Vaidade científica

Este é um post convidado, escrito pelo graduando Gabriel Miranda. Ano passado pedi, para meus alunos e minhas alunas de estatística para biologia, pra escrever algum comentário referente aos textos (traduzidos) sobre statistical machismo, ou machismo estatístico – melhor traduzir provavelmente como machãonismo estatístico. E alguns dos comentários ficaram bem legais! Então convitei algumas pessoas a transformarem seus textos em posts pro anotherecoblog. Éis aqui o primeiro deles. Boa leitura procês!

Os textos sugeridos trazem algumas reflexões sobre Machismo Estatístico, ou Vaidade Científica, ou Orgulho Cientista, ou como mais quisermos chamar este “fenômeno”. Trata-se de uma inflexibilidade psicológica, que pode ser oriunda de diversas outras coisas, como imaturidade emocional, falta de amplo conhecimento em determinado assunto, preguiça intelectual, entre outros problemas pessoais, e que resulta muitas vezes em perda de tempo, dinheiro, e principalmente perda da motivação, dependendo, é claro, de quem recebe as consequências disso. Nesta resenha, irei comentar o texto enviado pelo professor Pavel Dodonov, e também irei mostrar a relação deste tema ao que vivencio como aluno de 7º semestre no curso de Licenciatura em Biologia pela Universidade Federal da Bahia, e como também recebo as consequências desta postura.

De início, o primeiro texto de Brian McGill conceitua o que seria o Machismo Estatístico: uma postura orgulhosa, vaidosa e inflexível que pode mudar sua forma de se manifestar, apenas pelo bel prazer de poder dizer: Não. Seja um “não, aplique o método tal para ter certeza”, ou “não, o método tal que se utiliza nesse caso”, ou seja lá o motivo do “não”, é um não. Essa postura é muitas vezes utilizada por revisores de revistas conceituadas por vários motivos, que podem ser: Manter seu status de “revisor(a) rigoroso”; desconsiderar todo e qualquer estudo que não utilize a técnica X, que é “sempre a melhor”; uma possível vingança ao passado, já que o revisor teve que utilizar uma técnica trabalhosa por anos em sua carreira, e agora um método mais simples e direto não pode o substituir; manter a estratégia de sempre utilizar cálculos complexos em trabalhos de ecologia ou estatística para manter restrito o acesso a essas informações, e também para a manutenção da sua vaidade, entre outros motivos que possibilitem os revisores dizerem que são um “boss” e o “não” deles pode resultar em Wipe de todo o nosso trabalho. Após ter mencionado e definido as possíveis causas e como esse machismo estatístico pode ser utilizado de diversas formas e seguindo métodos estatísticos diferentes, o autor começa a nos alertar para as consequências de tudo isso.

Dentre as consequências do machismo estatístico, as que mais se destacam são a perda de tempo e dinheiro por parte de quem sofreu este assédio, perda de motivação e o pior, a doutrinação para conservar este dogma. Quando um estudo científico ecológico ou estatístico é rejeitado (o revisor acha que precisa aplicar o método tal, pois tem q se aplicar esse método em alguma das etapas!), mesmo que esteja evidente que isso não irá alterar os resultados do estudo, já se inicia um desgaste psicológico e/ou monetário ao autor do estudo. Mesmo que não tenhamos que gastar nada mais para utilizar aquele método que o revisor pediu, o tempo já não pode ser recuperado, e também pode ser que o autor até comece a desacreditar daquele estudo, enquanto outro especialista estava precisando daquelas informações para poder seguir em outro estudo em andamento, e por aí vai. É um efeito em cascata, que tende a atrapalhar, frustrar, provocar gastos desnecessários, e perpetuar o clima de rivalidade hierárquica no meio científico. Além de tudo isso, podemos ter a formação de novos Machistas Estatísticos, pois sofreram este abuso durante a sua formação e acham que todos também precisam passar pelo mesmo. Perpetuando o uso de cálculos complexos e repetitivos quando são desnecessários, também para poder inflar o seu ego e dizer: “Eu utilizo a estatística complexa. Eu sei aplicar estes métodos. Eu, EU, EU!”.

O segundo texto, do mesmo autor, mostra algumas das consequências da criação do termo e argumentos dos machistas estatísticos. Claro que aqueles que utilizam e se vangloriam de utilizar estudos seguindo cálculos complexos, e que acham que toda esta ideologia vaidosa e inflexível precisa continuar, iriam se incomodar com o termo. E a resposta foi algo que corrobora com o que foi dito no primeiro texto, a de que o termo muitas vezes se refere a aqueles que não “entendem” a aplicação dos cálculos complexos. Ou seja, para estes machistas estatísticos, aqueles que observaram e se incomodam com as consequências desta postura, e também sabem que os diferentes métodos existem para serem utilizados juntamente com diferentes tipos de estudo, estão apenas reclamando do quão trabalhoso é utilizar cálculos complexos. Resumidamente, eles acham que é um mero “mimimi” de quem tem preguiça de utilizar os métodos mais hardcore, por mais que muitas vezes não seja necessário utilizá-los. Depois de ler esses dois textos, o que mais me deixou impressionado foi saber que a imaturidade (social, ética e intelectual) dos estudantes de graduação, perpetua mesmo após a formação. Ou seja, a minha hipótese alternativa é de que esta postura vaidosa-científica não se origina nos profissionais de estatística, ecologia e até filogenia como visto nos textos, mas o seu Spawn está lá no início…durante os primeiros semestres de graduação.

Desde os primeiros semestres, os graduandos já demonstram a sua vaidade. Só o fato de estar em uma Universidade renomada e de grande malha seletiva intelectual-tecnicista (hoje nem tanto), já nos proporciona um olhar mais vaidoso de nós mesmos. A medida que os meses vão passando dentro desta “bolha” de intelectuais, começamos a enxergar todos aqueles que não possuem este conhecimento como apenas “meros mortais”, e nós como semideuses. Claro que a maioria desses estudantes são jovens de 18 a 20 anos, que nunca possuíram qualquer vínculo empregatício, e nem possuem qualquer outra responsabilidade que não seja conseguir a sua graduação para poder construir o seu império particular no futuro. Mas, por agora estar recebendo toda esta carga de conhecimento (inovadores, inspiradores, mas que muitas vezes não são vistos como tal), estes jovens começam a achar que estão muito distantes do público comum, e que fazem parte de uma parcela privilegiada (intelectualmente) da sociedade.

Mesmo com todos os ideais sociais de igualdade, liberdade e fraternidade, que esta “bolha” na universidade nos proporciona, ainda temos o ego inflado (ainda mais!), pois somos Cientistas, ou seja, somos realmente DemiGods. Entretanto, toda essa máscara sobre nós mesmos cai, diante de qualquer trabalho coletivo que fazemos durante a universidade, ou na hora de realizar uma crítica ou elogio a um professor. Em um simples seminário que precisamos fazer, os nossos próprios colegas negligenciam, fazem de qualquer maneira, sobrecarregam alguém que está disposto a fazer alguma coisa, e muitas vezes vão “lá na frente” apresentar no final de tudo para conseguir a sua aprovação na disciplina em questão. Muitos destes colegas são alunos de Licenciatura, e sabem muito bem que o professor (a) percebe toda esta situação, e alguns até já estiveram no lugar do professor, mas preferem acreditar que somos tão DemiGods, que podemos enganá-lo(a). Mais uma vez, essa mascara cai quando estes estudantes precisam avaliar os docentes ao final do semestre no Sistema de Avaliação Docente, e atribui nota máxima para aquela matéria (docente) que ele precisou passar sem estudar, e nota mínima para aquelas que ele teve certo grau de dificuldade. Por mais que o(a) professor(a) seja cuidadoso, atencioso, e flexível, a maioria dos estudantes querem apenas o seu diploma, e farmar títulos (mesmo que não tenha lá todo esse conhecimento…) apenas para manter seu ego, e poder ampliar o seu poder financeiro. Enquanto que ideais básicas de união, gratidão, e respeito, até com nossos próprios colegas, são deixados de lado.

Claro que esta foi apenas a minha vivência nesta universidade, e também algumas informações coletadas com alguns colegas que compartilham do mesmo sentimento, e que muitas variáveis de confusão podem estar envolvidas. Acho que, de certa forma, esta postura vaidosa-científica se inicia logo após a matrícula no primeiro semestre de graduação, construindo desde cedo os machistas estatísticos, e vai feedando até o pós-doutorado, e se multiplica na orientação dos “novos machistas”, numa espécie de vingança ao passado pelos “Bosses” Machistas. Seria interessante uma disciplina no início do curso que abordasse a postura dos estudantes em relação a universidade, seus professores, seus colegas e a sociedade, numa maneira de tentar contornar o surgimento de toda essa vaidade acadêmica, antes que ela atinja um nível irreversível.

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