Uma vida não-acadêmica dentro da Academia: técnica no INPA

Mais um post convidado! Renata Vilar, bióloga e mestra em Ecologia, conta da sua experiência trabalhando como técnica no INPA, em Manaus. Bem interessante o relato dela; e interessante inclusive para pensarmos como, ao lermos – ou até publicarmos – um artigo científico, muitas vezes nem pensamos no trabalho das pessoas que viabilizaram a coleta dos dados e, assim, a realização da pesquisa.

Em primeiro lugar, muito obrigada, Pavito, pelo espaço e pela iniciativa de discutir sobre esse tema!

Eu sou a Renata, moro em Manaus e estou trabalhando como bolsista de um projeto dentro do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas), onde minha função, atualmente, é ajudar na parte de organização dos campos para coleta de dados. E eu também participo de coletivo independente (Coletivo Caxxyri) no bairro em que moro (próximo ao INPA e à UFAM – Universidade Federal do Amazonas), onde atuamos/queremos atuar com agricultura urbana, economia solidária e educação popular.

Para esse texto fazer mais sentido, acho válido contar um pouquinho da minha trajetória até aqui. Então vamos lá: fiz Biologia na UNESP/Jaboticabal e depois fui pra São Carlos, onde fiz o mestrado, no PPG Ecologia e Recursos Naturais – defendi em fevereiro de 2015. Durante o mestrado, participei de projetos fora da universidade: Escola da Floresta (Educação Ambiental) e Plantando águas (da ONG Iniciativa Verde, financiado pelo Petrobras Ambiental). Depois da minha defesa, eu continuei trabalhando nesses dois projetos até setembro, e em outubro eu vim pra Manaus. Nesse meio tempo eu enviei currículo para muitas vagas: foi uma fase um pouco difícil, porque eu decidi não fazer o doutorado e me vi completamente perdida porque eu pensei por muito tempo que seguiria a carreira acadêmica e fiquei meio sem rumo quando vi que não era bem isso que eu realmente queria.

Olhando pra trás, vejo que o meu gosto pela vida fora da Academia começou lá na graduação, quando eu gostava mais participar dos projetos de extensão/semana da biologia/centro acadêmico do que fazer um projeto de iniciação científica. Apesar disso eu quis fazer o mestrado logo que saí da graduação. Pensava eu: “a Biologia é muito ampla e eu quero me aventurar mais na área da ecologia.” E foi muito válido e importante pra mim: aprendi muitas coisas, conheci muita gente supimpa, e, também, tive mais uma prova de que eu não sou muito da vibe acadêmica.

Mas, mesmo assim, eu busquei algumas oportunidades de fazer doutorado, afinal, era uma forma de conseguir garantir uma bolsa por um tempo bom (que erro pensar assim!), aí, quando eu tava me preparando pra escrever um projeto, fui chamada pra uma bolsa aqui em Manaus e acabei vindo quase que imediatamente.

Mas e aí? Como é trabalhar no INPA?

Na verdade, vou falar pensando no trabalho que eu faço, que não é muito acadêmico, afinal eu fico mais com a mão na massa: organizar campo, ir pra campo e preencher planilhas.

Bom… estar dentro da Floresta Amazônica é uma experiência sensacional: observar as árvores, as folhas e os detalhes, conviver e aprender com os mateiros, ficar 10 dias direto no meio do mato, dormir na rede, ver pegadas de onça, ver insetos esquisitos.. Para mim, tudo isso foi uma experiência maravilhosa. É claro que, como quase tudo na vida, o excesso acaba sendo prejudicial, e depois de ficar num ritmo intenso de campo por 2 anos, fiquei meio saturada e agora eu estou mais responsável por coisas que podem ser feitas na cidade.

E essa é uma parte interessante também: às vezes a gente não pensa muito na quantidade de “coisinhas” que temos que correr atrás para a excursão de uma equipe pro campo: transporte (carro disponível, motorista, almoço do motorista, diesel para abastecer o carro), alimentação (perecíveis, não-perecíveis, gelo para guardar alimentos refrigerados), material de campo (planilha, mapa, luvas, combustível para o gerador de energia), autorização (seguro de vida, termo de responsabilidade, licença de coleta), ajudante de campo (diária, recibo, treinamento, instruções), segurança (telefone de satélite, caixa de medicamentos, GPS). São muitos detalhes importantes que não devem ser esquecidos quando o campo é longe e não tem sinal de telefone.

Enfim.. fazer pesquisa dá muito trabalho, né? E esse deve ser um dos motivos/argumentos para o INPA não ter muita abertura para projetos de extensão, por exemplo. Eu vejo que não existe uma comunicação tão grande com a cidade e Manaus (diga-se de passagem: eu chuto que mais de 80% do INPA é gente que vem de outros estados e de outros países). Por refletir sobre isso, eu escolhi fazer parte do coletivo que eu comentei: o Caxxyri, é um grupo novo que se uniu há pouco mais de um ano, com o desejo de derrubar os muros (no sentido figurado) que existem entre a instituições (UFAM/INPA) e a comunidade, em busca uma aproximação com as pessoas, com a história de ocupação da cidade, com os problemas do bairro (falta de arborização, lixeiras viciadas) e com muita coisa boa que o bairro tem a oferecer. Participar voluntariamente desse coletivo é o trabalho mais “fora da academia” que eu me vi participando até hoje e acho importante compartilhar que isso faz com que eu me sinta melhor e também um pouco menos incoerente.

Por fim, é bom refletirmos sobre o que nos faz bem: às vezes a gente cai no automático e vai seguindo um caminho que nem é o que a gente gosta de verdade!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s