Ciência e Sociedade em Taiwan: um relato do Land Policy for Sustainable Use Development

Este é um post convidado, escrito por Soraya Carvalhedo Honorato, agricultora com colaborações científicas na UESC. Soraya inclusive foi minha aluna de estatística. :-) Este ano ela participou de um curso internacional relacionada a desenvolvimento rural sustentável, em Taiwan, e conta aqui um pouco desta experiência.

Taiwan: A República da China (RC)

Taiwan (RC) é um estado soberano, independente e próspero (Taiwan, 2017). Ainda que seja uma pequena ilha com um pouco mais de 23 milhões de habitantes, está entre as 61 maiores economias do mundo. É reconhecida por seu investimento arrojado em ciência e tecnologia e a educação formal é levada a sério mesmo entre as famílias mais pobres. Os professores, universitários ou primários, são reverenciados. O curioso é que, mesmo investindo pesadamente em ciência, os taiwaneses também são doutrinados para o Budismo, o Confucionismo e Taoismo. Sim, os taiwaneses são extremamente supersticiosos.

Os maravilhosos templos budistas recebem diariamente milhares de devotos, muitos dos quais são capazes de ofertar flores aos seus ancestrais ou divindades, até mesmo nos stands de feiras de tecnologias onde apresentam a mais avançada ciência. Eu presenciei esta evidente contradição em uma feira de Ciência e Tecnologia aplicada à agricultura. E devo dizer, agricultura de precisão, posto que terra é um bem absolutamente escasso.

Os taiwaneses também se preocupam com a conservação de seus recursos naturais cada vez mais diminutos. Por isso, 20% do território nacional representam unidades de conservação espalhadas por toda a ilha. Eu pude visitar o lindíssimo Parque Nacional de Taroko.

Taruogo

Parque Nacional de Taroko

A língua oficial é o mandarim, estabelecida após a fuga do republicano Chiang Kai-Shek para Taiwan, derrotado em 1950 na China continental, após disputa com o partido Comunista de Mao Tsé-Tung.

133a edição do Land Policy for Sustainable Rural Development

Aqui conto uma fração da breve e intensa experiência que vivi em Taiwan (RC), em maio e junho do ano corrente. Neste período, vivenciei por um mês a 133a edição do Land Policy for Sustainable Rural Development, um treinamento oferecido anualmente no International Center for Land Policy Studies and Training.

Este Centro de Estudos é mantido por uma consolidada parceria entre instituições taiwanesas e estadunidenses: Council of Agriculture of Taiwan, Executive Yuan, The Lincoln Institute of Land Policy, Cambridge & Massachusetts.

O curso é ministrado em um bom e fluente inglês por professores oriundos de universidades públicas americanas, taiwanesas e uma europeia. Também há um professor brasileiro do Centro de Economia Agrícola e Ambiental da UNICAMP.

A turma foi composta de 31 profissionais de 30 diferentes nacionalidades: Nauru, Malásia, Belarus, Belize, Mongólia, Polônia, Turquia, Fiji, Ilhas Maurício, Burkina Faso, Bósnia e Herzegovina, República Checa, Estônia, Rússia, Jordânia, Ghana, México, Guatemala, Haiti, Honduras, Vietnã, Zambia, Papua Nova Guiné, Suazilândia, São Vincente & Grenadinas, Federação de São Cristóvão e Neves, Peru, Argentina e o Brasil, claro!

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Formatura do curso – Governantes de Taiwan, Embaixadores, Embaixatrizes e os participantes de diversas nacionalidades.

Os objetivos do curso são basicamente nos ofertar: i) uma compreensão das melhores práticas para administrar terras rurais com os desafios advindos do rápido crescimento urbano, dos acordos comerciais mundiais e de competição por recursos naturais; ii) técnicas de gestão da informação e desenvolvimento institucional e administrativo para o gerenciamento das dotações de recursos naturais e dos sistemas de posse de terra; iii) noções de avaliação, modelagem e aplicabilidade de sistemas de informação de terra e sistemas de informação geográfica; iv) modelos e experiências de planejamento e gestão de terras para a agricultura adotados por Taiwan e pelos países ali representados.

Os desafios

As despesas dos participantes, inclusive passagens aéreas e seguro de vida, são custeadas pelo Governo Taiwanês. E todos são confortavelmente acomodados em suítes individuais. As refeições são servidas em um restaurante terceirizado. Tudo funciona perfeitamente no Centro de Estudos.

O treinamento é ministrado em ritmo asiático envolvendo os dois turnos, intercalados por curtos intervalos de tempo. De noite, investimos tempo nas leituras recomendadas ou nas atividades de grupo com vista a posteriores apresentações e discussões em classe.

Também há viagens de campo com estadia em hotéis para visitar projetos agrícolas, áreas protegidas e regiões turísticas da Ilha. Dentre outras viagens, conhecemos o Sun Moon Lake com seus templos e suas longas ciclovias em meio a uma linda paisagem florestal.

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Templo Wen Wu, no Sun Moon Lake

O público-alvo deste treinamento é composto basicamente de professores universitários e agentes governamentais de alto escalão: conselheiros de ministros de agricultura e planejamento, diretores de departamentos e procuradores jurídicos. Nesta edição havia apenas dois representantes da iniciativa privada: eu e um colega da Malásia, ambos envolvidos com o agronegócio da borracha natural.

Durante o treinamento, nós tivemos a missão de apresentar em vinte e cinco minutos o nosso país com os potenciais e desafios nas políticas de distribuição de terras. Na ocasião, os professores me recomendaram que eu também falasse da minha experiência em governança local para desenvolvimento sustentável, focando a agricultura e o cooperativismo no baixo sul da Bahia. Aproveitei e falei um pouquinho sobre o projeto de doutorado, obviamente.

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Visita técnica a produtores de chá e cogumelos

Dui bu qi ou Minhas Desculpas!

Orgulhosamente o Brasil é o país da abundância em água doce, em florestas, em biomas, em minerais, em diversidade. Mas é também o país do desperdício, da desigualdade, da indiferença e do descuido com os recursos naturais. Como dizer para a colega de Fiji, ou de Belize ou de Burkina Farso que no Brasil uma fazenda de 400 ha é considerada uma pequena propriedade? E que este mesmo Brasil abriga fazendas de 20 mil ha de um único proprietário? Como dizer que muitos dos proprietários agrícolas brasileiros ainda se recusam a conservar a vegetação nativa que protege as margens dos rios e as encostas das montanhas?

O que Taiwan (RC) quer do Ba xi (Brasil)?

Tudo! respondeu efusivo o Embaixador de Taiwan, Isaac Tsai, na última visita que o fiz em Brasília. Taiwan também quer ser reconhecido como um estado independente da China continental. E quer dizer para o mundo que é um exemplo a ser seguido em muitos aspectos, tal qual o planejamento dos espaços urbano e rural. Outrossim, é inegavelmente, um centro de ciência e tecnologia, também para a conservação da biodiversidade e para a agricultura.

Dentre as atividades de campo, nós tivemos aula no Centro de Informação Geográfica da Feng Chia University, uma dentre as 145 universidades existentes por lá. Há, ainda, 13 escolas técnicas no país. Confesso que fiquei muito bem impressionada com os equipamentos, a tecnologia empregada e a logística daquele Centro.

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No Centro de Informação Geográfica da Feng Chia University

E nós, o que podemos ter de Taiwan (RC)?

Por intermédio do Escritório Comercial do Brasil em Taiwan, eu visitei a National Pingtung University of Science and Technology. Na ocasião, estive acompanhada da Embaixatriz do Brasil em Taiwan, também professora licenciada da Universidade de Brasília e, atualmente, professora da National Chengi University. É na National Pingtung University que pretendo fazer parte do meu Doutorado e quem sabe abrir portas para estudantes da UESC, por exemplo?

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Na National Pingtung University

Taiwan tem abundância em recursos financeiros e tecnológicos além do interesse em receber alunos brasileiros em suas instituições de ensino. E há um esforço cuidadoso do corpo diplomático brasileiro, para tanto. Prova disso são os convênios já firmados entre àquelas universidades e as universidades brasileiras públicas e privadas. Muitos dos cursos são ministrados em inglês e bolsas governamentais ou universitárias estão disponíveis para estudantes estrangeiros.

Xie xie ou obrigada Taiwan!

A experiência foi um grande desafio. Nada fácil conviver um mês, trabalhando e estudando intensamente com laowais (estrangeiros) falando inglês com sotaques dos mais variados. Entender o inglês de um peruano ou de um hondurenho, por exemplo, nada mal. Mas entender o inglês com sotaques dos colegas da Bósnia, da Mongólia ou mesmo da Jordânia, é tão desafiador quanto entender o mandarim!

O mandarim? Este idioma complicado também foi matéria de poucas aulas. É quase impossível aprender quatro tonações no mesmo ideograma. As quatro tonações têm fonéticas diferentes podendo representar objetos ou abstratos diametralmente opostos.

Mas determinadas palavras não podem deixar de ser aprendidas por um laowai atento porque, embora o inglês seja a língua universal, em algumas cidades da ilha, há taiwaneses que não falam uma única palavra em inglês. No aperto, o google translate ajuda bastante, além de um Useful Chinese Expressions de bolso. É indispensável ter em mãos alguns cartões de visita em mandarim com os endereços que você pretende frequentar e os contatos do Escritório Comercial do Brasil em Taiwan.

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Uma praia em Taiwan (RC).

Nós, os Laowais

Foi encantador conhecer as diversas realidades de países que se espalham por todos os continentes do globo. Padrões de gestão, planejamento e uso da terra e o envolvimento da comunidade são muito peculiares de cada cultura e povo.

O entendimento sobre a gestão do recurso público e da terra se distanciam tanto quanto o tamanho dos países. Contudo, a concepção de que é necessário mudar os padrões de consumo, ter responsabilidade com o dinheiro e o patrimônio público, e aplicar a ciência para a conservação dos recursos naturais ficou evidente nas 32 apresentações. Surpreendeu-me a Polônia, a República Checa, e sobretudo, as Ilhas Maurício.

Todos os países ali representados, em maior ou menor grau, estão adotando ou buscando melhores práticas e tecnologias para alinhar a agricultura de seus países à conservação. Afinal a corrida é para a perpetuação da vida sob todas as suas diversas formas, no tempo e no espaço.

Se alcançaremos este objetivo enquanto nação global? Ainda não estou convencida!

Lições aprendidas?

i) As agriculturas de pequena e média escalas estão desaparecendo por tornarem-se cada vez mais caras, com margens de lucros menores (especialmente se commodities). Estas são engolidas por plantios mecanizados e de grandes proporções.

ii) Para a manutenção das agriculturas de pequena e média escalas, a tecnologia e a utilização dos recursos naturais devem ter precisão. Desperdício é impensável.

iii) Os produtos agrícolas devem ser beneficiados ao máximo para garantir alguma lucratividade. Os produtores agrícolas de pequeno e médio portes devem se fortalecer mediante associações e cooperativas, garantindo força competitiva com as grandes empresas estabelecidas no mercado.

iv) As terras disponíveis para a agricultura estão se tornando escassas e caras ao longo do tempo e em todos os continentes.

Quer saber mais sobre Taiwan?

Acesse este vídeo narrado pela atual embaixatriz do Brasil em Taiwan (RC), Shirley Carvalhedo Franco

Consulta Bibliográfica

TAIWAN. ESCRITÓRIO ECONÔMICO E CULTURAL DE TAIPEI NO BRASIL. The Republic of China (TAIWAN) at a glance 2016. Disponível em: <http://multilingual.mofa.gov.tw/web/web_UTF 8/MOFA/glance2016/English.pdf>. Acesso em: 5 de agos. 2017.

 

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