Conservação mundo afora: ICCB 2017 (Cartagena, Colômbia)

Recentemente, no final de julho, participei do International Congress for Conservation Biology  – ICCB 2017. Este é um evento internacional de alto nível, organizado pela Society for Conservation Biology – sim, aquela que publica as revistas Conservation Biology e Conservation Letters. Eu havia participado de um evento desses em 2005, em Brasília, no começo da minha graduação; e agora, doze anos mais tarde, resolvi participar de um segundo. Posso falar que valeu muito a pena!

E antes de falar sobre o lugar e o congresso propriamente ditos: não importa o que lhe digam, que emails você receba e o quanto você já tenha viajado mundo afora – sempre, necessariamente, sem pestanejar, olhe no site do consulado sobre pré-requisitos para viajar a um dado país. Eu não olhei; e eu havia recebido email afirmando que vacinação contra febre amarela não é obrigatória para viajar para a Colômbia, e de fato não é – exeto para pessoas vindo do Brasil. Mas a organização do evento não tinha obrigação alguma de me avisar disso, e a companhia aérea também não. Moral da história: tive que reagendar a passagem para pegar o certificado internacional de vacinação, perdi um dia e meio do evento… Mas no fim pode até ter sido melhor, porque vi uma apresentação linda de dança do ventre em São Paulo e fui no show do Edu Falaschi (“Au au au! O Angra é pontual!”) – segunda moral da história: se você tem que remarcar seu voo, faça com que isso também valha a pena!

Bom, sobre o evento e o lugar… Colômbia é um país de natureza exuberante, o segundo mais biodiverso do mundo e o campeão mundial no número de espécies de aves. Tem llanos, tem florestas úmidas, tem montanhas e geleiras, tem mangues, tem recifes de corais – então não é nada surpreendente que a SCB tenha escolhido tal lugar para o seu evento. Inclusive no primeiro dia, no caminho do aeroporto para o hotel, fiquei maravilhado e fascinado ao ver, pela primeira vez na vida, pelicanos – muitos pelicanos! – voando sobre o estuário.

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Um pelicano! Escolhi essa foto porque é a única que peguei ele com a parte de baixo da boca estendida.

E de fato, a natureza não está restrita às unidades de conservação (um total de 59 na Colômbia). Oh não. Além dos pelicanos e garças nos rios, e das onipresentes gralhas maria-mulata, vi, em uma praça urbana do lado do local do evento, bicho-preguiça, macacos – que me parece ser o criticamente ameaçado mono tití cabeciblanco (Saaguinus oedipus) – e esquilos. Não é ser difícil imaginar a minha fascinação, e a fascinação de outros biólogos e cientistas da conservação presentes no evento!

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Olhem a preguiça aí!

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Esquilos fotogênicos

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Primata ameaçado :-(

Sobre a cidade, Cartagena – eu diria que é uma cidade de contrastes. Ela é bonita, sim; mas em parte. Conversando com uma pessoa de lá, quando comentei que a cidade é bonita, ela respondeu “Sim, é bonita – deste lado da ponte.” E falou também que Cartagena é a cidade mais desigual da Colômbia – não conferi tal informação, mas faz sentido. De um lado, temos a cidade história, amuralhada, com restaurantes e lojinhas de artesanato e ônibus turístico passando a seu redor:

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Centro histórico de Cartagena

De outro lado, temos a parte mais recente, de arranha-céus e centros comerciais e de negócios, conhecida informalmente por “pequena Miami”:

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“Pequena Miami” – bairro Bocagrande

E do terceiro lado, mais longe, temos uma parte da cidade que também é nova, mas é pobre, sem arranha-céus (não que arranha-céus façam falta; por mim eles nem existiriam), trânsito caótico e pessoas dormindo debaixo da ponte.

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Perceberam? E ainda bem que fotografias ainda não transmitem odores.

Ou seja… Algo típico da nossa Latinoamerica. Bom, me pareceu um pouco extremo até para nossos padrões, mas não muito. Eu fiquei num hotel no bairro Bosque, que está mais perto da parte mais pobre da cidade, e muitas vezes fui a pé para o local do evento (uma bela caminhada de 5 km), localizado na parte histórica. Isso me permitiu vivenciar a cidade em suas várias tonalidades, não me restringindo àquilo que turistas (e congressistas?) normalmente vêem. Almocei e jantei em restaurantes na parte histórica, por 20-30 mil pesos, e também perto do hotel, por um quarto deste preço. Toda a comida era boa; fico em dúvida entre patacones com arroz e salada e comida indiana, rs.

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Patacones!

Mas e o evento, afinal?

E sobre o evento em si… Sensacional, é assim que eu o descreveria. Duas coisas nele me chamaram mais a atenção: a diversidade de abordagens, temas, sistemas, países…; e a interdisciplinaridade para tratar de conservação. Não é como participar de um evento de, por exemplo, ecologia de paisagens, ou de botânica, ou de algum tema mais específico, onde as pessoas falam sobre assuntos mais relacionados. No ICCB, assisti palestras e participei de discussões abordando temas tão diversos quanto conservação de recifes de corais e de manguezais; como promover a conservação de uma área por meio do plantio e corte comercial de bambu; se estímulos financeiros tornam as pessoas mais ou menos propensas a conservarem uma área; como promover o diálogo entre cientistas da conservação e profissionais do ramo de energia; conservação dos antílopes Saiga em Casaquistão e Rússia; etc. E isso é apenas uma pequena amostra de tudo que teve por lá (inclusive porque perdi um dia e meio do evento…). Tudo girando em torno de conservação, mas com diversos focos e com pessoas de diferentes formações, desde biologia até ciências sociais. Achei inspirador, principalmente para abrir a mente e enxergar a conservação como algo maior, mais geral: Sim, minhas pesquisas com efeitos de borda no cerrado e outros ambientes são importantes – mas elas são importantes dentro de um contexto maior, não por si só. E muitas vezes é este contexto maior que temos que ter em mente se queremos fazer uma diferença. Foque no seu trabalho, mas não perca de vista onde ele está inserido.

E também não perca de vista quem poderia utilizá-lo. Esse foi um dos sábios conselhos dado por E. J. Milner-Gulland, na sua palestra plenária: você pode criar um modelo matemático lindo, que mostre o que vai acontecer com uma população ou uma espécie se nada for feito, e este modelo pode ficar perdido para sempre em um número de uma revista sem jamais ser utilizado. Afinal, o que tomadores de decisão querem? E que tipo de dados e informações eles usariam, e para quê? Se a pesquisa é feita para fins de conservação, isso é algo a se ter em mente.

Outra sábia lição foi dada por Arun Agrawal  na sua palestra plenária sobre os efeitos – nem sempre desejados – dos incentivos financeiros para conservação. Uma das formas de promover a conservação por parte de comunidades rurais é dar às pessoas que promovem a conservação algum tipo de benefício financeiro e/ou material. A lógica por trás disso é bem simples: havendo benefícios, haverá uma maior vontade de conservar. Certo? Pois bem… talvez não. Um estudo de larga escala, realizado na Índia, mostrou que, quando há benefícios materiais, a motivação ambiental, intrínseca é substituída por uma motivação extrínseca e econômica, e a consequência é que menos, e não mais, do ambiente natural acaba sendo conservado. Parece contraditório, não é mesmo? Pois é… A natureza é complexa, e a humanidade (parte da natureza?) também!

Eu apresentei dois trabalhos lá. Uma apresentação de cinco minutos sobre efeitos de borda em manguezais, referente ao mestrado da minha coorientada Bianca Caitano; e um knowledge cafe sobre meus trabalhos de efeitos de borda em cerrado. A ideia do knowledge cafe era ter discussões em grupos pequenos, sentados comfortavelmente em um sofá. Bom… Havia temas muito mais interessantes junto com o meu, então eu acabei discutindo mais comigo mesmo; embora o moderador da sessão, numa breve conversa, me deu bons conselhos: pensar no contexto maior, porque não é só em efeitos de borda que devemos pensar para proteger o Cerrado brasileiro. Isso pode ter sido, quiçá, um ponto de mudança em como penso sobre a ciência que faço – Gratidão! :-) E também foi bem interessante falar de formiguinhas de manguezal numa sessão que também teve falas sobre tartarugas marinhas e sobre felinos em manguezais asiáticos.

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Eu falando sobre efeitos de borda em formigas de manguezal.

O último dia do congresso foi de excursões de campo (não inclusas no valor básico da inscrição do evento; mas vale a pena pagar um pouco mais por elas!). Fui numa ao Via Parque Isla de Salamanca, a umas duas horas de Cartagena, e não estou exagerando ao dizer que são os manguezais mais lindos que eu já vi. É um parque cortado ao meio por uma rodovia, cuja vegetação sofreu muito quando a rodovia foi feita. A construção da rodovia bloqueou o fluxo de água, levando a uma hipersalinização dos manguezais e a uma grande mortandade das árvores, que só passaram a se recuperar depois que foram abertas passagens de água por debaixo da rodovia. E este lugar não é importante apenas para a fauna e flora colombianas: muitas aves migratórias, vindas do norte e do sul, passam parte da sua vida aí.

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Excusão pelos manguezais de Salamanca.

E, como eu ainda tinha três dias antes de voltar pra minha Bahia depois que o evento acabou, aproveitei para conhecer outra área protegida, o Parque Nacional Natural Corales del Rosario y de San Bernardo. É uma área protegida marinha localizada a mais ou menos uma hora de barco de Cartagena. Também é um lugar lindo, com fauna marinha deslumbrante. Infelizmente, me pareceu que os corais que vi durante o snorkeling estavam branqueados – mas ainda assim, havia uma boa quantidade de peixes, de várias e cores e formas. E as praias e a vegetação adjacente também não deixam a desejar.

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Corales del Rosario

Mas, assim como Cartagena, Corales del Rosario não é um lugar sem suas contradições. Enquanto esperávamos algumas pessoas voltarem do oceanário onde se fazem shows com golfinhos, entrou no barco um rapaz vendendo joias feitas com corais e dizendo que ali, naquela ilha, é mais barato porque não pagam impostos. Nenhuma informação, nenhuma placa, nada dizendo para não comprar material biológico – e isso no que era para ser uma área protegida. Bom, vi depois uma placa dizendo isso perto da praia, mas ela estava um tanto escondida de quem vinha pelo mar. E o almoço tradicional colombiano, preparado por moradoras da ilha – peixe, arroz, salada e patacones – vem acompanhado por talheres descartáveis de plástico.

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Almoço em Playa Blanca – acho que quero deixar vocês com fome :-)

Enfim… Foi uma experiência altamente inspiradora. Voltei mais inspirado a fazer a minha pesquisa, e também a trabalhar mais com extensão, pois só a pesquisa não basta para conservação. Por exemplo, penso em usar a revisão de efeitos de borda no cerrado que estou fazendo para dar recomendações de manejo em unidades de conservação. Sim, é um tema específico, mas ao menos é um começo, e é um retorno que posso dar às unidades de conservação onde fiz as minhas pesquisas!

O próximo ICCB será na Malásia, em 2019. Espero que eu tenha inspirado alguém a se organizar para participar… Eu vou! \o/

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Milvago chimachima, ou chimachimá, em Salamanca.

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