IALE + IUFRO LatinoAmerica 2016: Impressões e pensamentos

De 29 de novembro a 2 de dezembro participei  do Congreso Latinoamericano IUFRO de Ecología del Paisaje e 2º Congreso Latinoamericano de IALE, que para simplificar acho que podemos chamar de Congresso Latino-Americano de Ecologia de Paisagens* – afinal, em termos práticos o evento foi essencialmente isso. Foi em Temuco, no centro-sul do Chile (minhas fotos do Chile aqui!), um lugar que valeu a pena conhecer! Nunca comi tanta cereja na minha vida – sério, um quilo de cereja por 1500 pesos, que equivale a uns 7-8 reais, que mais alguém pode desejar nesta vida pra ser feliz? – mas não estou aqui pra falar de cerejas (mano, aquelas cerejas eram boas), e nem de morangos (um quilo de morando por algo em torno de 5 reais… mmmm…), que eu comprava na Feria Pinto perto do hotel que me hospedei** [Pavel, controle-se], e sim pra falar sobre o evento, então vamos lá.

Cerejas e morangos

Cerejas e morangos.

 

O evento foi sensacional, inclusive superando as minhas expectativas. Houve uma boa variedade de temas, incluindo temas que eu chamaria de clássicos em ecologia de paisagens, como efeitos da perda de cobertura florestal sobre a biodiversidade ou trabalhos com efeitos de borda; e também temas relacionados, mas que têm mais relação com outras áreas: ecologia do fogo; ecologia e manejo de espécies invasoras; restauração florestal; trabalhos relacionando ecologia do fogo com espécies invasoras e/ou com restauração florestal; polinização; e alguns temas com enfoque mais social. Algo que achei bem legal foi a ocorrência simultânea de apresentações de trabalhos relacionados a um tema específico e a realização de simpósios, que consistiam da apresentação de trabalhos sobre um tema específico mas buscando algo mais direcionado. Eu assisti principalmente os simpósios, por eles via de regra contarem uma história mais concisa – o que pra mim é um aprendizado melhor. Simpósios incluíram temas como espécies invasoras, restauração em um contexto de paisagem, e manejo de vida silvestre em propriedades privadas.

Inclusive foi num desses simpósios que apresentei o meu trabalho sobre efeitos de borda na serapilheira (serapilheira são as folhas e galhos caídos no chão de uma floresta ou outro ambiente natural) do cerrado. Era um simpósio sobre tradeoffs entre agroflorestas e conservação em paisagens multi-funcionais e, embora eu não tivesse estudado exatamente isso, avaliei bordas de cerrado adjacentes a diferentes matrizes, então achei que seria apropriado me inscrever para participar deste simpósio. E bom, fui aceito, e acho que o trabalho se encaixou de forma interessante junto aos outros! Algo bem legal de apresentar este trabalho é que, pela primeira vez, apresentei um trabalho finalizado, inclusive cujo artigo já está disponível online. Achei bem mais interessante apresentar um trabalho finalizado do que trabalhos incompletos ou ainda em desenvolvimento, justamente por ter mais certeza sobre a mensagem que estou transmitindo com ele. Às vezes apresentamos trabalhos incompletos para termos sugestões de como melhorar eles; mas não acho que apresentações em congresso sejam a melhor forma de conseguir estes comentários. Pode ser mais interessante pedir para algumas pessoas de confiança lerem e opinarem sobre o trabalho. Por outro lado, um congresso é o lugar perfeito para mostrar o que você tem feito e, quem sabe, fechar colaborações para trabalhos futuros. O Marco Mello fala algo parecido em um post dele.

Além dos simpósios, apresentações de trabalhos, coffee breaks excelentes e almoços saborosos, havia as conferências plenárias, ministradas por pesquisadoras e pesquisadores de renome em suas áreas. Eu assisti a todas menos a primeira [porque cheguei atrasado…], e foram todas excelentes. Estas conferências são interessantes para tomar conhecimento de outras formas de pesquisar um assunto ou de pensar sobre um assunto, ou até mesmo para tomar conhecimento de uma área de estudos que eu nem imaginava que existia. Um exemplo: Lisa Shipley, da Washington State University, falou sobre estudos de ecologia nutricional de cervos e outros ungulados, nos EUA, em que eles avaliam, a partir de animais criados em cativeiro, a capacidade de suporte de uma área. Ou seja, conseguem ter estimativas precisas de quantos animais um hectare de um determinado tipo de floresta consegue manter. Achei isso sensacional, e nunca havia pensado em algo parecido.

Sobre as apresentações e palestras: grande parte foi em espanhol, mas algumas foram em inglês ou em português. Achei isso apropriado – afinal, é um congresso latino-americano, e qual a sua desculpa por não falar espanhol ainda? e acho perfeitamente apropriado que seja primariamente em espanhol (grande parte das/os participantes eram hispanofalante) e português; tive a impressão de que quem fala português entendia sem grandes problemas as apresentações em espanhol e vice-versa. Eu mesmo falei um belo portunhol tentei falar espanhol, e acho que deu certo! Mas algo que eu recomendo é deixar os slides sempre em inglês. Para mim era mais fácil entender palestras em espanhol com slides em inglês do que palestras em espanhol com slides em espanhol, até mesmo pela maior familiaridade com termos técnicos (e no meu caso também por eu ser muito mais fluente em inglês). E outra questão é de que, embora fosse um congresso latino-americano, havia pesquisadoras e pesquisadores convidadas/os de fora, e é interessante que estas pessosa também possam entender as nossas apresentações. Tudo bem que são poucas pessoas – mas podem ser pessoas cuja opinião lhe seja muito valiosa! Deixando os slides em inglês e falando na nossa língua ou na língua do local do evento, podemos maximizar o número de pessoas que ouvirão (ou lerão) o que temos a dizer.

E fora isso, achei este congresso um ambiente bem amigável, favorecendo a comunicação. Sabem aqueles PhD Comics sobre como é apresentar um trabalho? Não foi nada parecido com isso. E na verdade congressos de ecologia que tenho ido costumam ser assim, um ambiente mais tranquilo e “de boa”; não sei como é nas outras áreas. Eu acho que isso favorece bastante a colaboração científica e, portanto, o progresso da ciência como um todo. Não precisamos competir uns com os outros, colaborações geralmente dão mais e melhores frutos para todas e todos!

Finalizo com um Parabéns e um Muito obrigado! à organização do evento, foi realmente um evento de alto nível! Estou ansioso pelo próximo em 2018 🙂

DSCN9614_Pav.JPG

Eu no Parque Rucomanque, um dos dois remanescentes de vegetação nativa em Temuco, em uma excursão durante o congresso. Meus parabéns a Sérgio e Mónica, excelentes guias! (Foto por Alexandra Cravino)

* Falo “Ecologia de Paisagens” no plural, ao invés de “Ecologia de Paisagem” ou “Ecologia da Paisagem”, porque é assim que nos referimos a outras áreas na ecologia: Ecologia de Populações, Ecologia de Comunidades, Ecologia de Ecossistemas… Sigo nisso uma sugestão do Milton “Miltinho” Cesar Ribeiro.

** Para quem for a Temuco, recomendo a Hospedaje Casa Estación, com um preço acessível, localização boa (perto de terminais de ônibus e da Féria Pinto, onde tem morangos e cerejas e muitas outras coisas!) e a uns 50 minutos de caminhada da Universidad de la Frontera.

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