Coorientação: por que e quando coorientar?

Semana passada o Marco Mello publicou um texto bem interessante criticando o sistema brasileiro de coorientação nas diferentes fases da vida acadêmica. Recomendo fortemente a leitura do texto e dos comentários!

No texto, o Marco apresenta ótimos motivos para não ter coorientação e também bons motivos para ter coorientaçã0 em casos bem específicos – no caso, para ajudar com um problema bem complexo, e por problema bem complexo diria que podemos entender, por exemplo, desenvolver funções novas em R se nem a/o aspira nem a/o orientadora/o entendem de programação; mas não simplesmente aplicar análises já bem estabelecidas, isso pode ser aprendido – ou no caso de fazer parte do mestrado/doutorado no exterior. A isso eu adicionaria uma terceira situação, que foi o meu caso: a pessoa que me coorientou, por motivos de…. é uma longa história, não orienta doutorado, e mesmo que orientasse, eu não queria fazer o doutorado inteiro fora do Brasil, então a coorientação foi uma solução que deu certo; mas eu já estava trabalhando com esta professora desde metade do mestrado e tinha bons indicativos de que daria certo.

Esse meu texto não é bem uma resposta ao do Marco, mas mais uma tentativa de complementação, pois quero aqui falar sobre quando coorientar ou não – o ponto de vista de quem coorienta, não de quem recebe a coorientação. O que eu, um mero pós-doc, tenho a falar sobre isso? Não muito. Vocês recebem a fundamentação pela qual pagam neste blog*. 😉

Durante meu doutorado, coorientei três graduandas, em três histórias diferentes; e estou coorientando uma mestranda agora. Uma coorientação durou três-quatro anos, com dois trabalhos desenvolvidos além do TCC e uma ajuda essencial dada às minhas pesquisas de doutorado e outras; outra durou uma pouco menos, foi compartilhada com uma ornitóloga, e resultou em um trabalho além do TCC; e a terceira foi em inglês, surgiu no trabalho de campo em que eu liderei a nossa equipe de três pessoas em terra de ursos polares e meu trabalho foi mais no campo e colaborando um pouco nas análises e na escrita. E eu diria que essas coorientações foram uma das melhores experiências que tive no meu doutorado. Teria eu publicado mais artigos se não tivesse coorientado? Talvez; mas a vida é mais do que publicar artigos, e eu não vejo como eu poderia ter aprendido mais sem ter tido essa experiências.

A vantagem maior, pra mim, foi o aprendizado, principalmente na parte pessoal. Pessoas têm diferentes personalidades, diferentes relações com a Ciência, diferentes prioridades e diferentes objetivos. E tais diferenças, a meu ver, devem ser levadas em conta – cada indivíduo precisa ser tratado como um indivíduo, não como mais uma pessoa para coletar dados e escrever artigos. E isso é o mais difícil… Coorientar durante o meu doutorado me permitiu enxergar melhor isso, ver a situação pelo olhar de quem está começando a Jornada do Cientista. Eu queria ter essa experiência, e fui atrás, e busquei fazer o meu melhor. Sei que isso não vai contar quase nada (ou nada…) pro meu currículo, mas a vida é mais do que currículo. Afinal, passar em concurso não é o fim da Jornada (embora muitas vezes enxergamos como tal).

A desvantagem maior foi que, em alguns quesitos, tenho uma noção clara de que falhei. Por exemplo, no financiamento/bolsas: é difícil para alguém que está no doutorado, recebendo bolsa, ir atrás de uma bolsa para outra pessoa… Tem também a questão do ambiente laboratorial e infraestrutura em geral. Mas acho que os projetos e os trabalhos científicos que resultaram foram interessantes.

E isso me fez perceber também que talvez eu não deva coorientar tanto agora no meu pós-doc. Por alguns motivos; um dos quais é de que um pós-doc é menos estável que um doutorado. No doutorado, eu sabia que ficaria quatro anos na UFSCar. Agora, no pós-doc, eu não sei quanto tempo ficarei na UESC… Até passar em concurso, provavelmente. Então é mais difícil assumir um compromisso. Comecei a coorientar uma mestranda porque o projeto era muito interessante e na minha área, e eu pensei “pelas barbas de Odhinn, eu quero fazer parte disso.” Está dando bem certo; eu oriento mais na parte de análises e desenho amostral e o orientador orienta mais na parte de ecologia e história natural dos bichinhos. Não sentamos pra conversar e definir isso, mas essa divisão aconteceu naturalmente, e acho que está dando bem certo… E eu estou tendo a oportunidade de participar de um estudo muito interessante! E neste caso acho que vai contar algo pro meu currículo, mesmo que pouco; minha experiência anterior também estaria me ajudando a fazer um trabalho melhor agora.

Então, resumindo, quando eu acho que é válido coorientar alguém:

  • Estando no mestrado: Bom… Nunca. Quando seu orientador oferece e se prontifica a dar todo o suporte necessário. E mesmo assim, recomendo andar com muito cuidado por este fio e avaliar com muito carinho se téns conhecimento suficiente. Existe um risco de acharmos, no mestrado ou começo do doutorado, que sabemos muito mais do que sabemos de fato e acabarmos guiando a/o aspira para dentro de um pântano de sanguessugas e wyverns.
  • Estando no doutorado: Eu acho válido coorientar ICs quando e se: 1) você quer muito ter a experiência de coorientar alguém, como parte da sua formação acadêmica; 2) se dispõe a dar o seu melhor nisso, porque afinal estamos aflando da formação de uma outra pessoas; 3) o assunto tem a ver com o que você trabalha e/ou é algo que você gostaria muito de estudar. Ainda assim, se a ideia for desenvolver um estudo, pode valer mais a pena fazer uma colaboração e não uma coorientação. Eu não sou a favor de coorientar um mestrado, ainda não temos conhecimento suficiente. Pode rolar uma colaboração, mas melhor evitar coorientações, mesmo porque isso pode reduzir a autonomia e prejudicar a formação da/o mestranda/o.
  • Estando no pós-doc: Coorientar doutorado me parece complicado devido à incerteza que temos de quanto tempo permaneceremos num lugar. Mestrados são mais curtos e com projetos menos ambiciosos, então acho válido. Eu diria que bons motivos pra coorientar no pós-doc são os mesmos que para coorientar no doutorado; lembrando que, no pós-doc, a ênfase é na sua própria formação e produção e também em suprir demandas do laboratório onde você está inserida/o. Caso haja um projeto em que sua coorientação faça sentido, vai em frente, mas com cuidado e, novamente, fazendo o seu melhor. As dificuldades em relação a financiamento e infraestrutura se mantêm, então é importante que o/a orientador/a oficial também seja presente. Lembrem-se da partícula co- na palavra coorientação. 🙂

Um outro motivo para assumir coorientações é quando seu cargo não permite orientar oficialmente, por exemplo sendo professor-visitante. Neste caso, não me parece justo ter todo o trabalho mas uma fração pequena da glória – a não ser que seja uma boa forma de realizar alguma pesquisa que você queira realizar. Nós cientistas somos guiadas/os pela curiosidade mais que pelo financiamento! Se o objetivo é melhorar o currículo para finalmente passar em concurso em algum lugar, ele pode ser melhor atingido com colaborações e com trabalho individual e independente, trabalhando com seus dados já coletados ou fazendo revisões e meta-análises da literatura.

Ah, o que falei acima vale para uma coorientação meio independente, um-a-um. Existem grupos de pesquisa em que a coorientação algo institucionalizado, com o/a docente coordenando uma equipe de pós-dos e pós-graduandas/os que coorientam ICs. Neste caso, a infraestrutura já é fornecida pelo laboratório e o que se forma são mais redes de colaboração conectadas a uma figura central. Acho que essa forma funciona bem, por ser algo estruturado e por falhas em uma parte da rede poderem ser supridas por outras partes. A pesquisa deixa de ser algo individual e passa a ser algo totalmente colaborativo (mas sem perder as contribuições e habilidades e crescimento individuais). Um exemplo disso a meu ver seria o LEEC – Unesp, e quero coordenar uma laboratório neste esquema quando crescer passar em concurso.

*Frase inspirada no Jeremy Fox do Dynamic Ecology.

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