiva; ou de repente acompanhamento de saúde? A coordenação e as próprias alunas e alunosii podem indicar caminhos para tais projetos.

Certo… Então eu identifico questões que requerem atenção e transfiro meu conhecimento especializado para que elas sejam resolvidas?

Novamente… Em parte sim. Em parte não. Recomendo o livro “Extensão ou Comunicação”, do Paulo Freire. Este livro trata de extensão agrária e discute que uma transmissão vertical do conhecimento muitas vezes não é a melhor opção. Atividades participativas, respeitando e levando em consideração os conhecimentos de todas as pessoas envolvidas, seriam melhores. Não se trata de desprezar o conhecimento técnico, se trata de não supervalorizar ele.

E falando em conhecimento – uma linha didática com a qual concordo fala em um triângulo cujos vértices são o conhecimento (entrando ali conhecimento técnico, mas também outros tipos de conhecimento), os valores (valores éticos e estéticos, por exemplo) e a participação (por exemplo pensando no diálogo entre participantes). Isso se aplica a tudo, inclusive ao ensino de estatística!, mas talvez principalmente a trabalhos de extensão.

Viu, desculpa interromper, mas isso vai valer algo pro meu currículo?

Desculpo. rs

Sendo sincero, até onde eu sei, bem pouco se você for seguir carreira acadêmica. Um artigo publicado numa revista científica vale bem mais do que dez anos guiando visitas e trabalhando com educação ambiental. Para outras áreas – não sei; experiência profissional conta, e estas atividades, dependendo de como forem colocadas no currículo, podem sim ser consideradas experiência profissional! Se você pleitear trabalhar em uma ONG, por exemplo, tais experiências podem ser importantes.

De qualquer modo, eu não acho que o currículo seja o mais importante na vida. Quem jogou jogos como Fallout 1 e 2 ou Baldur’s Gate sabe que o que vale na vida é XP e reputação. Sim, isso se aplica à vida também, pensou eu. De qualquer modo, pensando numa universidade pública – a sociedade investe na nossa formação, e espera-se que ela tenha um retorno. Este retorno pode se dar no futuro, sim, mas se já podemos dar algum retorno imediato, que justificativa temos para não fazê-lo? Alguns meses guiando visitas podem ter um impacto muito maior sobre a realidade do que um artigo publicado em uma revista científica. Sem falar que participar de tais projetos é muito gratificante.

Acho que meu orientador discorda…

Também acho. Não se pode ter tudo nesta vida… Mas alguns concordam!

Ainda não me convenceu…

Ah, não estou tentando convencer ninguém! Mas posso falar da minha experiência pessoal?

Pode!

Então! Em 2005iii, quando entrei na graduação, fiquei sabendo de um curso sobre ecologia do cerrado (ou assim o interpretei). Era o Curso de Formação de Monitores da Trilha da Natureza. Foi um curso muito legal, aprendi muito sobre o cerrado – talvez não teria começado a trabalhar no cerrado não fosse por ele – e, depois de feito o curso, resolvi entrar para o grupo. Vejam bem – eu entrei na graduação querendo fazer pesquisa, sabendo que quero ser cientista (continuou sabendo, olhem só que legal!), e de repente resolvi participar de um grupo de educação ambiental! E lembro que guiar visitas era a atividade mais gratificante que eu fazia naqueles tempos. E continuou nos top 5, tanto que continuei no grupo até me mudar pra Ilhéus em 2015. Lá aprendi sobre educação ambiental; depois fiz uma especialização no tema, e também participava de um grupo de estudos sobre isso (Gepea), mas participar da Trilha foi o mais importante. E acho que as visitas que guiei podem ter sido mais importantes para a sociedade do que todos os trabalhos que publiquei até agora. Sem falar da experiência prática, do aprendizado didático, de aprender mais sobre o cerrado… Enfim.

Participei também do grupo GAIA, na UFSCar, que lidava com algumas questões ambientais dentro da universidade, e do PET Biologia, com suas múltiplas atividades. Essas participações todas me forneceram experiências que eu não teria tido de outras formas – ou seja, não é só o nosso impacto na sociedade que está em jogo, é a nossa formação! E se não estamos na Universidade para nos formar e para ter um impacto na sociedade, não sei para o que estamos…

Agora no pós-doc eu dei uma parada, mas ainda tento e falho miseravelmente em manter atualizada uma página sobre aves urbanas no facebook (não, não trabalho com aves rs, mas tem um ornitólogo junto!) – acho que pode ser considerado extensão também – e tenho este blog… Que não é um blog de divulgação científica, e é direcionado mais à comunidade acadêmica, então não vou falar que é extensão, então nem sei por que mencionei ele agora – disfarça…

Hum, interessante! E como você sugere que alguém como eu me involva em tais projetos?

Obrigado por perguntar! Eu acho que existem algumas maneiras…

Estando na graduação: Recomendo, antes de tudo, ir atrás e descobrir quais grupos de extensão existem no seu curso e na universidade. Dependendo do lugar e da sua sorte, você vai achar algum que te interesse! E, pela minha experiência, a maior parte destes grupos sofre com falta de pessoas participando, principalmente pessoas dedicadas. E às vezes rola uma bolsa como um incentivo adicional.

Não achou nenhum grupo que lhe interesse? Às vezes vale a pena entrar em um que parece não te interessar a priori – vai que você muda de ideia! Eu não imaginava que iria trabalhar com educação ambiental quando entrei na universidade. Ou crie um grupo! O GAIA foi formado por estudantes preocupados com questões ambientais. Às vezes dá certo, às vezes não – como tudo na vida.

Não é suficientemente sociável para criar um grupo? A Internet está aí pra isso também! Crie ou colabore com um blog ou site de divulgação científica ou uma página no facebook sobre algum tema. Sempre existem opções. 🙂

Estando na pós-graduação: Aí às vezes fica mais difícil, por causa das cobranças para publicar artigos e defender no prazo e extensão – oi, extensão, pra serve isso mesmo? #ironiamodeon Mas também surgem algumas outras possibilidades. Você já tem mais conhecimento técnico especializado – então fazer um blog ou site de divulgação científica se torna mais fácil. E ele pode ser relacionado ao tema do seu trabalho, te proporcionando mais oportunidades e motivos para estudar o assunto e escrever sobre ele! Também é possível colaborar com órgãos públicos – quem sabe a prefeitura, ou o Ministério Público… Nunca tive muita vocação para esta parte, mas é possível, e atuando dessa forma podemos fazer uma bela diferença! No meu caso, eu continuei guiando visitas e colaborando mais com a organização do grupo, organização de minicursos e exposições e assim por diante. Inclusive acho muito legal quando há pessoas da graduação e da pós-graduação participando de um grupo, abre novas possibilidades de interação e novos aprendizados. Para quem está na pós-graduação possibilita não esquecer como era a vida de graduanda/o, o que pode ajudar bastante quando chegar a hora de dar aula; para quem está na graduação permite ter uma ideia de como é a vida na pós e decidir melhor sua vida futura.

Estando no pós-doutorado: Ainda estou tentando descobrir… Eu acho que é possível, mas talvez em menor grau… Afinal, pós-doutorado serve primariamente para fazer pesquisa e em alguns casos dar aula. Mas isso não lhe impede de trabalhar com divulgação científica também; inclusive vai ajudar a ter conhecimentos mais amplos, sem ficar totalmente especializada/o na sua área. E também atuar em áreas que requerem um conhecimento especializado – novamente, colaborações com órgãos públicos, ou pesquisas independentes sobre uma questão urgente e de importância. Aqui me vem a mente o Grupo Independente de Avaliação de Impacto Ambiental – GIAIA – que monitora os impactos que o rompimento da barragem da Samarco teve sobre o Rio Doce e a população.

Estando na docência universitária: Tudo que falei acima se aplica também, mas docentes na Universidade podem fazer algo a mais: criar e coordenar oficialmente projetos de extensão. Solicitar bolsas e recursos e assim por diante. Pouca gente faz isso, provavelmente por falta de reconhecimento de tais atividades por outras/os docentes e pela Capes. E também por falta de tempo, pois a sobrecarga na docência é violenta! Disciplinas para ministrar, pós-graduandas/os e ICs para orientar, bancas, artigos para escrever (não podemos desconsiderar a pesquisa também né), atividades administrativas… Ainda assim tem gente que consegue, e isso faz uma bela diferença. E imagino que seja bem gratificante também. Se tudo der certo, daqui a uns anos confirmo isso. 🙂

i Tudo apresentado neste texto são minhas opiniões pessoais, algumas com mais embasamento e outras com menos; considerem-nas ou ignorem-nas a seu bem-entender. 🙂

ii Repararam como eu não uso o masculino para representar os dois gêneros? Abaixo o machismo na linguagem!

iii Tendo entrado na graduação em 2005, acho que agora já sou considerado um trilobita pelas/os atuais graduandas/os da UFSCar… xD

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5 pensamentos sobre “Pesquisa, ensino e extensão, e unicórnios

  1. Parabéns pelo tema, realmente acredito que a extensão é uma das maiores falhas da universidade!! E podemos e devemos tentar elevar essa abordagem. Abç,
    Vanessa

  2. Pavel, esse texto ficou sensacional. Penso que quando a CAPES valorizar a extensão (pontuando professores (as) /pesquisadores (as) pelas atividades de extensão), as universidades públicas irão se transformar. Vejo pontos positivos: docentes certamente irão incluir extensão em suas agendas, uma vez que a CAPES irá pontuá-los. Entretanto, acredito que corre-se o risco (talvez em longo prazo) de aparecer uma enxurrada de projetos de extensão, considerando que a) são menos trabalhosos do que conseguir publicar um artigo científico, b) contam ponto na CAPES e c) traz sensação de reconhecimento pessoal mais rápido/imediato do que a pesquisa (concorda?). Nesse sentido, considero que haverá uma melhora em toda atmosfera acadêmica, ainda mais que, com os projetos de extensão a barrinha de rolagem do Lattes continuará diminuindo, e melhor, a CAPES estará vendo.

    • Obrigado, Igor! 🙂
      Concordo com o que você disse… E acho que vai ter mais um ponto positivo: menos artigos irrelevantes sendo enviados e publicados, portanto maior capacidade de publicação nas revistas e maior produção de conteúdo de qualidade. Acho que falta a CAPES pensar para que servem as Universidades no Brasil: Melhorar a vida da população, ou apenas fazer com que nossas pesquisas sejam lidas no exterior? (O pior seria pensar que serve pra exportar dados, mas acho que ao menos este risco não estamos correndo…)

  3. Pingback: Extensão universitária: PPGECB/UESC – Mais Um Blog de Ecologia e Estatística

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