Extensão universitária: PPGECB/UESC

Uns tempos atrás eu escrevi que pode ser mais fácil encontrar um unicórnio do que um projeto de extensão em algumas universidades. E uns tempos depois disso pensei, não é muito feio quando um cientista faz uma afirmação assim e nem se dá ao trabalho de testá-la?

Então recentemente pedi (via a nossa excelente secretaria!) para discentes e docentes do programa de pós-graduação onde sou pós-doc (PPGECB, da UESC) responderem a um questionário. Neste questionário, eu perguntava: qual o vínculo da pessoa com a UESC, se a pessoa está evolvida (coordenando e/ou participando) em algum projeto de extensão, e pedi para escrever sobre estes projetos.

Bom, em aproximadamente duas semanas, tive dez respostas a este questionário (incluindo eu mesmo – sim, eu respondi, pra facilitar a interpretação) – muito obrigado a quem respondeu! Ele foi enviado a em torno de 80 pessoas, e achei bom o número de respostas! Há inúmeros motivos para não ter tido mais respostas – não era uma pesquisa oficial nem muito planejada, então há bons motivos pra não gastar tempo com ela; o email pode ter passado despercebido; a resposta pode não ter sido salva – soube de ao menos um caso disso; enfim. Eu achei as respostas animadoras, mas deixarei que vocês julguem por conta própria 🙂 Não incluí nomes.

Resumidamente: há atividades de extensão sendo desenvolvidas sim! As atividades são principalmente de educação ambiental, divulgação científica e interação com comunidades onde são feitas as pesquisas. Na verdade, a meu ver, divulgação científica e educação ambiental se misturam – afinal, trabalhamos com conservação e ecologia, então fazemos educação ambiental ao divulgar as nossas pesquisas, e muitas vezes nos baseamos nas nossas pesquisas para fazer educação ambiental. Há atividades desenvolvidas em comunidades do sul da Bahia, mas também no Peru; em ecovilas e na cidade; com pescadores e com pessoas da zona rural; presencialmente e por meio da internet. Boa parte delas não tem vínculo oficial com a UESC, sendo desenvolvida por meio de ONGs, institutos ou por iniciativa própria.

Abaixo os resultados detalhados, e depois algumas considerações minhas:

Tive resposta de 2 docentes, 4 doutorandas/os, 3 mestrandas/os, e 1 pós-doc (no caso, eu [rs]). Destes, os dois docentes (uma professora e um professor), o pós-doc, três pessoas do doutorado e duas do mestrado responderam que têm envolvimento, sim, com atividades de extensão. Bom, uma delas respondeu que não tem certeza – achei isso bem interessante! -, mas pra mim ela desenvolve sim.

Os projetos desenvolvidos atualmente ou recentemente são:

  • Projeto Nossas Árvores – Conservação, uso e manejo de árvores nativas no sul da Bahia. Desenvolvido desde 2007, envolve diversos docentes do Departamento de Ciências Biológicas da UESC, e dele inclusive resultou um livro publicado em 2009 e também disponível em PDF.
  • Minicursos, desenvolvidos pelo Laboratório de Ecologia (LabEco), abertos à comunidade e a discentes da UESC, visando divulgar a pesquisa e atividades de biólogos. Desenvolvidos desde 2016, foram ministrados três minicursos até o momento, com duração de 2 a 12 horas, com a colaboração de docentes e discentes da UESC e outros biólogos. [Eu inclusive ministrei uma aula, sobre educação ambiental no cerrado, em um destes minicursos. Havia umas oito pessoas assistindo, de dentro e de fora da UESC, e eu achei bem interessante.]
  • Limpezas de praia – projeto Limpa Praia – um projeto desenvolvido (sem registro oficial, mas desenvolvido mesmo assim) desde o ano passado, por discentes e pós-doc do PPGECB e algumas outras pessoas. Realizamos, até o momento, dez limpezas e colaboramos com um mutirão realizado numa disciplina da UESC. No total, recolhemos uns 350 kg de lixo nessas limpezas. Também mantemos uma página no facebook, tanto para divulgar nossas atividades quanto para tentar fazer educação ambiental online, e pretendemos realizar atividades em escolas, grupos de capoeira e na UESC.
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A nossa limpeza mais recente, em junho deste ano.

  • Divulgação científica: bom, estou começando (bem lentamente), com amig@s, um blog de divulgação científica, não sei se vai decolar mas é uma tentativa!
  • Extensão em áreas de pesquisa: uma doutoranda realiza atividades de extensão nas áreas onde coleta seus dados, em Una e Ilhéus. Ela conversa com moradoras e moradores, entrega folders [que eu achei lindos!] e fotos dos mamíferos registrados no estudo, alertando sobre a importância de conservar as matas, as cabrucas e os animais. (Cabrucas são agroflorestas de cacau, onde o cacau é plantado à sombra das árvores.) Ela também leva essas informações para escolas a região.
  • Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos de Ilhéus (GPMAI/CNPq/UESC) – uma doutoranda, participante deste grupo, participou com duas colegas em uma feira de ciências em um colégio em Itacaré, para falar sobre suas pesquisas voltadas à conservação do boto-cinza e de cetáceos. Também há planos de fazer uma atividade de educação ambiental para turistas e para a população local, junto com um grupo de surfistas, e de dar um retorno aos pescadores de colônias onde foram feitas pesquisas.
  • Instituto Boitatá de Etnobiologia e Conservacão – um doutorando do PPGECB trabalha junto a essa ONG, com atividades relacionadas a educação ambiental com foco em conhecimento e conservação de anfíbios e répteis, principalmente das espécies do sul da Bahia. Diversas atividades têm sido desenvolvidas, incluindo: 1) Palestra e saídas de campo com crianças e adultos de uma ecovila em Maraú – BA (ecovila de Piracanga – Comunidade Inkiri), para tutoria de alunas/os com interesse em anfíbios e troca de conhecimentos científicos e populares; inclusive está sendo produzido um livreto sobre a comunidade e as espécies registradas por lá; 2) Save the Frogs Day – foi realizada, em maio deste ano, uma atividade de campo para observação de anfíbios, relacionada ao Dia Internacional para a Conservação de Anfíbios. A atividade foi realizada em área de restringa arbórea em Olivença, distrito de Ilhéus (BA). Inclusive houve uma reportagem na TV sobre essa atividade.
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Save the Frogs Day

  • Escolinha de surfe: há colaboração com uma escolinha de surf em Olivenca, com atividades de educação ambiental e também voltadas à prática de esportes.
  • Mais divulgação científica: palestras e encontros divulgando o trabalho de um grupo de pesquisa. E recentemente foi inclusive feita uma reportagem na TV (Globo Reporter) sobre este grupo, com participação de docentes e discentes!
  • ONG de proteção de primatas: uma mestranda colabora com o Projeto Mucky, voltado a reabilitação de primatas, educação ambiental etc.
  • Peruvian Desert Cat: um mestrando do PPGECB tem um projeto com ecologia espacial e conservação do gato-palheiro (Leopardus colocolo), no Peru. Além de questões ecológicas, o projeto visa desenvolver atividades de educação ambiental para moradores locais, destacando a importância deste pequeno felino neste ecossistema árido. O projeto também tem página no facebook.
  • Além dessas atividades, sei que existem outras, neste mesmo programa, que não foram mencionadas nos questionários. Por exemplo, há colaborações com o Ministério Público e participação em criação de lista vermelha. Meu objetivo com isso era fazer uma amostragem, não um levantamento abrangente do que tem sido desenvolvido.

Considerações finais

Durante minha graduação, meu mestrado e meu doutorado eu participei do projeto Trilha da Natureza, na UFSCar; na graduação fiz parte também do grupo GAIA e do PET-Bio. Para mim, então, extensão é algo essencial.

E este questionário me ajudou a ver ela de uma forma mais ampla… Afinal, extensão não é levar as pessoas à universidade para mostrar o que a universidade faz. Quer dizer, também, mas não é só isso. Extensão é acima de tudo levar à sociedade o conhecimento especializado que adquirimos, e, por que não, ceder a nossa mão de obra. Atualmente, eu tenho colaborado com a página de facebook da Trilha da Natureza e organizado umas limpezas de praia aqui. Limpezas de praia não requerem conhecimento técnico; mas, é algo que precisa ser feito e, para realizar atividades de educação ambiental com este foco, sinto que ainda me falta prática e conhecimento do assunto.

De qualquer modo, acima de tudo, gostei de ver como há interesse em desenvolver atividades de extensão, e como isso muitas vezes é viabilizado por conta própria ou junto a ONGs e outros grupos da sociedade. E a propósito – não tenho dados referentes a isso, mas não acho que extensão prejudica as atividades de pesquisa. Há excelentes pesquisadoras/es entre as pessoas citadas acima. Na verdade, pode até ser que desenvolver tais atividades ajude a pesquisa ao lhe dar novas ideias, ajudar a formar colaborações, e até mesmo melhorar a sua própria capacidade de fazer boas perguntas.

Citando Gammaray: “Se você acredita na união – acredite, você não está só!”. 🙂

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