Luta de classes na Universidade

Este é mais um post discutindo aspectos da vida acadêmica com um ar meio revoltado… Acho que estou meio revolts ultimamente :-) E também estou lendo um livro de educação ambiental que me faz indagar sobre algumas coisas.

Não sou sociólogo, não tenho formação em ciências sociais, minhas leituras nissos são extremamente limitadas, e só tive mesmo contato com ciências humanas quando estudava educação ambiental. Ou seja, a probabilidade de eu não fazer a menor idéia sobre o que estou falando é grande. :-) E também sinto que não consegui me expressar aqui, e nem formular direito as minhas opiniões. Mas só percebi isso depois do texto estar escrito, então bora lá!

Quando falamos em “luta de classes”… O que vem à sua mente? Obviamente, um paladino e um mago lutando contra um ranger e um clérigo enquanto um bardo compões canções sobre isso. Imagino que vem à mente a clássica questão do proletariado – detentor da mão de obra – e dos donos dos meios de produção… Acertei?

Proletariado não se limita às fábricas; uma bióloga fazendo uma consultoria para uma empresa, ou um tradutor a serviço de uma editora, a meu ver também poderia ser chamado de proletariado, pois a sua moeda de troca é o seu trabalho, braçal, intelectual ou ambos. Tudo bem que nunca consegui entender a posição da Academia nisso tudo aí; ou talvez a Academia não tenha uma posição só; e por vezes a Academia ou a Universidade parece ser um mundo à parte. E, como um mundo à parte, a sua estrutura e o seu funcionamento também podem ser explorados…

Na Universidade, existe a divisão em três níveis: discentes; docentes; e o corpo técnico-administrativo; além dos serviços terceirizados de limpeza, etc. E é clara também a relação de poder nisso – docentes com o máximo de poder, discentes com o mínimo de poder, e o corpo técnico-administrativo e servidores terceirizados possibilitando que tudo isso funcione.

Seria então o corpo docente análogo à burguesia, detentora dos meios de produção; e seria o corpo discente a mão-de-obra proletária? Pensando em pesquisa – quem detem o acesso aos laboratórios, os equipamentos de pesquisa, e grande parte do conhecimento especializado é o corpo docente. E alunos por vezes são relegados, principalmente no início, ao trabalho braçal: lavar vidraria, organizar coleções, planilhar dados… Não quero incluir trabalho de campo nisso, porque é um aprendizado muito importante, mas também há exageros, quando o trabalho já não traz aprendizado adicional ou qualquer espécie de fruto para a pessoa. Em situações extremas, de forma análoga a operários e operárias em fábricas, só que agora por vezes produzindo dados e limpando equipamentos para que o docente realize sua pesquisa.

E isso gera frustrações, desapontamento com a vida acadêmica, porque ninguém quer entrar em um meio acadêmico para se sentir mão de obra barata. Também pode gerar conflitos, com docentes de um lado e discentes do outro; como se fossem dois lados com objetivos opostos, explorados e exploradores e sem entendimento mútuo.

Mas precisa ser assim? Ou melhor, faz sentido que seja assim? Docentes de um lado, discentes do outro, em conflito permanente sobre como as coisas devem ser feitas?

A meu ver, não, não e mais uma vez não. (E como falei, é a meu ver; vocês são livres para me ignorarem, discordarem e o que mais quiserem fazer ;-) ) Porque o objetivo, no fundo, é o mesmo; e porque o corpo discente é a alma da Universidade. O objetivo final, principalmente pensando na graduação, é a formação das pessoas. Então, por exemplo, se uma professora não quer arredondar a nota de 5.8 para 6.0, não é maldade. É porque ele ou ela entende que o desempenho do aluno não foi suficiente para ser aprovado naquela disciplina. Afinal, aprovar alguém em uma disciplina significa afirmar que a pessoa está dominando o mínimo necessário daqueles conceitos. Você atravessaria uma ponte projetada por alguém que foi reprovado em Engenharia de Pontes?

(E sim, claro, ser aprovado ou reprovado numa disciplina não é um indicador totalmente confiável de que a pessoa tem aquele conhecimento ou não. Mas, mesmo limitado, ainda é um indicador…)

Similarmente, se um professor não quer liberar a turma para assistir o jogo do Brasil, não é por maldade. É porque o número de aulas é limitado e o conteúdo a ser passado é grande; e sim, tenho ressentimentos da minha graduação de ao menos uma aula que não foi dada porque parte da turma queria emendar um feriado.

O que pode e deve acontecer é que diferentes pessoas vão ter diferentes concepções sobre o que é importante para formar pessoas em uma dada área. Então enquanto uma pessoa acredita que treinamento taxonômico é essencial, outra foca em análises estatísticas e uma terceira acredita em atividades de extensão. Essas questões devem ser discutidas e inclusive formalizadas na grade curricular.

As coisas são menos óbvias em se tratando de orientação… Lavar vidraria é uma estratégia pedagógica para a pessoa entrar na área, ou é aproveitar a mão de obra para fazer algo que mais ninguém quer fazer? Qual é o limite quando algo que serve primariamente para formar alguém se transforma em mão de obra? Grande parte dos dados é coletada por estudantes de graduação, mestrado e doutorado – e isso é essencial, pois não me parece possível aprender a tocar para a frente pesquisas sem antes ter passado por todas as fases de como se faz uma pesquisa. E sim, tanto orientador quanto orientanda devem colher os frutos disso. Mas deve se tomar cuidado para que isso seja formação, e não exploração; para que um pensamento independente possa ser desenvolvido pela ou pelo discente.

Mesmo sendo menos óbvias, para mim é bem claro como as coisas deviam ser… Numa pós-graduação, todos estão trabalhando para o mesmo fim: formação das pessoas e produção de conhecimento científico – não somos lados em conflito, somos aliados, e devemos agir como tal. Aliados de fato. Então conflitos intelectuais são comuns e esperados, mesmo porque não existe uma única forma de fazer as coisas e porque dificilmente há consenso absoluto no meio científico (exceto sobre as coisas que são tão bem conhecidas que não há mais necessidade de estudá-las). E embora seja mais provável que o cientista mais experiente esteja certo sobre um dado assunto, isso nunca é garantido.

Acho que o por vezes falta é ter em vista esse objetivo comum. Porque se um lado quiser simplesmente maximizar a quantidade de publicações científicas e o outro quiser um diploma com um esforço mínimo, conflitos são inevitáveis; mas se ambos os lados tiverem em vista o fim comum – formação das pessoas e produção de conhecimento científico -, os conflitos serão aqueles conflitos saudáveis referentes ao melhor meio de chegar a este fim.

E também por vezes falta pôr na pele da outra pessoa. É fácil esquecer como era a vida de estudante, e é mais fácil deixar de enxergar que o professor também é uma pessoa. É fácil ignorar o fato de que alguém gasta três horas no ônibus para vir assistir à aula e que às vezes o ônibus quebra; e é fácil também ignorar o fato de que pode ser muito difícil passar o conteúdo de uma matéria se metade da turma falta metade das aulas. E mais fácil ainda é esquecer que estes dois lados, com papéis diferentes, com alguma diferença na experiência (já dei aula pra pessoas com muito mais experiência de vida e profissional do que eu), são aliados, não como lados opostos em um cabo-de-guerra ou numa guerra.

No fim, creio que a separação discente-docente muitas vezes poderia nem existir – em se tratando da definição de projetos, planejamento de um curso etc, o que importa é a experiência pessoal de cada um e cada uma, e não o status ou a posição da pessoa.

6 pensamentos sobre “Luta de classes na Universidade

  1. Ótimo texto! Também concordo que, no fundo, os objetivos são os mesmos. Na minha opinião, conflitos são normais em quaisquer grupos humanos a partir de 2 pessoas. O que devemos evitar é o confronto. E a raiz da tensão que leva ao confronto entre professores, técnicos e alunos é a péssima estrutura gerencial da maioria das universidades. Não há figuras de líderes, os papeis de pessoas e categorias são mal definidos, as expectativas são altamente subjetivas e os incentivos e punições são caóticos. Essa bagunça é observada desde a escala dos laboratórios até a escala dos órgãos colegiados e unidades administrativas. Considerando um universo de 50 mil pessoas, como observado em algumas das maiores universidades brasileiras, não tem como uma multidão desse tamanho se entrosar, sem que a convivência, as metas, os direitos e os deveres passem a ser organizados e comunicados de forma mais profissional. Em suma, falta profissionalismo em todas as partes, mas principalmente no gerenciamento acadêmico.

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    • Obrigado, Marco! :-)
      Acho que quando falei em “conflito” me referi a confrontos, e ao que você chama de conflito me referi como “conflitos saudáveis”… Mais ou menos. rs
      Não tinha pensado sobre a questão da gestão neste contexto, mas sim, faz sentido… E além da bagunça na organização, existe uma hierarquia muito forte até o nível de professor, e depois não há praticamente hierarquia alguma; li em algum blog, e faz muito sentido, que essa estrutura favorece assédios, humilhações etc, porque não há uma instância mais alta para a qual a pessoa irá responder…
      Eu acredito que a figura de líder é muito importante… E também acredito que, para liderar, é preciso treinamento e estudo, porque liderar – mesmo que seja liderar um grupo de pesquisa com quatro pessoas – não é nem um pouco trivial. Existem pessoas na Academia que fazem um excelente trabalho de liderança, mas outras falham miseravelmente nisso… Escrevi um pouco sobre isso um tempo atrás: https://anotherecoblog.wordpress.com/2017/01/04/lideranca-na-academia/

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      • Concordo plenamente. A hierarquia das universidades brasileiras é horizontal demais. Ninguém fiscaliza direito a atuação dos professores, que, além disso, conquistam a estabilidade eterna rápido e fácil demais. Péssima combinação de estímulos errados… E, sim, criando-se uma hierarquia mais vertical no nível da faculty, seria importante os líderes passarem por um treinamento formal. É o único ponto que falta no sistema acadêmico do UK, que eu considero o melhor dentre os existentes.

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      • Hummm… Você acha que seria melhor se a estabilidade fosse mais difícil a ser conquistada? (Eu não tenho uma opinião formada sobre isso, e como estou bem longe de ser estável, acho que não estou enviesado ainda, rs)

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  2. Pingback: Sobre saúde mental na Universidade – Mais Um Blog de Ecologia e Estatística

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