Recomendações para discentes

Este é um texto direcionado principalmente para discentes de pós-graduação, mas acho que se aplica à graduação também. E provavelmente vocês não vão gostar muito do que escrevi (You don’t know the power of the Dark Side!); se se identificarem com as críticas, isso pode indicar necessidade de repensar suas escolhas, atitudes, modo de agir… Se não se identificarem, pode ser um indicativo que está tudo de boa (mas é possível estar tudo de boa?).

Não faz tanto tempo que eu mesmo estava na pós-graduação, e atualmente, como pós-doc, eu ainda tenho um contato intenso com discentes. Então, acho que tenho coisas pra falar…

Vou começar com três premissas que creio geralmente serem verdadeiras…

  • Você é o elemento mais fraco na Academia. Não é uma questão de ser certo ou errado isso – essa é a realidade. Desligar um aluno é muito mais fácil e traz menos consequência do que descredenciar um docente; demitir um docente é muito, muito mais complicado. E desligamento de discentes trazem menos consequências à universidade e ao programa de pós-graduação (PPG).*
  • Você é, no geral, o elemento menos experiente. Existem excessões; alguém com experiência profissional extensa é mais experiente do que um docente recém-contratado. E você provavelmente tem mais experiência em alguns assuntos. Mas no geral, docentes e o pessoal técnico-administrativo tem mais experiência no meio acadêmico.
  • A pessoa com mais interesse na sua formação é você. Claro, seu orientador ou sua orientadora tem interesse pessoal na sua produção científica e via de regra também na sua formação pessoal. Mas o principal interesse é o seu – se você for reprovado na defesa, ou numa disciplina, ou simplesmente não aprender o que você poderia ter aprendido, é você quem vai enfrentar as consequências. Claro, quem te orienta não vai ficar feliz, e não acredito que haja docentes que gostem de reprovar pessoas (mesmo que muitas vezes pareça), e claro, haverá algumas consequências – mas pra você tanto as consequências quanto os ganhos serão maiores.

Dito isso, vamos às recomendações…

1) Para de mimimi e vá à luta!

Reclamar das injustiças da vida é fácil e não leva a lugar algum. O que leva a algum lugar é fazer alguma coisa contra as injustiças da vida. Mas para isso, primeiro é preciso avaliar se houve de fato uma injustiça. A comissão não quer aceitar seu relatório porque é chata, ou você que não se atentou aos prazos? O professor que não quer aceitar seu trabalho atrasado é chato, ou você que não se atentou aos prazos? Aquela palestra super interessante não foi divulgada, ou você que não leu o email? O seu orientador não está te orientando direito, ou você que não está fazendo seu dever de casa?

2) Estude. Pense. Tenha independência.

Como falei, a pessoa com mais interesse no seu trabalho, na sua pós-graduação é você. As disciplinas na pós-graduação servem basicamente para garantir que você tenha os conhecimentos básicos que assume-se que um profissional da área deve ter. Elas não servem pra te fornecer os subsídios para que você realize a sua pesquisa – essa é a função de quem te orienta e – sim – de você mesma(o). A não ser que seu PPG ou laboratório tenha um(a) técnico(a) ou pós-doc que tenha isso entre as suas atribuições, ninguém tem a obrigação de te ensinar a usar aquele equipamento ou software, muito menos te ensinar a analisar seus dados. Claro, ajudar pessoas em suas pesquisas faz parte do que nós cientistas fazemos, mesmo que isso não esteja explicitado em nenhum lugar; mas ninguém vai resolver seus problemas por você. Estude estatística. Leia os manuais. Sério, leia os manuais. Mesmo porque, quando você pede pra alguém te explicar como usa um equipamento ou programa, é provável que a pessoa tenha aprendido lendo os manuais, e em alguns casos a pessoa vai ter que olhar no manual para te explicar. E, acima de tudo, leia e pense sobre a sua pesquisa – a pesquisa é sua, e você é quem tem mais interesse nela.

3) Respeite o conhecimento alheio.

E nisso me refiro principalmente a docentes – que são pessoas que via de regra passaram décadas estudando e pesquisando na sua área de conhecimento. Sim, pessoas erram; mas à vezes achamos que pessoas estão erradas quando estão certas.

4) Não respeite demais o conhecimento alheio.

Dito isso, não é porque um professor ou o seu orientador te disse algo que aquilo está certo. Estude, tire as suas conclusões e, se chegar à conclusão de que te falaram coisas erradas ou de que aquele método não funciona, tenha bons argumentos para convencer do contrário. Ouço muito frases do tipo “Meu orientador falou pra fazer de tal jeito, e estou fazendo assim.” – mas este é o melhor jeito? Você estudou e pensou e testou o suficiente para poder argumentar a favor ou contra este método? O que está em jogo é a sua formação como pessoa (muitas vezes financiada com dinheiro público – e não, o CNPq não está interessado na sua publicação – ao menos nunca cobrou as minhas. Está interessado em formar recursos humanos. O PPG pode ter interesse na sua publicação – porque publicações lhe permitem conseguir mais bolsas e formar assim mais recursos humanos fazendo pesquisas mais interessantes.)

5) Organizem-se

Como falei, vocês discentes são o elemento mais fraco – mas também o mais abundante! Então se sentem que o PPG não está satisfazendo as suas demandas, que a sua formação está sendo prejudicada – reunam-se, tomem uma decisão coletiva e manifestem-se. Conselhos e colegiados de PPGs têm representação discentes, e isso não é uma mera formalidade. Na PPGERN-UFSCar frequentemente fazíamos reuniões entre discentes para discutir aspectos do Programa – ficar apenas conversando nos corredores, sem nada formal ou organizado, não tem como levar a nada.

6) Usem os canais de avaliação disponíveis

É surpreendente como a taxa de resposta em avaliações de disciplinas é baixa. Em disciplina com 20 pessoas inscritas, recebo umas dez respostas ao questionário que envio pedindo para avaliarem a disciplina. Número de respondentes nos canais oficiais do PPG pode girar em torno de três-quatro – ou até menos. E como esperar mudanças nas disciplinas sem se manifestar sobre isso? Se, de 20 pessoas, 19 responderem que a disciplina foi péssima, provavelmente alguma coisa será feita a respeito – se não por respeito a discentes, ao menos porque não interessa a um PPG perder tempo com uma disciplina que não acrescenta nada. Acreditem, organizar o calendário das disciplinas não é fácil.

7) Respeitem o trabalho da Secretaria.

Você não tem tempo por causa de disciplinas, projetos, relatórios? As secretárias ou secretaŕios do seu programa também não. Não tive contato intenso com o trabalho delas mas, na minha impressão, é um trabalho insano. Não esperem que seus emails sejam respondidos de imediato (especialmente se você os envia numa sexta-feira à tarde – pessoas têm o direito de descansar no fim de semana), e às vezes eles não serão vistos pela simples quantidade de emails que o pessoal da secretaria tem que responder. E faça a lição de casa – leia o regimento e as normas complementares, muitas informações estão disponíveis lá.

8) Busque soluções e compromissos.

Às vezes o PPG pode vir com uma demanda que vai prejudicar o seu trabalho. Nestes casos, converse, explique sua situação e tente chegar num compromisso. Tomadas de decisão num PPG dependem de muitas coisas, e é impossível pensar em todos os trabalhos que podem eventualmente ser prejudicados por alguma coisa – mas, se você chegar e conversar sobre o assunto, é provável que uma solução seja encontrada.

9) Responda emails!

Responder emails é legal, viu, gente? Mesmo porque se você não gosta de ter seu email ignorado – bom, ninguém gosta. E sim, você precisa ler os emails. Sim, são muitos emails. Sim, vão ser cada vez mais. Você precisa aprender a se organizar pra ver todos e responder aos que devem ser respondidos. Aqui tem algumas sugestões. Por que você precisa responder? Simplesmente porque a falta de uma resposta é uma resposta. Se alguém envia email num grupo perguntando se alguém tem interesse em colaborar num projeto / dar uma palestra / dar uma aula / escrever um texto e ninguém responde, a ausência de resposta na verdade significa “Não tem ninguém interessado neste grupo”. Se alguém escreve para o seu email pessoal te convidando para um grupo de estudos / uma discussão de artigo / uma colaboração numa aula e você não responde, o que você está dizendo é “Não, não tenho interesse e nem te considero digno de uma resposta”. Ah, mas tanto professor que não responde emails, por que eu preciso? – uma erro não justifica outro, e “Ah, mas tanto aluno que não responde emails, por que eu preciso?”. E a pessoa não vai te convidar da próxima vez.

10) Trabalhe bem, mas não trabalhe demais!

Ter uma vida faz bem ao Lattes, e você não precisa trabalhar 80 horas por semana. Às vezes precisamos trabalhar insanamente por uma, duas, quiçá três semanas – mas isso não pode ser sempre! Cuide da sua saúde. Não chegue ao final sem forças nem vontade de viver. Saúde física, mental e social.

11) O mundo acadêmico é mais do que o seu trabalho.

Isso é polêmico, mas… Vejo gente que se dedica apenas ao seu projeto e a nada mais… Só faz disciplinas que servem para o seu projeto (e ao chegar no fim descobre que aquela disciplina que você não fez no segundo semestre seria perfeita para o que você quer fazer pra sua defesa), não trabalham com extensão (salvo algumas lindas excessões!), não desenvolvem pesquisas paralelas, não assistem a palestras, não participam de grupos de estudo… Mas todas as essas coisas foram essenciais pra minha formação – mesmo que não pro meu currículo. Fazer disciplinas não relacionadas ao seu projeto expande sua mente e abre seus horizontes e te possibilita a trabalhar com diversas pessoas. Grupos de discussão – mais ainda. Foi participando de um grupo de estudos que comecei a dar aulas de ecologia do movimento!

12) Procure conselhos sobre o Caminho da Academia.

É um caminho árduo, difícil e tortuoso. Blogs podem te ajudar nele. Mas procure também conversar com pessoas que você respeita e que podem te indicar soluções aos seus problemas – não precisa ser seu orientador ou coorientador (às vezes a relação interpessoal não abre espaço pra isso), mas há outras pessoas – pessoas com experiência na Academia – que podem te ajudar.

* Adendo à primeira premissa: Por outro lado, reprovações em pós-graduação são muito raras. Muito raras mesmo. E docentes podem ser prejudicados – até descredenciados – para que não haja reprovação, prejudicando com isso também outros discentes. Então existe também uma superproteção dos alunos: suas demandas não são atendidas, mas, tendo entrado na pós-graduação, a reprovação e o desligamento são extremamente raros.

4 pensamentos sobre “Recomendações para discentes

  1. Pavel, mesmo estando oficialmente afastado da academia há mais de dois anos, eu sempre leio seus textos [o do Marco também] e são excelentes. Me faz sentir com um pé na academia ainda e prestes a retornar com força total. Além disso, o conteúdo de seus textos mostram muita maturidade acadêmica.
    Maravilha!

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