O impacto de nossas pesquisas

Em um caso recente e que, a meu ver, mostra que estamos vivendo em tempos sombrios de pós-verdade, na qual a verdade individual importa mais do que o conhecimento cientíico, redes de neblina usadas em uma pesquisa foram destruídas por um grupo de pessoas que entenderam que aquelas redes eram tortura, mutilação e possível assassinato de pássaros em extinção (detalhe que até agora não me responderam quais espécies em extinção eram essas). Essa atitude foi fortemente repudiada pela comunidade científica (eu sou uma das pessoas que assinaram a carta aberta). O texto publicado no Facebook chegava a falar que “Dependendo do modo como o pássaro fica preso,torna-se impossível retirá-lo sem danificar os fios da rede. Então, absurdamente, muitos optam por cortar a sangue frio a parte do corpo do pássaro que ficou preso. E o pássaro fica multilado para o resto da vida.”

E isso me fez pensar – o que fizemos para que pessoas pensem que nós, ecólogos e ecólogas, que buscamos entender a vida em grande parte para protegê-la (sim, ecologia é diferente de conservação, mas o viés conservacionista e a preocupação com a vida está presente na grande maioria de trabalhos que acompanho) agimos de tal maneira? Não era pra estarmos do mesmo lado na proteção à natureza?

E isso me fez pensar – o que fazemos para que pessoas não pensem isso de nós?

Em um mundo pós-verdade, conhecimento científico é ignorado, até repudiado por boa parte da população. Vou escrever sobre isso ainda. M falta, e muito, divulgação científica, falta explicitar melhor para a sociedade os nossos métodos e o que as nossas pesquisas trazem – inclusive os efeitos práticos que elas têm para a proteção de outros seres. E falta mostrar mais claramente que não, não consideramos conhecimento científico como verdade absoluta, mas que é a forma de conhecimento que é melhor sujeita a testes, avaliações e correções e, portanto, mais confiável do que um empiricismo que não é avaliado com rigor.

Mas falta também pensar na impressão que alguém pode ter ao ver os nossos trabalhos em campo – afinal, uma rede de neblina pode ser algo chocante para alguém que nunca a tenha visto; e, se colocada num lugar usado por pessoas, uma pessoa pode se emaranhar nela, e um ciclista pode cair e se machucar. E essa última situação é algo simples de se resolver: isolar a área de algum modo, por exemplo com aquela fita amarela e preta, e colocar placas explicativas.

E o que alguém pode pensar ao ver armadilhas, por exemplo aquelas para pequenos mamíferos, em campo? Recentemente ajudei em campo em um experimento de dispersão de sementes, no qual gaiolas de exclusão eram usadas para impedir que mamíferos e aves acessassem o controle. Várias pessoas nos perguntaram o que estávamos capturando com aquelas gaiolas – “Vocês vão pegar passarinho?” – e tínhamos que explicar que não, não era para um bicho entrar nas gaiolas, era justamente para nenhum bicho entrar nas gaiolas. Mas uma pessoa desinformada, ao encontrar equipamentos como estes em campo, poderia pensar que é instrumento de caça.

Outra coisa: quando trabalhamos na fazenda de alguém, que retorno damos para essa pessoa? Ver gente entrando na sua propriedade e não lhe dando retorno algum, sem explicar direito pra que serve a pesquisa e sem mostrar os seus resultados, não deve ser muito legal*. Serve para propagar a imagem de cientistas como seres arrogantes que não dão valor às “pessoas simples” e confiam apenas no seu próprio conhecimento – e não seria essa imagem um dos fatores que levou à situação de pós-verdade que atualmente vivemos?

De qualquer modo, nós da ecologia via de regra somos bem conscientes dos potenciais impactos dos nossos estudos, tomamos as devidas providências para minimizar eles, e geralmente há estudos que mostram que os métodos usados causam impactos bem pequenos, e infinitamente melhores do que as ameaças à conservação que estamos estudando. Falta difundirmos melhor essas informações.

Mas… Também penso que muitas vezes podemos e devemos fazer mais.

Por exemplo ao andar por áreas com pesquisas ecológicas já realizadas ou em andamento, é comum vermos marcações antigas, às vezes de pesquisas que terminaram anos atrás, e que o pesquisador ou a pesquisadora não retirou. Sim, sou culpado disso também, ainda existem plantas com plaquinhas que coloquei nelas – mas eu era um mero estudante de graduação na época e não sabia bem o que fazia. Mas ainda vou retirá-las! De qualquer modo, nas minhas pesquisas de mestrado e de doutorado, eu incluí no cronograma um período para retirar todas as marcações (embora no mestrado acabei deixando algumas porque não consegui me organizar para voltar àquela área, e depois já era tarde). Afinal, não havia planos de transformar aquelas pesquisas em um projeto de longa duração.

Sim, algumas marcações deixadas em campo não têm muito impacto; mas quando essas marcações estão no número de dezenas ou centenas ou talvez milhares, elas no mínimo atrapalham outras pesquisas sendo feitas, pois fica cada vez mais difícil uma pessoa diferenciar as suas marcações das de outras pessoas. Por outro lado, plaquinhas penduradas com arame em árvores podem lhe causar danos, à medida que a árvore cresce e o arame continua do mesmo tamanho.  Claro que é um impacto infinitamente menor do que, bom, essencialmente qualquer outro impacto que a humanidade provoca. Mas ainda acredito que nós, profissional da Ecologia e da Conservação, devemos também nos preocupar com isso – inclusive pela impressão que isso pode causar nas pessoas.

Aonde eu quero chegar com tudo isso? Bom, acho que se resume no seguinte:

  • Divulgação científica e retorno à sociedade* – inclusive às comunidades onde nossas pesquisas são feitas;
  • Avaliar com muito cuidado os potenciais impactos das pesquisas, se o método é o melhor e se os fins compensam os meios**;
  • Placas informativas, explicando o que é a pesquisa e com o contato da pessoa responsável, são uma boa ideia;
  • Se planejar, em termos de tempo e dinheiro, para, ao terminar de coletar os dados, retirar as marcações e equipamentos do campo. É claro que intrusões demoníacas podem surgir e te impedir de fazer isso. Mas uma coisa são intrusões demoníacas; outra coisa é falta de planejamento.

Aqui um exemplo legal de como fazê-lo :-)
** Aqui um exemplo de uma revista que achou que os fins não justificavam os meios. E aqui um outro texto sobre ética na pesquisa ecológica.

7 pensamentos sobre “O impacto de nossas pesquisas

  1. Pingback: O caso recente ocorrido na Ilha Grande e como parte da sociedade vê a ciência – Sobrevivendo na Ciência

  2. Ótimas reflexões, Pavito!!
    Semanas atrás a gente tentou organizar uma roda de conversa com o tema “Como o INPA está divulgando o conhecimento?”. Só 3 pessoas apareceram: isso responde bem a pergunta!

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    • Obrigado! :-)
      Pois é… Divulgar conhecimento costuma ficar muito como afterthought, do tipo “um dia eu faço”. Bom, eu não divulguei as minhas pesquisas, mas trabalhei com educação ambiental durante a graduação, mestrado e doutorado inteiros, que também conta!
      O grupo de Miltinho, na Unesp, está fazendo um trabalho legal divulgando pesquisas…

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  3. Ótimo post!
    Inclusive, tive uma experiência relacionada há pouco tempo. Uma pessoa de outra área me questionou a respeito do custo do meu projeto de doutorado com a seguinte frase: “Mas, tudo isso? Com esse dinheiro daria para salvar tantas vidas”. Assim, fiquei refletindo sobre o quanto nossa área é desconhecida ou vista como sem importância direta para o ser humano. Eu acredito que parte disso é devido uma falha nossa mesmo. Precisamos aprender a “vender” melhor a ecologia e a conservação. Ou, dialogar melhor com as outras pessoas numa “língua em comum”, ressaltando os ganhos de ambas as partes.

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    • Arigato gozaimassu! :-)
      Interessantes essas comparações sobre “quantas vidas dá pra salvar”… Primeiro porque, bom, qualquer investimento que a gente faz poderia ser usado para salvar vidas. Segundo porque é uma falsa dicotomia – não é porque dinheiro está sendo investido na sua pesquisa que vão faltar recursos pra salvar vidas. E finalmente, pesquisas ecológicas também salvam vidas! E não apenas vidas humanas!
      Acho que Stephen Heard disse que precisamos mudar a nossa mensagem. A mensagem que passamos, em biologia da conservação, é uma mensagem apocalíptica, e pessoas não querem ouvir isso – é desanimador, e acho que temos uma tendência natural a ignorar tais mensagens. Mas se passássemos uma mensagem de esperança… De que temos muitos problemas, sim, mas soluções existem, e as coisas podem melhorar, inclusive para pessoas, talvez nos dessem mais valor :-)

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