Desafios fora da Academia: trabalhando em ONG – Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ)

Este é um post convidado, escrito por Gabriela Rezende, bióloga, doutoranda em Ecologia e vinculada à ONG Instituto de Pesquisas Ecológicas – IPÊ. É o segundo no que espero que seja uma longa série sobre como é trabalhar fora da Academia e da Universidade.

Eu sou a Gabi Rezende, bióloga formada na UNESP de Botucatu, especialista em Manejo de Espécies Ameaçadas pela University of Kent/Durrell (UK) e em Gestão de Projetos pela FGV, mestre profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável pelo IPÊ e agora doutoranda em Zoologia pela UNESP e mãe da Sofia desde abril desse ano.

Quando o Pavel iniciou essa série de posts sobre os desafios fora da academia logo me “candidatei” a relatar minha experiência, por achar um tema super pertinente pra biólogos e ecólogos, que muitas vezes se formam sem ter muita ideia do que o mercado de trabalho tem para oferecer fora da academia. Assim foi comigo, e, por ter escolhido um caminho um pouco diferente do “emendar graduação com mestrado com doutorado”, vim aqui contar um pouco da minha trajetória e de como é trabalhar em uma ONG, o IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas).

Vamos a um pouco de história pra chegar em como fui parar no IPÊ… No meu último ano de graduação recebi um conselho desses que a gente só percebe depois o quanto foi determinante pras escolhas da vida. Estava no IPÊ, fazendo um curso de um mês em Biologia da Conservação, uma experiência que me tirou da bolha da universidade e abriu meus olhos para o mundo que eu queria trabalhar. Nessa época, o IPÊ havia recém começado a oferecer o Programa de Mestrado Profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável e durante o curso, numa conversa com Claudio Padua (fundador do IPÊ), decidi que era aquilo que queria pra minha vida naquele momento (ainda com aquela ideia fixa de que minha única opção ao me formar seria ir para o mestrado). Mas aí veio o tal conselho… Que por se tratar de um mestrado profissional, seria interessante ter experiências profissionais antes de ingressar. Ops, muda tudo… Não vai ter mestrado, por enquanto! Vamos “re-planejar” meus próximos passos: me formaria no mês seguinte e precisava trabalhar com conservação antes de pensar em fazer o mestrado.

Durante a graduação acumulei experiências (leia-se estágios) na área de biologia marinha e resolvi seguir nessa linha quando me formei. Consegui uma vaga temporária de Assistente de Pesquisa em uma ONG na Costa Rica, que conserva tartarugas marinhas. Logo em seguida fui parar no Projeto TAMAR, na Praia do Forte (e aqui vale um adendo que o que me levou para lá foram dois importantes fatores, que podem servir de conselho: o networking formado nos estágios durante a graduação e a fluência em outros idiomas, no caso inglês e espanhol). Depois de um tempo passando por essas experiências profissionais, senti que era hora de investir no mestrado do IPÊ e lá fui eu para Nazaré Paulista.

Para quem não sabe o que é o mestrado profissional, segue aqui a definição da CAPES: “é uma modalidade de Pós-Graduação stricto sensu voltada para a capacitação de profissionais, nas diversas áreas do conhecimento, mediante o estudo de técnicas, processos, ou temáticas que atendam a alguma demanda do mercado de trabalho”. Portanto, um mestrado profissional em Conservação da Biodiversidade busca soluções práticas para problemas de conservação. Se aquele curso de um mês havia aberto meus olhos para o mundo da conservação, o mestrado do IPÊ me jogou lá dentro desse mundo.

Sempre tive uma paixão por trabalhar com espécies ameaçadas e durante o mestrado acabei me envolvendo com o Programa de Conservação do Mico-leão-preto, projeto que deu origem ao IPÊ, tanto que acabei escolhendo esse projeto como tema do meu produto final (o nome que é dado para a “dissertação” no mestrado profissional). Mergulhei a fundo no resgate da história do projeto e escrevi um livro que pudesse ajudar qualquer pessoa a compreender como funcionam os projetos de conservação de espécies ameaçadas (disponível para compra na loja do IPÊ – link aqui). No fim do mestrado, já mergulhada de cabeça no Programa do Mico, fui convidada a integrar a equipe do IPÊ e tocar esse projeto tão emblemático pra organização. Mas o que significa integrar a equipe do IPÊ?

Bem, vamos lá. O IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas é uma ONG com sede em Nazaré Paulista (SP) e atuação em diversos locais pelo Brasil e em diversos biomas. Por ter uma gestão institucional horizontalizada, ser pesquisador do IPÊ e coordenador de projetos é ter autonomia para tocar seus próprios projetos, desde que estes estejam de acordo com a missão institucional, logicamente. É poder trabalhar pelo seu propósito, colocar conservação em prática. Parece perfeito, não é? Quer mais realização pessoal e profissional do que isso?

Mas é claro que não é tão simples assim, pois antes de mais nada precisamos encontrar quem banque os nossos sonhos! :-) Isso mesmo. Uma das principais atribuições de um coordenador de projetos no IPÊ é a captação de recursos para que seus projetos aconteçam. E num mundo em que os problemas ambientais só aumentam e os projetos de conservação se fazem cada vez mais necessários, a concorrência por esses recursos também é exponencialmente crescente.

Além disso, o IPÊ é um Instituto de Pesquisas, portanto, nossas ações de conservação procuram sempre estar embasadas por evidências científicas. Desenvolvemos pesquisas cujos resultados geram ações de conservação. Além disso, para garantir a sustentabilidade das ações, também buscamos sempre envolver as comunidades locais nos nossos trabalhos, e também o poder público, influenciando para que a conservação vire política pública local, regional ou nacional.

Na prática, isso tudo significa bastante trabalho com planejamento e elaboração de propostas para captação de recursos, trabalho de campo, gestão de equipe, gestão financeira do projeto, produção de relatórios para os financiadores, participação em reuniões com os diversos parceiros, atores locais e poder público, comunicação dos resultados através de palestras, entrevistas, publicações científicas, produção de textos para divulgação na mídia, entre outras coisas…

Dez anos se passaram desde que me formei e agora, depois dessa experiência toda, ingressei no doutorado na UNESP Rio Claro. Meu projeto é com ecologia de movimento do mico-leão-preto e, não podendo ser diferente, a ideia é que gere resultados aplicáveis à conservação da espécie, mais especificamente ao manejo do seu habitat, a Mata Atlântica de São Paulo. E olhando pra trás me sinto na obrigação de replicar aquele conselho que me foi dado no meu último mês de graduação: procure experiências profissionais fora da academia, pois elas podem te abrir para um mundo de possibilidades que, ainda assim, te permitam ser um pesquisador, se essa for sua vontade!

Pra terminar, gostaria de deixar a frase que usei na epígrafe do meu livro: “Encontre um trabalho de que gostes e não terás que trabalhar um dia sequer na vida” (Confúcio).

6 pensamentos sobre “Desafios fora da Academia: trabalhando em ONG – Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ)

  1. Muito bom Gabi! Eu penso que o maior ganho da sua escolha foi achar um boa pergunta. E boas perguntas, estão por aí, no mundo, na prática, na convivência dentro das instituições que praticam a ecologia pra conservação ou nas empresas pra gestão ambiental ou no ministério público para os acordos em prol de evitar danos ou minimizar os impactos ambientais. Me angustia ver a apresentação de vários jovens pesquisadores nas universidades que não conseguem fazer a ligação da pesquisa deles com a aplicação ecológica. E esta deficiência, eu penso, é o aleijão que existe nas universidades, especialmente as públicas: Extensão! Infelizmente, a extensão é pouco, ou nada valorizada na acedemia, quando é o braço, a perna do tripé (ensino, pesquisa e exrtensão) que deveria ofertar as boas perguntas para orientar as boas pesquisas cietíficas pretendendo resolver os problemas da conservação. Neste esteio, Gabi, super obrigada por dizer, nas entrelinhas, que a extensão, o trabalho. a experiência prática, é um bom caminho!

    Curtir

  2. Pingback: Descubra o seu próprio caminho! – Sobrevivendo na Ciência

  3. Excelente esta série de posts no teu blog, Pavel! O mais engraçado é termos entrado na mesma vibe em paralelo, rsrsrs. Precisamos melhorar o aconselhamento de carreira na Bio, especialmente para os graduandos, que ainda têm mais facilidade para mudar de rumo, se for o caso.

    Curtir

    • Valeu, Marco!
      Então, eu já pensava nisso faz um tempinho… Aí finalmente resolvi colocar em prática, e fiquei surpreso de tanta gente se interessar e escrever, eu não esperava!
      Acho que cursos de biologia e áreas relacionadas precisam sair um pouco da ênfase puramente acadêmica e mostrar outros caminhos – e fornecer treinamento para outros caminhos! O complicado é que docentes são da área acadêmica; mas isso é uma dificuldade, não um impedimento.
      Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

      • Exato! Por isso precisamos contratar também docentes não-acadêmicos, como é costume na Medicina e na Economia. Senão nossos cursos continuarão capacitando os biólogos apenas para trabalhar como professores de escola ou universidade.

        Curtir

  4. Pingback: O que o Seu Miyagi tem a nos ensinar sobre habilidades transferíveis? – Sobrevivendo na Ciência

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s