E aquele artigo, já publicou?

E aquele artigo?

É, aquele lá mesmo. Você sabe do qual estou falando!

Já publicou?

Ainda não?

Oxi…

Eu também não! Que coisa, né?

Toca aí o/

Eu tenho pensado bastante sobre este assunto – a necessidade de publicar os nossos trabalhos começados, os resultados da nossa IC, mestrado, doutorado – e tenho também conversado com algumas pessoas a este respeito. E estou chegando a uma conclusão polêmica e imagino que nada popular no meio acadêmico:

[Pausa para o suspense]

Talvez você não precise publicar essas coisas!

[Pausa para um momento “Maein?” / “Como assim manolo?” / “WTF?” – você decide.]

Calma lá, gente. Não estou dizendo que cientistas não precisam publicar seus achados! Um conhecimento que só existe na sua cabeça (e no seu HD) não é patrimônio da humanidade e, assim, não é ciência. Estou dizendo que talvez você não precise publicar aquele artigo. Se você for cientista, você precisa publicar ciência, isso faz parte do pacote. 🙂

Afinal, o que esperamos de um cientista financiado por recursos públicos? Fiz essa pergunta no facebook recentemente (um ótimo lugar pra ter boas conversas num espaço de um-dois dias, o facebook!), e a Julia Rocca falou algo que faz muito sentido, mesmo parecendo óbvio:

“Eu acho que se pode exigir que ele faça um trabalho sério. Não dá para exigir resultados porque pesquisas nem sempre têm resultados, mesmo aquelas que foram bem feitas. E não dá para fixar exigências, do tipo “um artigo para mestrado e dois para doutorado” porque as áreas variam muito entre si.
Eu sei que “trabalhar seriamente” parece subjetivo, mas não é. Mesmo quando estamos lendo o relatório de uma pesquisa de outra área, fica fácil perceber quem realizou a pesquisa de forma engajada e quem quis dar o truque.”

Em outras palavras (em parte nas mesmas palavras) (espero não estar deturpando as palavras acima!) – precisamos fazer um trabalho sério. Levar a sério nossa pesquisa e nossa graduação ou pós-graduação. Mas será que isso necessariamente implica em publicar aquele artigo derivado dela? E se a pesquisa, tendo sido bem feita, não produziu os resultados que revistas de renome esperam? Ou se ela tem uma aplicação mais prática, não necessariamente resultando em uma publicação teórica mas trazendo melhoras para uma localidade, ou subsidiando a criação de um plano de manejo de uma unidade de conservação, ou resultando em um software disponibilizado no GitHub para que toda a humanidade possa usá-lo? A missão já não terá sido cumprida?

Outra coisa que precisamos considerar é o caminho que você escolheu para a sua vida. Se você segue o Caminho da Ciência, você precisa, de fato, publicar ciência. E isso é algo amplo. Eu, por exemplo, ainda não publiquei nada referente ao meu doutorado, defendido dois anos atrás; mas publiquei dois artigos referentes à minha IC, dois referentes ao meu mestrado, dois referentes ao pós-doc, e mais uns par de publicações derivadas de trabalhos paralelos e colaborações. (E aí entra a pergunta, estarei eu escrevendo este post para tentar justificar eu não ter publicado o meu doutorado ainda? Nunca saberão. Mwahahaha.) As habilidades que adquiri também me permitiram ministrar uma disciplina de programação em R e estatística Monte Carlo. Acho que isso em si já é um resultado.

E ainda sobre o Caminho da Ciência, vou citar aqui o Slow Science Manifesto: “Ciência precisa de tempo para pensar. Ciência precisa de tempo para ler, e para falhar. Ciência não sabe sempre onde exatamente ela pode estar agora. Ciência se desenvolve de modo inconstante, com sacudidas e saltos imprevisíveis para a frante – mas, ao mesmo tempo, ela se arrasta numa escala temporal muito lenta, para a qual precisa haver tempo e à qual justiça deve ser feita.” Talvez aquele seu artigo ainda não esteja pronto para ser publicado; talvez você tenha percorrido um longo caminho no seu doutorado, talvez um caminho do Condado a Loth Lórien passando pelas Montanhas Cinzentas – mas Mordor ainda está longe, muito longe. Pode valer a pena investir seu tempo em outras publicações enquanto deixa a sua tese ou dissertação amadurecer. Afinal, receber o título de Doutor não é a mesma coisa que publicar um artigo. E um artigo não te permite falar isso.

Por outro lado – E se você escolher outro caminho? Pode ser o Caminho da Docência, talvez em um Instituto Federal ou em escolas; ou o Caminho do Trabalho Não Acadêmico; ou, bem, qualquer outro caminho. Não se pode esperar que todas as pessoas que terminam o doutorado vão para a Ciência, mesmo porque não há emprego pra todo mundo! Poderíamos exigir que essas pessoas publiquem seus trabalhos? Eu acho que não. Em primeiro lugar – o conhecimento científico precisa estar disponível para a humanidade, sim; mas as dissertações e teses já estão disponíveis. É claro que elas não são acessíveis a toda a comunidade científica, e não passaram por uma revisão por pares tão rigorosa quanto um artigo em uma revista de respeito. Mas, por outro lado, artigos em revistas de menos respeito passam por uma revisão por vezes até menor. Em segundo lugar – estaríamos exigindo que a pessoa trabalhe de graça. Mesmo que o doutorado ou mestrado tenha sido realizado com bolsa, essa bolsa serve primariamente para possibilitar que a pessoa se forme, ou seja, cumpra com as obrigações estabelecidas pelo programa de pós-graduação. Que faça um trabalho sério. Mas exigir resultados em forma de publicação me parece muitas vezes um exagero. E exigir que a pessoa continue trabalhando nisso depois que a bolsa acabou e as obrigações com o programa foram cumpridas não me parece certo. E em terceiro lugar, trabalhar em cima de publicações da sua pós-graduação tira tempo do seu trabalho atual, que você poderia investir em, por exemplo, preparar aulas melhores. Implicaria em não fazer um trabalho tão bom quanto poderia agora para melhorar um trabalho seu anterior.

Especialmente pensando em iniciação científica – há pessoas que publicam suas ICs, e há pessoas que as publicam durante a graduação. Mas me parece surreal que isso seja uma exigência, pois uma IC serve para iniciar alguém na pesquisa científica, e não necessariamente para finalizar uma pesquisa de qualidade. Especialmente se a IC foi feita sem bolsa. Quanto a quem orienta – faz parte do nosso trabalho orientar e auxiliar na formação de alguém. É claro que se a pessoa decide continuar no Caminho da Ciência, ela provavelmente terá um interesse em publicar. Em outros casos, uma ótima alternativa é incluir alguém mais experiente – do doutorado ou pós-doc – para trabalhar nos dados e publicar o artigo, num sistema de coautoria.

Adendo: Eu acho válido exigir que, para receber o título de Doutor ou de Doutora, a pessoa tenha que ter publicado ao menos um ou dois trabalhos em revistas científicas. Este título diz “Esta pessoa tem os conhecimentos e habilidades para seguir, de forma independente se quiser, o Caminho da Ciência” – e isso implica conseguir publicar artigos. Afinal, um ou uma cientista que nunca publique não está contribuíndo para a Ciência.

Adendo 2: Mesmo que eu não ache que a pessoa seja obrigada a publicar o trabalho depois de defender, isso não a desobriga de fazer um trabalho sério no planejamento do estudo e na coleta, análise e interpretação dos dados. Especialmente no planejamento e na coleta dos dados, pois dados bem-coletados de um estudo bem-planejado poderão ser analisados e publicados por outra pessoa. Na verdade, para mim isso é uma boa forma de fazer Ciência: um estudo que de fato seja impactante pode precisar mais de quatro anos para ser concluído, então faz todo sentido que uma pessoa – talvez no doutorado, ou no pós-doc – pegue dados já coletados, possivelmente melhore as análises e a interpretação, e publique. A autoria seria dividida entre quem planejou e coletou e quem analisou e escreveu. Organizar isso seria o papel da orientadora ou do orientador – que, afinal, ja estão no Caminho da Ciência. A quem coletou os dados cabe, neste caso, torná-los disponíveis para que outra pessoa os transforme numa publicação.

Adendo 3: Alguns programas exigem que o trabalho seja publicado para que a pessoa receba o diploma. Isso entra no que falei sobre “cumpra com as obrigações estabelecidas pelo programa de pós-graduação”.

E uma outra questão – será que podemos esperar que outras pessoas dediquem uma quantidade descomunal de tempo, e.g. 60-70 horas por semana, ao seu trabalho? Se achamos que sim – estamos pagando o suficiente por isso? Vejam este post.

E finalmente… Além do comprometimento com a Ciência, alguém financiado com dinheiro público não deveria também contribuir para a sociedade que o financia? Adianta uma publicação no Journal of Herpetology, se os moradores e as moradoras da região que foi estudada não sabem diferenciar uma serpente peçonhenta de uma inofensiva? Afinal, que tipo de retorno a sociedade espera de alguém financiado com o seu dinheiro? Uma publicação em uma revista científica, ou algo que dê um retorno social mais imediato usando aquele conhecimento produzido? Idealmente as duas coisas – mas o tempo é limitado, e uma escolha precisa ser feita.

Bom, acho que o que quero dizer com isso tudo é: o importante é fazer um trabalho sério e bem-feito, e se você é cientista, isso implica publicar artigos. Mas a publicação é algo geral, não se refere a um trabalho específico – mesmo porque às vezes aquele trabalho pode ter sido um beco sem saída e não precisa ser publicado. Se tivermos medo de becos sem saída – que não resultam em publicação mas nos mostram caminhos melhores – nunca acharemos caminhos secretos que abram novas terras inexploradas. Fazer Ciência envolve o risco de estarmos errados; fugir disso pode ser escolher atalhos que não levam a nenhum lugar que já não tenha sido visitado antes – to boldly go where Gnome Ann has gone before!

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2 pensamentos sobre “E aquele artigo, já publicou?

  1. Olá Pavel, tudo bem? Muito legal seu blog e seus posts. Sou novo frequentador do seu blog e lendo ele, gostaria de trocar umas ideias, na verdade pedir uma sugestões estatísticas. Acredito que o meu email aparecerá para vc. Bom, fico no aguardo. Abraço, João

    • Obrigado, João! Podemos trocar ideias sim, embora no momento eu esteja mais enrolando que uma concha de Nautilus… rs Me manda email? pdodonov@gmail.com Mas manda lá pro começo de maio, que até lá estou sem condições de responder direito 🙂

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