Existe vida após a graduação?

[Este é um post convidado, escrito por Cinthya Santos, atualmente mestranda em Ecologia na UESC e antes disso… Continuem lendo 🙂 ]

Escolher uma profissão não é algo tão simples e me parece uma tarefa difícil para recém egressos do colegial. Entramos na graduação excitadíssimos e saímos (de maneira geral) perdidos profissionalmente. Ouvimos, durante toda a graduação que biologia é uma área muito ampla e podemos atuar em inúmeros setores! Ahh, que massa! Tá, mas quais? Me formei bióloga, e agora?

O curso de ciências biológicas vem sendo reformulado e houve uma divisão básica que resultou em dois cursos distintos: bacharelado (visando a continuidade na academia) e licenciatura (com grande bagagem de disciplinas pedagógicas). Parece meio intuitivo: quem se formou bacharel vai fazer mestrado, doutorado e continuar pesquisando e quem se formou em licenciatura vai dar aulas. E para onde foram aqueles inúmeros setores de atuação?

Pois é, a vida é muito mais do que essa dicotomia conceitual… Como muitos de nossa profissão (talvez, de qualquer outra profissão, vai saber), terminei a graduação perdida no mundo, sem ter a menor ideia do que fazer. Ainda não tinha certeza se gostaria de continuar na academia (sim, me formei bacharel! rs) mas mesmo assim resolvi prestar o mestrado. E adivinhem? Não passei. Foi a melhor primeira decepção profissional da minha vida. Porque, justamente por não passar, comecei a ampliar meus horizontes e buscar outros tipos de atividade. Foi numa dessas buscas que encontrei o Projeto Mucky, uma associação sem fins lucrativos (uma categoria de ONG) que resgata e reabilita primatas brasileiros vítimas de maus tratos. Um lugar incrível, onde aprendi muito sobre primatas, sobre bem-estar animal, sobre a vida e, principalmente, sobre mim. Foi uma experiência extremamente engrandecedora e guardo com carinho todas as lembranças dessa época.

 

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Raju (Callithrix sp.) – Projeto Mucky

Mas eu ainda tinha um comichão científico que ficava me perturbando e resolvi me aventurar por novos horizontes, de novo. Me inscrevi em um processo seletivo para trabalhar no INPA, em um projeto que busca entender a resposta da floresta frente as mudanças climáticas. E adivinhem de novo? Passei! Mais uma vez, fiquei extasiada com tamanha aprendizagem e experiências positivas.

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Em uma das área de coleta do PDBFF/INPA – Presidente Figueiredo/AM

Agora, um pouco mais perto da ciência e de pesquisadores, consegui enxergar com clareza: eu gosto mesmo disso! Quero voltar para a academia! O único detalhe era: eu estava perdida novamente, dessa vez, em relação à linha de pesquisa. Vejam bem: na graduação, trabalhei com aves frugívoras; no Mucky, com primatas; no INPA, com plantas e clima. O que fazer?

Eis que um grande amigo (fundador desse blog, inclusive) comentou que um professor do laboratório onde trabalhavam juntos estava procurando um aluno para desenvolver um trabalho de mestrado. Contatei o tal professor e, conversa vai, conversa vem, resolvi me arriscar no processo seletivo. Hoje, moro em Ilhéus/BA, e sou aluna da Pós-Graduação na UESC. Apaixonada pela pesquisa que desenvolvo* e a cada dia mais curiosa com a ciência.  Ainda mantenho contato com pessoas dos lugares por onde passei e projetos vêm sendo elaborados juntos, o trabalho está sendo multiplicado e as colaborações expandidas.

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Apresentação de trabalho em congresso, parceria com o projeto Mucky – Manaus/AM

Claro, a vida não são só flores e não consegui o emprego mágico 3 dias após a primeira reprovação. Fiquei alguns meses na casa dos meus pais e trabalhava como recreadora infantil em um condomínio em São Paulo (habilidade esta que descobri e desenvolvi durante a graduação no famoso “se vira nos 30”, para levantar uma graninha extra). Conversando com as pessoas, descobri que isso é absolutamente normal. O famoso “limbo” que a maioria de nós se depara ao encerrar um curso ou um ciclo qualquer é mais comum do que a gente imagina. E acho que é um período fantástico para nos redescobrirmos e conhecer o que exatamente queremos, ampliar os horizontes, buscar coisas novas.

 

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Curso de clown em São Carlos/SP

Se eu tivesse passado no mestrado logo de cara, não teria vivido nada do que acabei de contar a vocês. E seria uma lástima não ter vivido isso. Hoje me sinto muito mais madura e preparada para encarar a pós-graduação, com uma postura profissional muito diferente de quando sai da graduação (na verdade, hoje eu tenho uma postura profissional, naquela época ainda tinha a mentalidade de aluna). Ainda não tenho certeza se quero academia necessariamente, mas já sei que quero trabalhar com ciência. E só sei isso porque tive tempo de descobrir o que eu quero. Se eu pudesse dar um conselho a vocês, com certeza seria: não se desespere. Embora o mundo e a sociedade estejam cada vez mais competitivos (principalmente pensando no meio acadêmico) e nos pressionem a tomar decisões cada vez mais rápidas, se deem um tempo para refletir. Isso NÃO significa se acomodar! Mas aprender a ter calma para encontrar as respostas em você! Quem já sabe o que quer e sempre teve certeza do caminho a seguir, excelente! Trabalhe duro para conquistar seu lugar ao sol. Quem ainda não sabe o que quer fazer da vida, permita-se! Permita-se ampliar os horizontes e descobrir novas habilidades. Vida é aquilo que acontece todos os dias e maturidade e clareza nas ideias são coisas que conquistamos com o tempo…

*meu trabalho atualmente é com preguiças-de-coleira, mais especificamente, comportamento termorregulatório.

 

 

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