Desafios fora da Academia: trabalhando em Unidade de Conservação

Este é um post convidado, escrito pela minha amiga Karina Lopes Ramos, oceanóloga e ecóloga que atualmente trabalha numa Reserva Extrativista. Este é o primeiro (ou talvez segundo) post do que espero ser uma série longa sobre possibilidade de trabalho para pessoas da área ambiental, ecologia, biologia, oceanologia fora da Academia.

Meu nome é Karina, sou formada em Oceanologia (FURG), mestre em Oceanografia Biológica (FURG) e doutora em Ecologia e Conservação da Biodiversidade (UESC).

No doutorado (concluído em abril de 2018), o foco da minha pesquisa foi sobre conflitos entre leões-marinhos (Otaria flavescens) e os pescadores de emalhe do sul do Brasil.

No ano passado, quando recém tinha retornado a Ilhéus (depois de uns meses na minha cidade de origem, Rio Grande-RS), soube de uma seleção que estava tendo para trabalhar como bolsista de pesquisa em algumas Unidades de Conservação marinhas do Brasil (Projeto GEF Mar, um projeto do MMA financiado pelo Banco Mundial). Resolvi me candidatar, achando que não daria em nada. Escolhi me candidatar para trabalhar na Reserva Extrativista Marinha do Corumbau, um lugar que eu havia conhecido em 2006, através de um estágio feito na época da minha graduação, onde estagiei por um mês em um projeto do Tamar/CI-Brasil, na comunidade de Imbassuaba. O projeto na época era sobre a interação das tartarugas marinhas com a atividade pesqueira e foi um momento inesquecível na minha vida. Morei em uma comunidade pequena, sem luz elétrica, conheci pessoas incríveis e saí de lá com a impressão que ia demorar pra voltar, mas sabendo que um pedaço meu tinha ficado.

Como os acontecimentos da vida não ocorrem por acaso (pelo menos é o que parece pra mim às vezes), 11 anos depois voltei, pois fui selecionada para trabalhar no GEF Mar, mencionado logo no início do texto. Deu aquele friozinho na barriga de deixar Ilhéus, onde tudo já era conhecido, e no final do doutorado ainda, pra ir pra um lugar diferente. Lembro de ter recebido a ligação do meu atual chefe (gestor da RESEX Corumbau – ICMBio) me avisando que havia sido selecionada. Eu na hora pensei: “Ah, não vou não. Tenho meu doutorado ainda pra concluir, não vou conseguir conciliar as duas coisas”. Mas mudei de ideia no mesmo dia. Liguei para meus pais, para os meus amigos, pro ex-namorado, e perguntei: “E aí, será que vou?”. Todos, sem exceção, responderam: “Claro!”. Até meu orientador do doutorado me deu a maior força. Um mês depois, lá vou eu. Primeiro fui morar em Prado e agora estou morando em Cumuruxatiba.

Só pra situar um pouco, a RESEX Corumbau é uma UC marinha linda e abrange parte dos municípios de Prado e Porto Seguro.

No meu atual trabalho, coordeno a Câmara Temática de Pesquisa da RESEX Corumbau, formada por comunitári@s e membros de instituições parceiras, como UFSB, Coral Vivo, IBJ, CI, Humana Brasil… Esta Câmara aprecia e decide pela aprovação ou reprovação de propostas de pesquisa que chegam pra Unidade via ICMBio, entre outras coisas. Também trazemos pesquisadores para reuniões com as comunidades para tratar de assuntos importantes para as comunidades tradicionais daqui, como pesca, corais e áreas protegidas. Fizemos um evento chamado “Encontro Pescando Saberes na RESEX Corumbau”, na UFSB (Porto Seguro), para incentivar a integração entre o conhecimento tradicional e o conhecimento acadêmico.

Como parte do trabalho, também estamos planejando o monitoramento pesqueiro da Unidade, participamos das reuniões do Conselho Deliberativo, apoiamos a comunidade, projetos de educação ambiental, plano de recuperação de espécies ameaçadas, reuniões em outros Estados… Enfim, muita coisa! Nos envolvemos até com um pouquinho de burocracia! É muita coisa! Foi difícil em alguns momentos. Finalizar o doutorado aqui foi muito difícil e até hoje mal acredito que consegui. Cada reunião que acontece é um processo! Tem que viabilizar junto ao FUNBIO a logística da alimentação e do transporte, enfrentar estradas ruins, entre outras coisas. Mas está sendo uma experiência única!

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Reunião da CT Pesquisa, em Caraíva

Recomendo para qualquer pessoa ter experiências com trabalho em Unidades de Conservação, porque a gente vê o quanto é difícil fazer as coisas na prática. Aprendemos (ou tentamos) a lidar com nossas limitações e também aprendemos que somos capazes de fazer o que não achávamos que seríamos. De uma forma bem resumida, espero ter passado um pouco da minha experiência profissional no ICMBio, lidando diretamente com comunidades tradicionais, às quais agradeço pelo acolhimento. Um abraço a todos!

Karina L. Ramos

3 pensamentos sobre “Desafios fora da Academia: trabalhando em Unidade de Conservação

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