Vida acadêmica: a minha história

Depois de uma série linda e sensacional de posts sobre vida fora ou meio-fora-meio-dentro da Academia – sério, se não leram esses posts ainda, leiam; são os últimos antes deste -, me pareceu uma boa ideia escrever sobre a vida dentro da academia. E como toda experiência é uma experiência pessoal, vou aqui contar a minha. Acho que a minha trajetória na Universidade pode ser considerada como uma trajetória de sucesso; e acho que ela é um pouco diferente daquilo que costumam indicar para uma trajetória de sucesso em alguns aspectos – mas também um tanto similar em tantos outros.

E bom, quem nunca quis escrever uma auto-biografia, né? 🙂

Resumindo: minha vida foi uma grande emenda, emendando ensino médio – graduação – mestrado – doutorado (com uma especialização no meio) – pós-doc – professor adjunto. Emendar pós-doc no doutorado não era o único plano – eu tinha pensado em ficar um tempo de boa, traduzindo artigos – mas aconteceu. E emendar pós-doc com vida de professor foi inesperado, mas foi, digamos, bem dahorinha, mesmo. 🙂 (Sim, eu uso o termo dahorinha no sentido de Uhuuuuuul que sensacional meu woooooow, rs)

(Aviso: texto longo à frente; não tive tempo de torná-lo mais curto e nem de revisar a ortografia.)

A verdade é que eu sempre quis ser cientista; quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, a dúvida era entre as áreas acadêmicas, mas ser cientista sempre foi meu objetivo (sim, mesmo quando eu adolescente almejava ser um vocalista famoso). E antes de entrar na faculdade, minha vida sempre era fundamentada em estudar: sendo imigrante, além de ir pra escola aqui, eu também resolvia provas que a escolada embaixada russa em Brasília me enviava – era como ir para duas escolas ao mesmo tempo. Além de cursos de inglês e atividades extra, musicais e esportivas. O resultado? Fiquei bom em estudar, em aprender coisas. E em escrever também – sempre gostei de escrever, e gostar de escrever ajuda bastante na vida acadêmica.

Não precisa apenas escrever textos científicos. Prestando concursos, percebi que eu ia bem na prova escrita mesmo sem ter feito rascunhos antes – e escrever neste blog, ou escrever histórias e poesias, é algo que me ajudou, e muito, nisso.

E ler. Gostar de ler é bom, mesmo que não seja sempre literatura científica. E não pode ser sempre literatura científica. Uma época na minha graduação eu decidi focar inteiramente no estudo, e o livro que eu estava sempre lendo era o Barnes. Sim, aquele, de invertebrados. Resultado? Desânimo profundo. Solução? Passar um tempo lendo Dragonlance. Tchau desânimo! 🙂

Porque a leitura te ajuda a escrever melhor – não é suficiente, mas é uma ajuda. E leitura te ajuda a encontrar um estilo ao encontrar um escritor ou escritora em quem você se inspire e de cujo estilo você queira, talvez, se aproximar. A minha inspiração é Neil Gaiman.

Pois bem, voltando à trajetória – entrei na graduação em 2005 (Bio 05 UFSCar, uhuuul!); logo no fim do primeiro semestre pedi meu primeiro estágio, adivinhem em que área? Isso, química orgânica! (Agora sim fomos surpreendidos novamente, rs). Mas a professora falou que seria melhor eu fazer bioquímica II antes; e pouco depois decidi que quero trabalhar mesmo com ecologia. Fiz uma disciplina bem legal, chamada Ecologia e Conservação de Fragmentos Florestais, e comecei estágio no mesmo semestre – segundo semestre da minha graduação.

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Bio 05

Dizem que é legal mudar de orientação e se possível de universidade entre a graduação e o mestrado e entre o mestrado e doutorado. Eu fiquei no mesmo lab, com a mesma orientação (só teve uma mudança de departamento, rs), desde o segundo semestre da minha graduação até o final do doutorado. E foi bom! Pra mim foi bom.

Foi bom porque ficar na UFSCar me permitiu ter um envolvimento de longo prazo com o lugar e com grupos nele. Fui monitor do grupo Trilha da Natureza durante toda minha graduação, meu mestrado e meu doutorado – e acho que o meu estilo de guiar visitar só ficou legal mesmo depois de uns seis anos de experiência. Coletei dados no cerrado da UFSCar na minha iniciação, mestrado e doutorado; fiz parte de um coletivo que lutava por esta área; participei por alguns anos do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Ambiental – GEPEA. Isso não teria sido possível se eu mudasse de universidade, como eu havia planejado inicialmente.

Pois meu plano era ir pra UnB no mestrado e pra Esalq no doutorado. Desisti do primeiro porque queria estudar efeitos de borda no cerrado, e Dalva – minha orientadora de IC – seria uma ótima pessoa para isso; desisti do segundo porque surgiu a oportunidade de ser coorientado por uma das maiores especialistas do mundo em efeitos de borda, e isso era bem mais fácil eu permanecendo na UFSCar.

Se eu tivesse ido para outro lugar, teria tido outras experiências – mas não  teria tido um envolvimento tão longo e profundo com estes grupos que mencionei acima. Eu acho que ter um envolvimento profundo foi bem legal.

Bom bem, continuando (ou voltando) – na graduação fiz iniciação científica e fiz parte do PET. Assim, tive bolsa desde o meu segundo ano. Fiz um estudo de ecologia populacional de uma espécie do cerrado, aí recebi bolsa FAPESP e repeti o estudo fazendo mais medidas. Foram uns 5000 caules medidos. Meu joelho ainda dói às vezes.

Inicialmente eu ia fazer um simples estudo de estrutura populacional; assim que marcamos as parcelas, pegou fogo no cerrado.

O que fiz? Estudei os efeitos do fogo, obviamente! 🙂

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Cerrado em chamas

E a minha iniciação, em colaborações com outras pessoas, rendeu três artigos publicados, e irei escrever mais um.

Aí, terminada a iniciação, entrei no mestrado, no PPGERN-UFSCar, com bolsa FAPESP. Estudei efeitos de borda no cerrado, amostrando oito fragmentos espalhados por SP (sim, existe cerrado em SP, viu gente?), em unidades de conservação ou outras áreas protegidas. Foi muito legal, fazer os campos e viajar pelo estado e medir alturas e triar serapilheira… A parte sobre serapilheira está riscada porque triar serapilheira não é legal, e porque só consegui fazer isso no doutorado. rs

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Triando serapilheira

E terminado o mestrado, continuei no PPGERN-UFSCar, trabalhando com efeitos de borda e padrão espacial. O objetivo da pesquisa era usar análise de padrão espacial para avaliar influência de borda, e nisso falhei miseravalmente no fim percebi que isso não dava muito certo; mas o objetivo maior era me tornar doutor em Ecologia, aprender a fazer ciência – e acho que consegui.

Outra coisa legal de passar anos no mesmo lab é que eu não fui o único a fazer isso – e nosso grupo de pesquisa era realmente muito, muito, muito legal. Saudades ❤

Fui coorientado pela Karen Harper, e fiz doutorado-sanduíche no Canadá. Nisso percebi que o ensino no Brasil não é tão inferior ao ensino “lá fora” quanto dizem; vi que eu conseguia falar de estatística e de ecologia de igual pra igual com discentes e docentes de lá, e inclusive co-orientei uma IC. Essa coorientação surgiu do trabalho de campo que fizemos, na tundra canadense, onde ela me ajudou nas minhas coletas e coletou seus próprios dados – e o resultado foi recentemente aceito pra publicação 🙂

Durante meu doutorado, também coorientei extra-oficialmente duas graduandas na UFSCar, durante dois ou três anos. Foi uma experiência muito boa (ao menos pra mim, rs) – pois orientar ou coorientar não é simplesmente dar apoio técnico ao projeto. É buscar entender o que a pessoa precisa e como é possível ajudá-la neste processo. E isso não é fácil não.

Durante meu doutorado também fiz umas pesquisas paralelas; e também fiz uma especialização Educação Ambiental pela USP (foi meu primeiro contato com pesquisa qualititativa e entrevistas, e depois dele decidi ficar na ecologia e estatística, tão mais fácil!); e continuei guiando visitas no cerrado; e comecei este blog; e traduzi artigos científicos como freelancer; e traduzi o manual do Past; e dei vários cursos; e sim, escrevi a tese!

Por isso que eu digo que eu fiz muita coisa durante meu doutorado, inclusive escrever a tese. rs

E isso sempre escrevendo, submetendo e publicando artigos – primeiro em revistas menores e nacionais, depois mesclando as nacionais e as de outros países. Meu primeiro artigo foi publicado em 2011, durante segundo ano do meu mestrado, no Brazilian Journal of Biology; meu primeiro artigo numa revista de fora foi o do mestrado, publicado em 2013 na Plant Ecology; e assim, desde 2011 até agora, venho publicando ao menos um artigo por ano.

Ou seja, fazer coisas além da pesquisa não te torna automaticamente uma pessoa improdutiva cientificamente.

Outra coisa muito importante que fiz no doutorado foi me infiltrar no laboratório do Miltinho, o LEEC, na Unesp de Rio Claro. Inicialmente era pra participar do grupo de estudos e leitura de artigos – participar de um grupo assim era algo de que eu sentia muita falta. E eu trabalhava com efeitos de borda e ecologia espacial, e o LEEC é sobre ecologia de paisagens e ecologia espacial, então era uma escolha meio óbvia – e obrigado Renadica por me levar lá! [tá, acho que fomos no meu carro, mas isso são detalhes, rs] Aí comecei a frequentar o laboratório e trabalhar lá de vez em quando, aí Miltinho perguntou “PD, quer dar uma aula sobre efeitos de borda na graduação?”, aí Miltinho perguntou “PD, quer dar uma aula sobre efeitos de borda na pós-graduação”, e é claro que falei sim… rs E também dei umas aulas e cursos sobre o PAST na UFSCar e eventualmente na Unesp… E uns outros cursos por aí… Foi um treinamento muito bom da minha parte didática!

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LEEC Batalha Campal. rs

Pós-graduação não é só pesquisar. É ensinar também. E se você acha que não tem nada pra ensinar, ou não tem oportunidades – você provavelmente se engana. Se você acha que não tem tempo, você provavelmente tem razão, mas eu acho que eu também não tinha.

Bom, aí em 2015 defendi o doutorado, e aí fui selecionado pra ser pós-doc PNPD, e aí saí da UFSCar e vim pra Bahia! Uhul! Meu objetivo sempre foi trabalhar no Nordeste depois de defender o doutorado, então foi, bom, eu diria que foi um golpe de sorte, e foi sensacional, e eu acho que fiz um bom serviço na UESC. Na UESC eu coorientei uma mestranda, e atualmente cooriento três mestrandas, um mestrando e duas doutorandas, inclusive em um projeto bem legal sobre efeitos de borda em áreas queimadas (ou vocês acharam que eu iria parar de estudar efeitos de borda? Háh!). E também dei uns par de disciplinas (bom, acho que foram tipo três pares de disciplinas, algumas das quais ministradas um ou dois pares de vezes), e ajudei várias pessoas com estatística.

Mas o pós-doc merece um post à parte, portanto tenham paciência. 🙂

E entre o fim do doutorado e agora eu me inscrevi em vários concursos… Pra UFS, UFRJ, UFRRJ, UFRR, UFRN, UEFS, UESC e UFBA. Nos dois primeiros me inscrevi antes de terminar o doutorado, e não prestei porque o pós-doc estava bem divertido. Da UFRRJ desisti por não ter conseguido me organizar; da UFRR porque a passagem tava tipo 4 mil medos; da UFRN porque não consegui estudar; e da UESC porque coincidiu com o da UFBA. De modo que prestei o da UEFS, sem me preparar direito (fiquei em sexto), e o da UFBA. Foram alguns meses pensando quase o tempo todo no concurso da UFBA – eu apostei todas as fichas nele, e foi para ele que estudei e me preparei direito. E é da UFBA que agora escrevo, então deu certo. Bem dahorinha mesmo! rs

Pra finalizar… Algo importante na minha trajetória foi que eu nunca foquei apenas em fazer a minha pesquisa. Sempre trabalhei com ensino, e sempre trabalhei com extensão (menos no pós-doc). Então você não precisa necessariamente deixar de fazer outras coisas para se dar bem na Academia; inclusive experiência didática conta.

E experiência didática conta não só para conseguir uma posição, mas para dar boas aulas. Dar uma disciplina é diferente de dar uma aula, que é diferente de ministrar uma palestra. Eu busquei aproveitar todas as oportunidades de fazer essas coisas, e sugiro que façam o mesmo, se possível for.

E sim, eu fui privilegiado, não tendo que me preocupar com finanças durante a graduação e pós-graduação e uma família totalmente preocupada com meus estudos. E ser privilegiado ou privilegiado não é um problema – problema é não aproveitar isso para ao menos tentar deixar o mundo melhor; isso é algo em que eu pensava ao guiar visitas, e em que penso ainda.

E é isso aí. Para finalizar, gostaria de dizer que, quando o mundo parecer em trevas e a esperança estiver decaindo, lembre-se das palavras de Stratovarius e se segure no seu sonho. 🙂

 

15 pensamentos sobre “Vida acadêmica: a minha história

  1. Muito maneiro o teu relato, cara! Existem múltiplas maneiras de fazer a coisa dar certo (e mais ainda de fazer a coisa dar errado, rs) e cada um deve encontrar o próprio caminho. No fundo, essa parada que tu escreveu aqui é um memorial! Já pode guardar para usar quando for progredir para professor associado! 😊

  2. Pingback: Como escrever um memorial – Sobrevivendo na Ciência

  3. Caí no blog procurando por coisas de estatística pro artigo do mestrado e adorei esse post! Sempre bom ver histórias de sucesso na vida acadêmica no Brasil pra dar aquele gás. Obrigada e sucesso!

  4. Adorei o post, Pavo!
    Você se dedicou muito pra chegar até aí, foram conquistas merecidíssimas!
    É um exemplo de pesquisador, agora com desafios e responsabilidades maiores, mas tenho certeza que você dá conta. 😉

  5. Cara, fazia tempo que não entrava aqui. Que bom que entrei hoje, acho que de alguma maneira esses relatos me ajudarão a tomar umas decisões amanhã. Seria tão impactante se a maioria dos ambientes acadêmico fossem tão motivadores como esse blog.

  6. Pingback: Organizando seu tempo para aumentar sua produtividade – Mais Um Blog de Ecologia e Estatística

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