Independência de pensamento

Existem outros textos excelentes sobre o que é ser cientista, que características cientistas precisam ter e questionando você, leitor ou leitora, se você de fato quer seguir o Caminho da Ciência. Abaixo cito alguns:

(Já falei que sou fã do Marco Mello?) Outras pessoas escreveram sobre o assunto, mas estes acima são os textos com que mais me identifico.

E considerando a simples importância deste tema e o quanto já foi dito sobre ele, eu devia parar de chover no molhado e ir fazer alguma coisa mais útil da minha vida tipo preparar a minha aula nada mais sensato do que eu também dar meus pitacos aqui, né? 🙂

Curiosidade, disciplina, perseverança, capacidade de receber críticas… – tudo isso são características essenciais de cientista, em qualquer fase da carreira. Bom, eu nunca fui lá muito disciplinado, mas, por outro lado, frequentemente passo 12 horas direto na universidade, então acho que isso também conta. rs Mas, além disso tudo, tem uma característica que eu considero essencial, que eu chamo de independência de pensamento.

Pensamento independente

Quantas vezes já ouvi pessoas dizendo que fizeram algo “porque o orientador falou”, ou porque “a professora X falou”, ou porque “me ensinaram assim”… E sempre relembro das sábias palavras do Prof. Alberto Carvalho Peret, com quem tive aula, de que a nenhum cientista é permitido dizer que fez algo porque outra pessoa tinha feito. Beleza, alguém te falou pra fazer o seu estudo desse jeito – mas quem garante que a pessoa estava certa? E mesmo que estivesse – afinal, você é cientista (seja formado, seja em formação), ou apenas mão de obra barata para fazer um estudo?

Cientistas precisam ter um pensamento crítico e proativo para decidir o que fazer, como fazer e para quê fazer. Não estou falando de teimosia, de querer sempre fazer algo do seu jeito e não ouvir críticas… Cientistas precisam sim dar ouvido e ponderar as críticas, senão vira dogma, não ciência. Mas as críticas precisam ser avaliadas criticamente… Não é porque um professor, ou sua orientadora, ou o revisor de uma revista falou que algo precisa ser feito de um jeito que aquilo é necessariamente verdade. É claro que, se a pessoa é mais experiente que você, a probabilidade dela estar certa é maior do que a de você estar certo… Mas isso nunca é garantia! Especialmente se for algo que a pessoa não é expert. Especialmente se for referente ao seu trabalho – lembre-se que, ao finalizar a dissertação ou tese, você provavelmente será a pessoa que mais entende daquele trabalho específico no mundo!

E no que consiste este pensamento independente? Consiste em pensar em perguntas de pesquisa e em formas de respondê-las; consiste em pensar em como analisar seus dados e interpretar isso – não esperando receitinhas prontas, mas de fato avaliando o que está acontecendo e o que isso tudo quer dizer; consiste em pensar, afinal, em como resolver os problemas que surgem ao longo do caminho. Sua parcela não está do tamanho que ela deveria estar? Não se desespere, avalie como isso pode ser corrigido, como isso aconteceu e o que isso vai causar nos seus dados. Um professor te disse para estimar a altura ao invés de medi-la? Pense quão bem você consegue fazer tais estimativas e qual será o erro associado. Outra professora falou para você medir as árvores porque estimativas de altura não são confiáveis? Avalie com carinho se você vai ter tempo pra isso, em quanto seu esforço amostral poderá ser reduzido pelo tempo a mais gasto nisso, e se você realmente precisa saber a altura de todos os indivíduos. Sua orientadora lhe deu um projeto já definido no qual você nem teve como opinar? Cogite se é realmente isso que você quer na sua pós-graduação ou IC e, se decidir que sim, se debruce sobre o projeto, estude e avalie ele criticamente, para ver falhas e como estas falhas podem ser solucionadas, e para achar a parte do projeto que mais te interessa. Você tem uma relação péssima com seu orientador ou seu laboratório lhe parece um ambiente insalubre? Pense em alternativas para resolver isso da melhor forma possível – mudando de orientação, se agregando a outro laboratório ou quiçá meditando diariamente para manter a calma.

Algo importante de ter em mente é que: ao entrar no Caminho da Ciência, o trabalho será seu, e você precisa tomar decisões e assumir elas. Não se pode esperar que problemas sejam resolvidos pra você. E também não se pode esperar que você resolva tudo – para isso existem as colaborações e os serviços terceirizados! Neste caso, a decisão diz respeito a quais problemas você consegue resolver, quais habilidades e conhecimentos você vai buscar adquirir, e quais aspectos do trabalho serão terceirizados. Mas não se pode terceirizar tudo, senão onde ficará a sua ciência?

E ao fim deste meu post, duas perguntas… Você, discente, tem de fato este pensamento independente sobre a sua pesquisa, ou você é mais um barco à deriva nas ondas das opiniões e decisões de outras pessoas? E você, orientador ou orientadora, permite que seus discentes tenham um pensamento independente, ou você é um mar em fúria jogando o barco para onde quer por mais que seus alunos tentem remar por conta própria?

Finalizo agradecendo meus Mestres – Dalva Matos, Karen Harper, Miltinho Ribeiro – por sempre terem estimulado este pensamento independente em mim. 🙂

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12 pensamentos sobre “Independência de pensamento

  1. Ótimo post. Estamos na era da informação, que também parece ser a era da pós verdade em muitos casos. Isso dá medo, pois as métricas podem “virar” a realidade erroneamente. O exemplo clássico é o de seguir o exemplo dos “papas”. O “papa” da ecologia da paisagem faz assim, então eu vou fazer meu método assim. Siga o mestre pode ser muito bom em diversos casos, inclusive nos dando um norte, mas às vezes pode simplesmente gerar uma ciência manufaturada, onde cada qual faz uma coisa, ou diz para o aluno fazer uma coisa, e o aluno chega ao fim do trabalho sem se questionar ou sem saber porque tais decisões foram tomadas.
    Viva a independência de pensamento 😀

  2. Ótimo post Pavel! Sempre bons esses chacoalhões principalmente em fases de pensamentos oscilando mais para o lado da insegurança e falta de confiança em nossas próprias decisões. Como pesquisadores temos que estar sempre nos policiando para não deixarmos a peteca cair.

    • Obrigado, Marcela!
      Chacoalhões são legais né? rs
      Tomar suas próprias decisões é importante, ainda mais quando estamos aprendendo a sermos cientistas… Afinal, boas decisões vêm com a experiência, e a experiência vem com as decisões ruins, né? 🙂 Ou seja, a meu ver falhar é melhor do que não ter tentado, e falhar por conta própria pode ser melhor do que ter sucesso seguindo instruções de alguém.

  3. Pingback: Luta de classes na Universidade – Mais Um Blog de Ecologia e Estatística

    • Valeu, Marco!
      O seu post sobre isso foi uma das minhas inspirações 🙂
      O que você sugere para que uma IC estimule essa independência? Pergunto como alguém provavelmente-em-vias-de-começar-a-orientar-ICs (coorientei durante o meu doutorado, e foram duas experiências excelentes mas, ainda assim, insuficiente pra eu ter noções boas de como orientar).

      • Cara, nada melhor para a autonomia do que incentivar uma IC a ler muito e aprender novas habilidades por contra própria, sem depender de aulas. Dependendo do grau de maturidade da IC, vale a pena estimulá-la a desenvolver um projeto próprio. De preferência, um que surja da curiosidade dela. Mas vale até mesmo ser um spin-off de um projeto de uma pós-graduanda.

      • Legal… Eu sempre esqueço de incentivar leituras, talvez porque pra mim sempre foi algo tão básico e que nunca precisou ser incentivado… Por outro lado, a primeira tarefa que a Dalva me deu quando comecei estágio foi ler alguns textos sobre ecologia de populações. 🙂
        Valeu!

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