Sobre ajuda e logística em campo

Trabalho de campo é uma parte importante de muitas pesquisas em ecologia; eu fiz campo na minha graduação, no meu mestrado e no meu doutorado, e ainda vou pra campo às vezes. E é supreendente como, sendo uma parte tão importante, recebemos tão pouco treinamento e instrução real para isso. Aprendemos a planejar um estudo, criar hipóteses, pensar num desenho amostral para isso; o uso das ferramentas recebe bem menos ênfase – sendo que se não usarmos as ferramentas direito*, introduzimos erros nas nossas medições; a logística e planejamento de campo costuma ser no modo “se vira”; segurança em campo então, praticamente nem se fala disso.

Pois vou falar um pouco disso então 🙂 Já falei de segurança em campo em outro post. Mas não custa, em primeiro lugar, reforçar algumas ideias:

Ir pra campo sozinha/o não é legal. Às vezes não temos alternativa, quando são campos longos e não temos como pagar alguém para nos ajudar. Eu acredito muito em ajuda voluntária – eu sempre tive ajuda voluntária e sempre ajudei pessoas, em campo e fora dele. Não necessariamente as mesmas pessoas que me ajudaram – mas favor não se retribui, favor se distribui. Então gente, bora ajudar os amiguinhos? Além de fazer algo legal, é um belo aprendizado – aprendi muito ajudando uma amiga com censo de mamíferos na Ilha do Cardoso, uma outra amiga coletando biomassa de Pteridium em Brasília e, bom, não vou listar todo mundo aqui. rs E sou eternamente grato a quem me ajudou nos meus campos.

E antes que falem que trabalho tem que ser valorizado – valorização não é apenas dinheiro, e ninguém está lucrando com a sua ajuda. A realidade é que via de regra não há recursos pra pagar alguém – no meu mestrado, por exemplo, a reserva técnica que eu tinha não foi suficiente pra cobrir gasolina e hospedagem.

É possível fazer um campo sem ajuda? Sim, via de regra é possível, embora algumas coisas, como marcar parcelas, demorem muito mais. É legal sempre ter alguém pra anotar os dados – mas também podemos usar gravadores para isso. E às vezes trabalhar por conta própria é até mais fácil. Mas tem as questões de segurança envolvidas – se acontecer algo e o celular não tiver pegando, como você vai conseguir ajuda? Não dá pra ficar pensando sempre que vai dar tudo certo – normalmente dá, mas nem sempre. Você pode, por exemplo, estar fazendo campo num costão rochoso com uma furadeira eletrica, levar um choque, perder a consciência e a maré subir. Ou escorregar num morro e quebrar a perna. Ou cair de uma árvore, ou uma árvore cair em cima de você. São situações em que, caso haja alguém pra socorrer ou buscar um resgate, as consequências serão muito menos graves.

Portanto, orientadores/as, bora estimular as pessoas sob sua orientação a fazerem campo juntas e não irem pra campo sozinhas?

Outra questão é o transporte. Acontece às vezes de, para aproveitar o transporte, uma equipe ser deixada em um local para ser buscada no fim do dia, enquanto outra equipe vai fazer campo em outro lugar. Logisticamente isso funciona – maximiza a quantidade de trabalho que pode ser feito em um dia. Mas e se alguém for mordido por uma cascavel, ou sofrer um corte grave e precisar ir pro hospital, o celular não pegar e o transporte for demorar ainda algumas horas pra chegar? Não seria melhor priorizar a segurança das pessoas, e, se for o caso, replanejar os campos para isso?

“Ah, mas campo é caro, temos que otimizar, e os trabalhos precisam ser feitos em locais distintos” – não, eles não precisam ser feitos em locais distintos, é perfeitamente possível fazer duas, três, quatro pesquisas no mesmo local. Basta pensar de forma coletiva. Conheço vários casos de trabalhos que foram feitos assim, diferentes pessoas coletando dados ao mesmo tempo e às vezes nas mesmas parcelas, e isso dá certo.

Outra questão é a eficiência. Dependendo do trabalho a ser feito, ele é muito mais fácil de ser feito em dupla ou trio. Então, se duas pessoas estão coletando seus próprios dados, elas podem fazer isso individualmente; ou elas podem fazer um esquema de ajuda mútua – eu te ajudo hoje, você me ajuda amanhã. Também fiz bastante isso, e posso dizer que, sim, funciona. Por exemplo, passei dois meses fazendo campo em Churchill, no Canadá. Éramos uma equipe de três – eu, uma mestranda e uma graduanda – trabalhando em três projetos distintos (o meu e o da graduanda eram nas mesmas parcelas). Sempre íamos pra campo juntos – uma pessoa ficava amostrando a vegetação, outra anotava, e uma terceira pessoa ficava de guarda por causa de ursos polares. Fiz um planejamento de quantos e quais dias faríamos o campo de quem, e deu certo. Coletamos todos os dados e ainda pudemos tirar alguns dias de folga – em um dos quais eu fui pra campo com uma outra equipe que estava medindo a profundidade do permafrost, porque é legal! 🙂

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Team Halifax

 

 

Portanto, quando eu falo de fazer campo junto, não é apenas ir para o mesmo lugar e fazer cada um o seu trabalho. É mais uma questão de ajuda mútua mesmo – e o tempo que perdemos ao não coletar os nossos dados podemos quem sabe recuperar com o aumento de eficiência.

E em se tratando de aumento de eficiência, isso é algo que deve ser planejado também. Se há três pessoas marcando um transecto, qual a melhor forma de organizar o trabalho? Em duas pessoas, uma pessoa indica a direção e outra pessoa abre o caminho e mede a distância. Em três, talvez alguém pode ficar responsável em olhar pela bússola e dar a direção, outra pessoa abre o caminho e outra pessoa mede distância. Mas talvez a terceira pessoa possa já aproveitar para coletar dados. É uma questão de pensar e decidir a estratégia mais eficientes naquelas condições.

E se, por necessidade ou escolha, pessoas ou equipes estiverem trabalhando em locais próximos, mas não junto (por exemplo em diferentes partes de um mesmo remanescente florestal), uma forma de comunicação é necessária. Tais como rádios! Rádios que funcionem é algo que todo laboratório onde pessoas façam trabalho de campo devia ter. Não é pesado e facilita bastante a comunicação, principalmente em situações em que, por algum motivo qualquer, seja necessário acabar o campo antes da hora planejada – ou se decida ir além da hora planejada. E outro equipamento muito útil, leve e barato é um apito – uma excelente forma de sinalização em situações de emergência.

[Atualização, copiado do comentário do Marco Mello abaixo:

“Todo professor deveria comprar rádios HT para o laboratório, caso a equipe desenvolva muitos trabalhos de campo. No mínimo 3, porque quem tem 3, tem 2; e quem tem 2, tem 1. E, sim, tem que ser HT, profissional, porque walkie-talkies no meio de uma floresta e nada são a mesma coisa. O ideal, caso o campo seja feito em uma reserva com estrutura de comunicação por rádio (antenas, torres etc.), é saber também as frequências de segurança usadas pelos guarda-parques e a administração.”

]

Então no geral é isso… Não pensem apenas no desenho amostral, pensem em como o trabalho será feito em campo, de modo a garantir a segurança e maximizar a eficiência (nesta ordem, não o contrário).

* Assim, muitas vezes basta ler o manual pra aprender a usar um equipamento. Leiam os manuais. Os manuais são seus amigos. 🙂

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2 pensamentos sobre “Sobre ajuda e logística em campo

  1. Excelente texto, Pavel! Concordo com tudo. E reforço: todo professor deveria comprar rádios HT para o laboratório, caso a equipe desenvolva muitos trabalhos de campo. No mínimo 3, porque quem tem 3, tem 2; e quem tem 2, tem 1. E, sim, tem que ser HT, profissional, porque walkie-talkies no meio de uma floresta e nada são a mesma coisa. O ideal, caso o campo seja feito em uma reserva com estrutura de comunicação por rádio (antenas, torres etc.), é saber também as frequências de segurança usadas pelos guarda-parques e a administração.

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