Sobre ser cientista e mãe

Este é um post convidado, escrito por Eliana Cazetta, professora na UESC. Eliana foi minha supervisora de pós-doutorado e uma pessoa muito importante para a minha formação de cientista. Aqui ela escreve um pouco sobre como é ser cientista e mãe; ano passado teve um outro post bem legal sobre este assunto, recomendo que leiam também!

Recebi esse convite super especial do Pavel para falar sobre ser cientista e mãe. Inicialmente pensei em escrever algo para motivar as pesquisadoras e sobre como a maternidade me fez uma cientista melhor. Como aprendi a otimizar o tempo de trabalho o máximo possível e, sem tempo pra procrastinação, acabei de certa forma me tornando mais produtiva.

Porém, gostaria de aproveitar essa oportunidade para falar sobre alguns assuntos que apenas recentemente começaram ganhar destaque. Também queria enfatizar como mudei de opinião ao longo do tempo sobre eles.

Eu sempre achei que não havia diferenças de gênero na academia no Brasil. Eu mesma vivia dizendo que nós mulheres temos os mesmos salários e concorremos (e aprovamos) os mesmos financiamentos. Porém, na prática as diferenças existem sim e um olhar mais atento sobre o tema me fez mudar de opinião rapidamente. Por exemplo, um estudo recente (Valentova et al. 2017) mostrou que as mulheres em geral estão representadas nos menores níveis de bolsa de produtividade do CNPq (PQ2) enquanto os homens nos maiores níveis (PQ 1A/1B). As mulheres também, em geral, aprovam as menores faixas de financiamento do Universal CNPq, enquanto os homens aprovam os maiores. Entre as possíveis explicações para isso está o fato do CNPq não considerar os períodos de licença maternidade nas suas avaliações.

Assim, um projeto recente, “Parent in Science”, mostrou como resultado preliminar o impacto negativo da maternidade na carreira de 81% das entrevistadas (foram ouvidas 1.182 pesquisadoras – 921 mães). A produtividade das mães reduz significativamente após o nascimento dos filhos quando comparado com as cientistas que não têm filhos. Diante disso, as pesquisadoras do “Parent in Science” iniciaram a campanha “Maternidade no Lattes”, que incentiva a inclusão do período de licença maternidade no currículo. Mais do que isso, o grupo entregou ao CNPq pedido oficial para que esta inclusão seja feita e usada nas avaliações.

Obviamente as iniciativas no Brasil ainda são muito tímidas e é necessário um longo caminho pela frente para que as recém mães possam continuar de forma competitiva com suas pesquisas. Discutir políticas públicas nesse sentido é fundamental.

Mas voltando para minha relação pessoal ciência e maternidade. Ser cientista é sem dúvida o melhor trabalho que eu poderia ter e vejo como um privilegio poder fazer o que gosto. Hoje vejo que, sim, a maternidade teve um impacto na minha carreira. Mas a vida é mais do que isso e como o Pavel já disse aqui, viver não cabe no lattes. Ter filhos é sem dúvida uma das experiências mais incríveis que eu poderia ter. Como me lembrou recentemente um grande amigo, o importante é nos divertirmos durante o caminho, e não tenho dúvidas que o meu é muito mais divertido com filhos.

Referência
Valentova JV, Otta E, Silva ML, McElligott AG. (2017) Underrepresentation of women in the senior levels of Brazilian science. PeerJ 5:e4000 https://doi.org/10.7717/peerj.4000

Um pensamento sobre “Sobre ser cientista e mãe

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