Ter uma vida faz bem pro Lattes!

A Academia costuma ser um ambiente bastante estressante (e você não precisa acreditar na minha palavra – veja, por exemplo, essa matéria publicada na Revista Fapesp). Eu pessoalmente não acho que isso seja uma característica exclusiva da Academia – amigos e amigas que trabalham em outras áreas, como consultoria ou tradução, não parecem significativamente mais felizes ou mais de boas. Também duvido que uma empresária ou um funcionário do Banco do Brasil viva uma vida sem estresses. Mas, a Academia é o ambiente que conheço e sobre isso que vou escrever.

Uma característica da vida acadêmica é a falta de estabilidade à qual se segue, para quem sobreviver e passar num concurso, uma estabilidade praticamente garantida até o fim da vida. E isso talvez aumente o estresse nesse ambiente. Por pelo menos dez anos (graduação – mestrado – doutorado) a vida é incerta, não se sabe de onde virá a próxima bolsa (nem se ela virá de algum lugar), planos para o futuro são instáveis, não há garantias ou direitos trabalhistas… Por outro lado, há uma liberdade que poucas profissões dão. A liberdade de perseguir uma pesquisa que é do seu interesse e investir, acima de tudo, na sua própria formação.

Isso é algo que não deve ser esquecido. A relação com a Academia não é como a relação com uma empresa. Seu orientador não paga o seu salário e não é seu chefe – quem paga sua bolsa é o governo, investindo em recursos humanos que darão um retorno ao País mais do que em produção científica a curto prazo.

Mas, o mercado é competitivo. Há mais cientistas em formação do que vagas de emprego. Talvez haja cursos de pós-graduação demais – do que adianta formar tanta gente com doutorado se o não há demanda e empregos para todo mundo? A verdade é que uma parcela pequena das pessoas subirá ao topo – no nosso caso, passará em concurso numa universidade. E se você pensa que passar em concurso diminuirá seu grau de estresse – triste ilusão! Há estabilidade, mas há muito, muito, muito trabalho, mesmo.

Talvez esse seja o preço da liberdade.

Temos em grande parte a liberdade de escolher nossa área de pesquisa e podemos fazer o nosso próprio horário. Que outras profissões têm isso? Empresários, e artistas que ralam as mão e os dedo até de madrugada.

Acadêmicos que ralam os olho e os dedo até de madrugada.

Porque até agora acho que nunca ouvi alguém, seja estudante, seja docente, falar “Cara, não estou com nenhum projeto atrasado.” Dados preliminares indicam que pessoas que lêem este blog têm ao menos um artigo pesando na consciência.

A questão é, como sobreviver a isso?

A minha resposta é: ter uma vida!

A vida não cabe no Lattes;

A vida é mais do que os artigos que você publica;

A vida faz bem pro Lattes!

Por essa última vocês não esperavam, né? (Claro que esperavam, tá no título do post!)

Não sou o primeiro a falar que você não precisa trabalhar horas infinitas para se dar bem na Academia – vejam, por exemplo, esse texto da Meghan Duffy. Um conselho dela também foi publicado no blog da Nature:

“Não sacrifique a sua saúde e o seu bem-estar pela sua carreira. Especialmente no começo da sua carreira, é fácil dizer ‘Eu não devia fazer isso por muito tempo, mas se eu trabalhar muitas horas por dia agora, eu posso compensar no futuro.’ Essa mentalidade é muito comum, mas ela é perigosa. Eu conheço pessoas que tiveram que sair da academia depois de conseguir um cargo permanente porque elas não cuidaram da sua saúde mental durante seu treinamento. No Twitter, pessoas vão dizer ‘As coisas estão bem mal, mas eu vou cuidar disso depois.’ Elas deviam cuidar disso agora. Isso significa: mantenha suas horas de trabalho sob controle, tenha tempo para se exercitar, passe tempo com amigos e família e aproveite a vida. E se ajuda profissional for necessária, ela não deve esperar.” (tradução minha)

E é isso. Não adianta dar tudo de si em um momento da vida e depois quebrar, não conseguir fazer nada por pura e simples exaustão. A vida não é um jogo de computador em que você pode se encher de psicotrópicos, sair do último combate com um ponto de vida e terminar o jogo. Sempre há outros combates e outros chefões a derrotar.
E não adianta ficar seis, oito, dez, doze horas na frente do computador por dia escrevendo sua tese se as palavras simplesmente não saem mais. Durma. Saia. Jogue peteca. Treine capoeira. Tome um açaí com pessoas legais. Seu rendimento vai melhorar, aquele parágrafo que você está tentando escrever há duas semanas vai sair naturalmente, você vai entender por que o seu código de R (não) funciona – e seu lattes também vai melhorar como resultado disso.

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Sim, jogue peteca!

Afinal, para aumentar nossa produção, podemos aumentar o tempo que gastamos trabalhando – ou podemos melhorar nosso rendimento. Mais valem seis horas bem trabalhadas do que dez horas improdutivas, e ter uma vida permite que você aumente a produtividade. “Work hard and play hard” – foque no trabalho quando tiver que focar no trabalho, foque em outras coisas quando não estiver trabalhando.

E se você tiver vontade de trabalhar durante seu período de descanso, nada te impede. Afinal, estamos na Academia porque gostamos de fazer ciência, certo? Faz todo sentido fazer algo que se gosta durante o período de descanso – só cuidado pra não sobrecarregar.

Eu sempre fiz várias coisas fora da Academia. Cantei em coral, fiz Aikido, Kendo e Capoeira, toquei flauta, fiz aula de palhaço durante um período muito difícil da minha vida no meio do doutorado – e acho que tenho uma produção científica relativamente boa. Então, falando por experiência própria, e também pelo que vejo de pessoas que admiro cientificamente – atividades extra-Academia não prejudicam sua produção; pelo contrário, podem melhorar ela, aumentando sua produtividade e sua vontade de viver.

Portanto, para ter sucesso na Academia, não procure trabalhar tanto quanto for possível, mas procure trabalhar tão bem quanto for possível. Algo que me ajudou foi fazer uns cursos online do Seiiti Arata; ele faz coisas que fazem muito sentido, e tem vídeos gratuitos bem legais. Mas, mais do que isso, faça coisas legais, coisas que te inspirem, te deixem feliz e aliviem as tensões da vida acadêmica, porque a vida não é uma corrida de cem metros rasos ou um duelo, e sim uma maratona ou uma guerra de atrito em trincheiras (peguei pesado agora), e a Academia é apenas um aspecto dela.

Que a Força esteja com vocês.

13 pensamentos sobre “Ter uma vida faz bem pro Lattes!

  1. Excelente texto, Pavel! Concordo 102.1%! (estou ouvindo a Kiss FM, rs) Para alcançar esse equilíbrio que você sugere, disciplina é fundamental. Recomendo fortemente que todos experimentem alguns métodos profissionais de gerenciamento do tempo e dos recursos, como o 5S (http://blog.ipe.org.br/5s-academico/). Outro ponto fundamental, no qual discordo veementemente do Wilson (naquele livro “Letters to a young scientist”), são as férias. Cientistas devem, sim, tirar férias! E devem se desligar do trabalho durante as férias, pelo menos no período nuclear delas. Mesmo que tenham que cuidar de uma outra deadline sobre a qual não têm poder. Eu mesmo, como servidor público, tenho direito a 45 dias corridos de férias por ano. Tiro 15 no inverno e 30 no verão, religiosamente. Sempre que volto das férias, minha energia e meu foco estão muito mais altos do que antes.

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    • Valeu, Marco!
      Eu nunca fui uma pessoa muito disciplina, estou tentando trabalhar nisso… Ou ao menos não me considero disciplinado, talvez outras pessoas me considerem, rs. Fazer os cursos do Seiiti me ajudou bastante!
      E cara… Aprendi do jeito difícil que férias são essenciais. Na verdade, durante meu mestrado, eu tinha períodos de campo em que não trabalhava no computador, e períodos de trabalho intenso no computador. Isso agia como férias – eu adoro trabalho de campo, e alternar estes períodos trazia o contraste que eu precisava. No doutorado meus campos eram todos perto e constantes, e eu ia pra campo e trabalhava no computador no mesmo dia – e isso não deu certo. Foi aí que percebi que precisava viajar, tirar férias, ter aventuras… Mesmo que a aventura seja ajudar alguém em campo – afinal, eu estaria me divertido! Era muito divertido me voluntariar no Projeto Mucky e falar que estava lá tirando férias, pois o trabalho era pesado.
      Agora tirei férias de verdade, pra ficar de boa em casa… Trabalhei alguns dias porque estava morrendo de tédio e tinha vontade de artigar, e isso foi bom – mas foram poucos dias, e fazendo aquilo que eu tinha vontade. Foi muito bom. Acredito que férias são essenciais. Inclusive tirei férias antes da minha defesa de doutorado – tese entregue, faltava só preparar a apresentação, então nada melhor que descansar pra recuperar as energias! :-)

      Uma coisa interessante que o Seiiti fala é classificar suas tarefas em importantes/não importantes e urgentes/não urgentes, e buscar focar naquelas que são importantes e não são urgentes. Responder um email pode ser urgente, mas é de fato importante? Talvez seja… Por outro lado, estudar e investir na sua formação não é urgente, mas é importante, e é a isso que devemos nos dedicar. E cuidar da saúde, física e mental, é muito importante também.

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      • Sim! Classificar as tarefas de acordo com esses dois critérios (importância e urgência) muda a nossa forma de ver o mundo. Eu ainda incluo um terceiro critério, que é a responsabilidade. Ou seja, o quanto aquela tarefa depende de mim ou de outras pessoas.

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