Sobre (a falta de) parceria na academia

Este é um post convidado, escrito por Marcela Marega Imamura, doutoranda em Ecologia e Conservação da Biodiversidade pela UESC. Uma das motivações para sua tese é buscar melhores caminhos para uma maior comunicação entre as ONGs voltadas à conservação de golfinhos e baleias do Atlântico Sul Ocidental.

Pavel me convidou para escrever sobre alguma experiência ou ideia em seu blog e de cara me veio um tema a respeito do qual venho refletindo desde que ingressei na empreitada acadêmica, é sobre algo que estamos predestinados a nos esbarrar em todas as instituições. Não é sobre mim.

Imagine uma situação em uma academia em que bombados estão em frente ao espelho olhando pra si admirando-se e olhando de relance, invejando o tanquinho e muques do outro. Então, situações assim acontecem frequentemente na “nossa vida de academia” com o Currículo Lattes.

No meio acadêmico muitas pessoas podem não levar em consideração possibilidades de reais parcerias, por causa de ego. Pesquisadores em uma mesma instituição com interesses em espécies, áreas e métodos em comum, que mal se comunicam. Deparo-me com situações assim desde a graduação.

Sobre (a falta de) parceria na academia

Um dia desses, eu estava em um congresso e ao final de uma mesa redonda estava em pauta uma discussão sobre a necessidade de avanços na pesquisa em determinada área. Já estava me dando comichão de levantar a mão para colocar o que venho observando no meio acadêmico, então alguém logo se levantou e botou a questão em jogo – que alívio me deu! Parece que ouviu meus pensamentos. Em suma, comentando sobre a necessidade de mais parcerias, principalmente entre pesquisadores dedicados às mesmas espécies, sobre deixarmos de lado questões pessoais e visarmos realmente à conservação.

Não quero ar de pessimismo ou sofrência. Isso não é uma regra e nem sei se maioria, mas acontece, então acho válido ser debatido.

Vejo muito apego com dados e com o próprio currículo. Esses dados, muitas vezes arquivados, poderiam ser cedidos para completar outro estudo ou mesmo estabelecer parcerias com outras instituições. Bom, mas não quero me referir apenas a dados e sim a conhecimento, experiências, artigos, slides…!

Falo principalmente sobre a necessidade de uma maior troca de conhecimento para o estabelecimento de boas parcerias e resultados.

Não é hipocrisia dizermos que estamos trabalhando em prol das espécies/determinada espécie sem ao menos unirmos os esforços para tanto? Indiretamente todos nós saímos prejudicados por conta disso e, claro, principalmente os organismos que estamos buscando conservar.

Isso entra numa discussão mais profunda, é do ser humano – não apenas do “humano acadêmico” – qual a dificuldade em repartir e distribuir o que temos? Minha conclusão, pelo menos a respeito do universo acadêmico, e grande parte das situações relacionadas a este: preocupação com o Lattes alheio. Ou uma segunda opção, imaturo medo de ficar para trás, o que no fundo se enquadra na primeira opção (vide definição de Competição em Ecologia: uma interação negativa entre indivíduos de uma mesma espécie ou de espécies diferentes concorrendo por um mesmo recurso, analogia desse recurso: Dinheiro, poder, prestígio?). Ah, e uma terceira – e não menos frequente e passível de enquadrar-se nas anteriores – problemas de convívio.

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http://www.savagechickens.com – copyright de Doug Savage

Talvez eu tenha tido sorte de isso nunca ter me prejudicado diretamente. Mas acontece, e muito. Vou exemplificar, podemos ver várias parcerias que renderiam ótimos frutos para a ciência e sabemos claramente que nunca serão realizadas, são improváveis: “Ah, você sabe, pesquisador X não se dá com pesquisador Y”; “Laboratório N não faz parcerias com o Laboratório da Instituição Z”; “se souberem que você é orientando de X, vão retaliar suas análises no laboratório”.

Já vi colegas sendo desencorajados ou deixando de pedir orientações / colaborações que almejavam para evitar esse mal-estar de convívio ou mesmo serem negados pelos seus orientadores a pedir parcerias com a justificativa implícita ou explícita de tais problemas de relacionamento. E laboratórios que estudam os mesmos organismos em uma mesma cidade terem praticamente declarado guerra (fria).

Nós, ainda iniciantes, sejamos proativos e vamos botar essas conexões pra faiscar, distribuir nossos dons e fazer o melhor pra não cair no absolutismo e vaidade (deixa pra lá essa história de massagear o ego!). Ciência colaborativa: grupos de estudos e conexões entre os grupos, sociedade-universidade, prefeitura! São tantas as possibilidades que podemos manejar; e que por fim, poderão nos render ótimos insights, artigos e consequentemente agregar no Lattes.

Como a colega de pós, Nay (Inaiara Sousa), estava discutindo comigo ao escrever esse texto, diferentes perspectivas de um mesmo assunto tem muito a acrescentar, porque foram acumuladas experiências e vivências distintas, e assim as visões são ampliadas e melhoradas.

Não sei se há uma solução fácil para alguns problemas de convívio, muitas vezes é inevitável, mas fica aberta a reflexão (texto estilo “joguei no ar”). Acho que a nós cabe apenas fazermos nossa parte bem feita e buscarmos colaborações tornando nosso trabalho mais eficiente, não comprarmos conflitos já estabelecidos e evitarmos gerar mais.

Essa discussão exige também uma reflexão constante sobre o que é ser um profissional ético e o que nos motiva a estar onde estamos. Estamos saindo de casa motivados para cuidar das espécies ou para engordar o Lattes? Isso é o que irá definir o caminho de união ou segregação. O cuidado deve ainda ser dobrado no nosso meio, porque a academia está suscetível à multiplicação dessas condutas, uma vez que, formadores de profissionais, os pesquisadores e mestres que tem uma postura errônea tem orientandos que poderão carregá-las como referências (Sales, M. 2017 – outra colega da pós).

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Por Liz Climo: lizclimo.tumblr.com

Bom, sobre a história do congresso no início da minha fala, depois o evento girou por vários momentos na questão sobre a necessidade de mais parcerias e acarretou em uma possibilidade de criação de uma Sociedade Brasileira de Especialistas na área!

Quanto à mesa redonda, digamos que o pesquisador renomado que levantou a mão não seja lá o “prêmio Faço parcerias e me dou bem com todos”, e isso me decepcionou um pouco. Mas, quem sabe agora, no auge da sua carreira ele esteja revendo suas decisões? Ao menos naquele instante, quebrou-se sua imagem de arrogante. Nunca é tarde…

P.S.: mesmo para a elaboração deste post fiz o que aqui discuto, contei com o palpite e experiência de amigas, colegas de pós-graduação. Esse texto poderia chegar a 50 páginas com o tanto de abordagens e temas que levantou, foi muito construtivo! Se fossemos ouvir o relato de cada pessoa e cada instituição, talvez ele nunca findasse.

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Por Liz Climo: lizclimo.tumblr.com

4 pensamentos sobre “Sobre (a falta de) parceria na academia

  1. Amei a analogia da competição na academia (musculação) com o meio acadêmico. Precisamos nos certificar se enriquecer o Lattes é objetivo ou consequência de nossas escolhas, das ações que desenvolvemos. Proteger espécies ou ecossistemas em ações isoladas é tão contraditório pois espera-se de quem tem isso como objetivo uma visão holística, sistêmica.
    Tema pertinente demais!

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  2. Que texto gostoso! Ele cutuca, mas da esperança. Cada vez mais caminhamos para esse caminho de construirmos juntos, a força esta no coletivo. Sao muitos os desafios, seja na conservaçao, na politica, na espiritualidade, e supera-los parte do individuo e da sua interaçao com o outro. Estamos conectados e nossas relaçoes pessoais/profissionais precisam ser saudaveis. Adorei que você trouxe isso a tona. Parabens 😍

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