Segurança no trabalho de campo

O que vale mais: seus dados ou sua vida?

Ou, caso você oriente, o que vale mais: os dados ou a segurança, e a vida, das/os orientandas/os?

Acho que conheço ao menos uma pessoa que responderia “meus dados” para a primeira pergunta, mas não para a segunda.

Então por que damos tão pouco valor à segurança em campo nos nossos trabalhos de ecologia? Trabalhar com ecologia é lindo, estar no meio à natureza (coletando dados, ou não) para muita gente é uma das melhores sensações do mundo, e, na minha experiência pessoal, acidentes além de um simples corte são raros. Mas acontecem.  Inclusive tenho uma amiga que uma vez precisou interromper a campanha de campo e ser escoltada pela polícia porque havia palmiteiros na área e não era mais seguro trabalhar.

Eu sempre aprendi e sempre difundi que não se pode fazer trabalho de campo sozinha/o, tanto pela facilidade do trabalho quanto por questões de segurança. Confesso que duas ou três vezes eu fui sozinho; mas uma era um campo rápido numa área próxima, e nas outras eu tinha comunicação por rádio com outra equipe na mesma reserva. Não que isso tivesse ajudado muito se algo acontecesse…

De qualquer modo, vocês não precisam ouvir mais uma vez que não se deve ir a campo sem companhia etc… Falar é fácil, né? Tornar a fala realidade é outra história…

Então, algumas sugestões, com base na minha experiência:

Para quem vai a campo:

– Aprenda ao menos o básico de primeiros socorros e sobrevivência. Leia livros ou sites – é incrível o quanto se pode aprender lendo, não é mesmo? Nós cientistas sabemos bem disso! Mas muitas vezes esquecemos de aplicar à “vida real”. Faça um curso ou dois; se não houver cursos disponíveis, pode ser possível organizar um… Eu fiz este aqui.

– A não ser que o campo seja em áreas pequenas e de fácil acesso, saiba usar um GPS (e preferencialmente uma bússola e mapa) para se localizar e tenha pilhas reservas. Leia o manual do GPS que usa, marque waypoints do ponto de entrada na mata e, se possível, o caminho até a área de coleta.

– Deixe o carro voltado para o caminho de volta. Aprendi isso quando fiz campo em Churchill, terra de ursos polares. Se tiver um urso indo atrás de você, melhor não perder tempo manobrando o carro! Mesma coisa em caso de incêndio florestal ou mordida de surucucu.

– Kit de primeiros socorros é importante! Sim, é um peso a mais, mas acho que vale a pena se prevenir. Nem sempre podemos chegar rápido em um hospital, então poder ao menos desinfetar um ferimento e fazer um curativo com algo razoavelmente limpo, e não aquela fita crepe usada pra fechar suas amostras, é bem útil! Eu me baseio nessas recomendações aqui; levo comigo material pra fazer curativos, água oxigenada, luvas cirúrgicas, uma seringa (útil para limpar ferimentos quando não temos água corrente), e uma manta térmica de alumínio – é leve e pode ajudar bastante em risco de hipotermia. [Atualização] E sempre levo antialérgico; mas medicamento é algo pessoal, então mesmo que seja levado um kit só pra equipe toda, é preferível cada pessoa levar seus medicamentos por causa de alergias. Quem for muito alérgico a algo e souber disso provavelmente já sabe o que deve levar; se for o seu caso, sugiro dar instruções a quem estiver junto: “Se eu for picado por uma abelha/vespa/formiga, pegue tal coisa que está em tal lugar na minha mochila e faça tal coisa com isso.”

– Sobre a questão de ajudantes de campo: sei que é difícil, muito difícil conseguir ajuda. No meu lab na UFSCar, sempre rolava ajuda mútua, com pessoas ajudando regularmente nos projetos umas das outras. Às vezes isso resultava inclusive em coautoria nos trabalhos, quando o envolvimento era tal que o trabalho acabava sendo mais compartilhado que individual. Minha orientadora estimulava bastante tal colaboração. Mas, por maior que seja um lab, ele às vezes é pequeno demais para a quantidade de campo que temos. E uma hora percebi que havia pessoas dispostas a ajudar outras pessoas em campo – se soubessem que tem gente precisando de ajuda! Criei uma lista de emails para isso, e depois um grupo no facebook. Um grupo similar foi também criado na Unesp. Posso dizer que foram uma ferramenta muito útil!

– Tenha um plano e evite riscos desnecessários… Ao ver uma caixa de abelhas que parecem irritadas, pode ser melhor desistir do campo a correr riscos. Ao ser picado por abelhas, pense bem se vale a pena continuar o trabalho. Se seu ou sua ajudante for picado/a, eu prefiro abordar a missão, a não ser que a pessoa tenha boa experiência de campo e queira continuar.

– E, falando em conseguir ajudante de campo – ofereça ajuda! Altruísmo recíproco é uma boa nesses casos. E é um ótimo aprendizado!

[Atualização]- Vacinas: Vacinação contra raiva é importante, eu diria essencial, se você trabalha com mamíferos. Mesmo usando luvas, uma mordida sempre pode acontecer. Pense num Artibeus de dentes afiados…

– É legal também avisar sobre o campo as/os proprietárias/os ou, se for em unidade de conservação, a gestão dela (e, se possível, moradoras/es locais). Passar informações como: quando você fará o campo, em que horários, quem vai contigo (quantas pessoas e quem são), o que vão fazer, qual é o veículo… Isso evita situações chatas e pode ser de grande ajuda para o seu próprio trabalho! Por exemplo, na Estação Ecológica de Itirapina, onde trabalhei, havia grandes possibilidades do meu Uninho atolar, e já precisei pedir que a gestão da Unidade de Conservação enviasse um trator ao meu resgate. E, ao se hospedar na Unidade de Conservação ou na casa de alguém, avisar que horas vai voltar do campo. Uma vez não avisei que ficaria até mais tarde e os vigilantes ficaram rodando a estrada para me encontrar, no Parque Estadual de Vassununga. Não foi muito legal da minha parte (e foi muito legal da parte deles!).

Para quem orienta:

– Ao planejar um estudo, considerar as dificuldades de campo e as questões de segurança como fatores limitantes. Se há uma área de estudo perfeita, mas de acessibilidade difícil, e não há recursos para motoristas/mateiros/seguranças, vale mesmo a pena trabalhar lá? Não haveria uma área mais acessível para fazer o estudo? Por exemplo, sei de mais de 45 artigos científicos publicados com dados coletados numa área de cerrado na UFSCar, alguns em revistas bem boas.

– Planejar estudos de modo que duas ou mais pessoas trabalhem sobre os mesmos dados. Assim essas pessoas coletam os dados juntas, resolvendo assim o problema de arrumar ajuda.

– Incentivar colaborações intra-laboratorias – campanhas de campo em que várias pessoas colaborem, mesmo não sendo referentes às suas pesquisas específicas. É também um aprendizado excelente!

– E, se as opções acima não forem possíveis, se perguntar se coletar mais dados realmente é necessário. Existe uma quantidade enorme de dados por aí que poderia ser analisada e render excelentes dissertações, teses e artigos. Nem todo mundo precisa necessariamente ir a campo o tempo todo!

Finalizando…

Não quero assustar ninguém nem desestimular pesquisas de campo. São essenciais! O que quero é enfatizar a questão da segurança, que deveria ser prioridade, e não algo a se considerar quando todo o restante já foi decidido.

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3 pensamentos sobre “Segurança no trabalho de campo

  1. Excelente você falar sobre isso, Pavel! Estudantes de Biologia correm vários riscos desnecessários, em nome da “paixão pela profissão”. Paixão não exclui disciplina: essa é uma lição que precisa ser ensinada com mais energia por quem está em posições de liderança. Infelizmente, a prevenção é vista como bobagem na nossa cultura. Mas basta acontecer uma tragédia para ficar claro aos envolvidos que seria melhor terem tomado as devidas precauções. Conheço casos muito tristes de acidentes tolos.

    • Sim! Inclusive acho que cursos de campo deviam focar nisso – não apenas em como criar hipóteses e coletar dados, mas em como fazer as atividades de campo em segurança e sem correr riscos desnecessários. Isso poderia ser uma forma de estimular essa disciplina.
      Lembro em quando fiz campo em Churchill (Canadá), não podíamos começar o campo antes de assistir um briefing sobre segurança e ursos polares. 🙂

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