A quem serve a sua ciência?

Esta semana, no workshop do laboratório onde sou pós-doc, foi dito algo interessante… A Universidade em que estamos está em uma região bem pobre do Brasil – e isso pensando em qualquer escala. A Bahia é um Estado pobre, a renda está concentrada mais na região metropolitana do que no sul da Bahia, e o bairro onde a UESC fica tem esgoto a céu aberto. Não seria obrigação da Universidade buscar formas de fazer algo a este respeito?

E isso se aplica a qualquer Universidade num país em desenvolvimento (e creio que nos ditos desenvolvidos também). Qual a função da Universidade, da Academia? Não é apenas produzir conhecimento pelo conhecimento – ciência básica é extremamente importante, progresso científico não é possível sem ela, mas não é só isso. E não é produzir conhecimento referente a problemas reais mas muito difícil de ser aplicado – senão fica um conhecimento teórico que não vai gerar frutos práticos. Claro que tudo isso é importante; mas é pra isso que somos pagos, simplesmente pra satisfazer a nossa curiosidade científica?

Não me entendam mal. Eu acredito que satisfazer a curiosidade é o que promove grande parte do progresso científico e também possivelmente social. E eu acredito que cientistas trabalham melhor quando têm a liberdade para escolherem as suas linhas de pesquisa, os problemas que querem resolver e as contribuições que querem dar para a ciência e para a sociedade. Linhas de pesquisa que não sejam consideradas suficientemente importantes, interessantes ou bem-pensadas por comitês de avaliação não irão recebem financiamento, então aí já haveria uma certa forma, bem indireta, de controle social da produção científica. Mas mesmo sem financiamento, cientistas podem escolher perseguir uma linha de pesquisa que não exija muitos recursos (como trabalhos teóricos) ou usarem recursos próprios para isso. De modo que, no fim, a curiosidade científica é o grande motivador das pesquisas realizadas.

Mas não pode ser só isso. A Universidade não pode ser uma torre de marfim isolada do mundo, resolvendo os seus problemas sem olhar para o esgoto a céu aberto que corre do seu lado – a Universidade faz parte da cidade, do país, do mundo. E a sua função primordial seria oferecer soluções – concretas e realizáveis – a problemas sociais, ambientais e econômicos. A Universidade não vai resolver os problemas, não é essa a sua função – ela não é um órgão executivo. Mas ela pode, e deve, sim, fornecer soluções e, havendo forças para tal, fazer algo para que tais soluções sejam implementadas.

E existem exemplos disso. Participação no desenvolvimento do plano diretor de uma cidade; ou contato com produtores rurais; ou interação com o Ministério Público; ou cursos de educação ambiental ministrados para professoras e professores da cidade – tudo isso busca, de uma forma ou de outra, fornecer soluções a problemas percebidos na sociedade. O problema é que é difícil, dá trabalho, não temos tempo, publicar ou perecer, tenho minha tese pra escrever, a CAPES não valoriza isso, relatórios, ninguém se importa com a extensão e só com as publicações…

Complicado.

Porque a verdade é que se você, pessoa da Universidade, não fizer nada em prol da sociedade que te cerca, isso não vai ser criticado exceto talvez em conversas esporádicas de corredor. Mas se você não publicar, aí, minha cara amiga, o bicho pega…

E às vezes a pesquisa que realizamos não tem aplicações práticas, não serve para atividades de extensão – mas ainda é importante, porque é conhecimento de base. Meu doutorado foi assim: trabalhei com análise de padrão espacial no cerrado, e um dia ainda publico isso (em minha defesa, publiquei trabalhos sobre temas mais interessantes e com aplicações mais diretas – eles só não têm nada a ver com o meu doutorado, rs) – mas não tinha lá muito que eu fazer com isso em termos práticos. A solução? Trabalhei com educação ambiental, mostrando o cerrado para as pessoas, como parte de um projeto de longa data. Não sei se ajudei a fornecer soluções para problemas sociais e ambientais, mas acredito que foi uma contribuição importante. E conheço diversos exemplos de trabalhos de extensão sendo realizados na pós-graduação (e a minha impressão é pessoas que trabalham com extensão não são significativamente menos produtivas do que as que não trabalham. Seria interessante testar isso!).

Outra questão é que a sociedade e o governo não valorizam o trabalho científico e a opinião de cientistas. Mas… Será que não temos uma parcela de culpa nisso? Por que uma comunidade valorizaria a Universidade que ignora o esgoto a céu aberto? Por que alguém valorizaria um trabalho que não entende, se as pessoas que desenvolvem este trabalho não se esforçam para divulgar e explicar ele? Conheço exemplos lindos de divulgação científica – como este projeto da UFSCar e esta iniciativa de uma graduanda da UNESP. Tenho uma amiga que, trabalhando numa região rural, fez questão de conversar com as pessoas sobre o seu trabalho, e fez até uma cartilha explicativa. Enfim, existem exemplos – mas ainda é pouco.

E, novamente, não temos tempo sobrando pra isso – a não ser que tomemos a decisão de usar parte do nosso tempo de trabalho para extensão, e os orientadores, ou o colegiado, ou quem quer que esteje decidindo isso aí aceite. E sim, pode haver um tradeoff em publicação – mas a vida é mais do que publicar em revistas científicas. Claro que nós, cientistas, precisamos publicar – que argumentos teríamos pra lutar contra o desmatamento da mata atlântica ou da conversão do cerrado em soja se não houvesse estudos científicos bem embasados sobre isso? Mas eu diria que temos também, como grupo, uma obrigação moral – mesmo que isso não nos seja cobrado – de ir além disso e buscar de fato fazer algo para resolver problemas e ter a nossa contribuição à sociedade, ao ambiente. Afinal, todo este conhecimento gerado e acumulado deve servir pra alguma coisa, e se ficarmos só esperando que alguém um dia use ele pra algo – bom, melhor esperarmos sentados.

2 pensamentos sobre “A quem serve a sua ciência?

  1. PD, lindo texto. Ótima reflexão. Alunos (principalmente da graduação) todo tempo cobram “cadê a extensão dessa universidade?”: Eu sempre lembro que quem faz a extensão não é a Universidade. É a comunidade da universidade. Logo, se um grupo de alunos não sai a campo para levar o que aprendem na universidade, a universidade não faz nada. Se um professor não cria e formaliza um projeto de extensão, seus grupos de alunos e colaborares não vão fazer nada. A universidade não vai fazer nada. Quem faz são as pessoas, e não a instituição. Quem decide que vai fazer dar um curso de música para a sociedade nas horas vagas – mesmo sendo alguém que é do Departamento de Física – é a “Pessoa” e não a instituição. Esperar que a instituição faça algo é algo inimaginável ao meu ver. A instituição não conseguiria por em campo milhares e milhares de projetos de extensão que a sociedade precisa e anseia. A instituição é passiva. Ativos são – oops… deveriam ser… – os membros da instituição. Logo, se queremos fazer algo para a sociedade, temos que separar uma parte de nosso tempo pra isto. E temos que formalizar isto dentro da instituição de preferência, pois senão a extensão pode acontecer, mas não fica registrado que “determinados membros da universidade” realizou aquela atividade de extensão. E, é claro, algumas coisas a universidade (ooops.. seus integrantes) podem e devem fazer. Mas há outros que já não é atribuição. Levar conhecimentos, abrir horizontes e visões da sociedade pode ser algo que consigamos. Mas, de longe, não conseguimos resolver p.ex. o problema da arborização urbana do município. No máximo ajudamos em um plano diretor dizendo que é importante. No máximo sugerimos uma lista de espécies nativas para serem plantas. No máximo plantamos meia-duzia de arvorezinhas para inglês ver. Mas… plantar as milhares de árvores necessárias, ai acho que não se tem perna. Aluno de graduação em projeto de extensão, em geral, age por picos. De 365 dias, atua uma meia-dúzia deles. Com isto, coisas começam, mas não terminam. E a sociedade fica só com o gostinho. E dá pra entender… tem a graduação, aulas, projetos, tccs, relatórios… tudo consome o tempo… e a extensão não se estende.
    Mas, totalmente apoio todo e qualquer retorno pra sociedade. A sociedade não se alimenta de papers, mas sim de retorno e atenção :-)

    Curtir

    • Obrigado pelo comentário, Mestre!

      Sim, muita vezes esquecemos que a Universidade não é um ser que pode fazer alguma coisa por contra própria… É um aglomerado de pessoas com alguma infraestrutura e algum investimento do governo. Se pensarmos na entidade Universidade como as pessoas que a coordenam – reitoria etc – bom, essas pessoas podem conseguir recursos e podem direcionar recursos para projetos de extensão, mas alguém precisa fazer estes projetos em primeiro lugar. Podem ser docentes, mas podem também ser discentes – um exemplo é o Grupo Ambiental Ipê Amarelo, da UFSCar, em grande parte graças ao qual copos descartáveis foram abolidos do RU. http://ipeamarelo.wix.com/gaia#!

      E de fato, a Universidade – quer dizer, a comunidade universitária :-) – não vai resolver os problemas… Mas pode propôr soluções, que o poder público ou empresas ou talvez ONGs podem colocar em prática… Agir pensando nos problemas da sociedade, pensando em soluções e, quando for possível, aplicar estas soluções. Por exemplo, pessoas da Universidade podem fazer atividades educativas relacionadas a arborização urbana – ensinar, divulgar conhecimento faz parte das nossas atribuições. Sair por aí plantando árvores não :-)

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s