Sobre disciplinas condensadas

(Aviso de post com opiniões possivelemente impopulares, possivelmente polêmicas e possivelmente contrárias ao que muita gente acredita! Leia por sua própria conta e risco e sinta-se livre para argumentar contra – ou a favor – ou de forma neutra – nos comentários :-) )

Por algum motivo, em cursos de pós-graduação em Ecologia as disciplinas são condensadas – ou seja, ao invés de aulas durante um semestre duas vezes por semana, temos aula durante duas semanas todos os dias. Dependendo da disciplina, pode ser de manhã ou à tarde ou os dois períodos*. Eu acho que isso é pra possibilitar trabalhos de campo – afinal, não dá pra fazer campanhas de campo quando tem que ir pra universidade ao menos duas vezes por semana; por outro lado, dá pra fazer campanhas de campo antes e depois das disciplinas condensadas de duas semanas. E como campanhas de campo são algo muito comum na Ecologia, disciplinas condensadas fazem sentido sim.

É claro que este argumento pode ser invalidado quando uma disciplina emenda na outra, de modo que se tem um semestre inteiro de disciplinas e nenhum tempo para campo entre elas. Mas, dependendo, a pessoa pode escolher fazer uma disciplina ou outro depois; e algumas disciplinas são optativas; então ainda é possível, com alguma dificuldade, conciliar campos e disciplinas. [Atualização] Outras vantagens de disciplinas condensadas é que permitem uma imersão naquele conteúdo durante uma ou duas ou três semanas, e isso tem certas vantagens; e também facilita a participação de pessoas de fora.

Dito isso, fica a questão: Como otimizar o aprendizado nessas disciplinas condensadas? Uma disciplina condensada é qualitativamente diferente de uma disciplina ao longo de um semestre, mesmo que tenha o mesmo número de horas. Não há tempo para digerir conteúdo e há bem pouco tempo para lições de casa. Mas digestão de conteúdo e lições de casa são essenciais para um bom aprendizado. E agora, José?

Aqui vou falar algumas coisas que tenho pensado sobre essas disciplinas, com base na minha experiência como aluno, nas disciplinas que tenho ministrado desde 2015, e em longas conversas com discentes da pós. :-)

Vamos partir de algumas premissas…

  • Existe uma quantidade finita de horas em uma semana;
  • Existe uma quantidade finita de conteúdo que pode ser passado em um dado tempo;
  • Existe uma quantidade finita de conteúdo que pode ser absorvido em um dado tempo.
    • Pela minha experiência, o conteúdo que pode ser absorvido via de regra é menor do que o conteúdo que pode ser passado. Eu consigo falar de verossimilhança, AIC, informação K-L, modelos generalizados e modelos mistos em 15 minutos. Duvido que este conteúdo seja absorvido :-)
  • Existe uma quantidade finita de horas que uma pessoa consegue trabalhar/estudar por dia.
    • Não é à toa que regimes de trabalho via de regra são de 8 horas por dia! No caso de trabalhos que exigem plantões, a escala muda pra 12 horas, mas não é todo dia. E tem os regimes de trabalho em que a pessoa passa, por exemplo, duas semanas embarcada e depois duas semanas em casa. [Atualização] Um regime, por exemplo, pode ser 7 dias embarcado e 7 dias em casa, trabalhando 12 horas por dia durante os dias embarcados (e estando à disposição no restante do tempo). Invariavelmente, existe um tempo de não-trabalho é maior do que o tempo de trabalho. (E tem as pessoas que trabalham e estudam ao mesmo tempo… Ou que trabalham em diferentes lugares… Mas enfim, via de regra, um mesmo lugar não deve exigir uma carga horário excessiva de trabalho).
    • Pensando assim, uma disciplina em que a pessoa tenha aula de manhã, aula à tarde, e precise resolver listas de noite para entregar no dia seguinte se assemelha mais, talvez, ao trabalho de serviços de emergência em um desastre natural ou uma calamidade – uma situação extrema. Similarmente, um curso de campo em que a pessoa colete dados de manhã, os analise à tarde, apresente os resultados à noite, e depois tenha que pensar no projeto do dia seguinte (e assim durma tipo três a cinco horas por noite) se assemelha talvez à vida de combatentes em uma de guerra – com base em relatos do meu avô (que me foram contados por meu pai) sobre a Segunda Guerra Mundial, uma das piores coisas na guerra é nunca conseguir dormir direito**.

E outra coisa a se pensar é, qual o objetivo de uma disciplina? A meu ver, o objetivo é maximizar o aprendizado de cada discente; e também é passar uma série de conteúdos básicos que todas e todos precisam apreender em algum nível.

Pois então… Se existe uma quantidade finita de conteúdos que podem ser passadas e absorvidos em um tempo X; e se o tempo disponível para a disciplina é menor do que X; as duas possibilidades são: 1) reduzir os conteúdos e 2) aumentar o tempo da disciplina. Como aumentar o tempo da disciplina é complicado (exige aprovação pelo Colegiado, assim como conciliar com os calendários das outras disciplinas, o que é bemmm difícil!).

De modo que a questão acaba sendo, quais os conteúdos que podem ser passados neste tempo limitado? E como passar estes conteúdos considerando que uma pessoa consegue trabalhar/estudar de forma eficiente durante 8 a 10 horas por dia, em média? (É possível trabalhar/estudar mais tempo que isso, mas de forma eficiente? Difícil…)

O que eu busco fazer é mais ou menos assim:

  • Definir quais os conteúdos mais relevantes, pensando no curso e nas necessidades das pessoas. Por exemplo, em um curso de estatística básica para ecologia, a pessoa talvez não precise entender de onde veio a distribuição t, nem necessariamente saber plotar ela. Mas precisa necessariamente saber quando usamos um teste t, um teste t pareado, e como interpetar os resultados! Neste mesmo curso, é importante que a pessoa consiga ajustar e entender o funcionamento básico de um GLM – pois é isso que grande parte dos trabalhos de ecologia usam – e interpretar o resultado. Mas não há necessidade de entender a fundo a parte matemática disso. E isso é bem diferente de um curso introdutório à estatística para quem faz estatística!
  • Distribuir o tempo entre aulas expositivas, aulas práticas expositivas, exercícios em sala de aula, e tempo livre para resolver exercícios para casa. Em disciplinas condensadas de duas semanas, eu costumo dar uma atividade para ser apresentada na sexta-feira da primeira semana e outra para a sexta-feira da segunda semana, e deixo uma a duas horas por dia, além de um período inteiro (ou, dependendo, um dia inteiro) livre para que pessoas trabalhem nesta atividade. Pelos trabalhos apresentados, me parece que tem sido uma boa estratégia.

Fazendo isso, não há necessidade da pessoa trabalhar mais de 8 horas por dia – e o tempo restante pode ser usado para digerir e revisar o conteúdo. E para descansar e dormir! Dormir é importante, se não dormimos não pensamos direito e não aprendemos. Tempo livre não é tempo perdido, tempo livre é tempo necessário para que o material passado seja de fato absorvido e se sedimente.

Inclusive, algumas das melhores disciplinas que fiz – por exemplo o curso de redes ministrado por Marco Mello, ou a disciplina de estatística multivariada ministrada por Marco Batalha, ou uma de ecologia de cavernas da Maria Elina Bichuette – se não me falha a memória, tinham dinâmicas parecidas com essa: tempo para resolução de exercícios em sala de aula, tempo para preparo de seminários ou listas, tempo para digestão de conteúdo.

Em se tratando de disciplinas com aulas práticas, principalmente envolvendo programas de computador, uma outra dificuldade é como lidar com uma turma de 20 pessoas sem ninguém pra te ajudar. Afinal, termos monitoras ou monitores nos ajudando em tais disciplinas é algo meio raro. Uma alternativa que encontrei é pedir para que as pessoas se ajudem mutuamente, e quem tem mais facilidade fique perto de quem tem menos. Afinal, é ensinando que aprendemos melhor. Simultaneamente, depois de explicar o comando ou o script eu ajudo a resolver os erros que invariavelmente aparecem, os quais podem ser simples, podem ser complexos ou podem ser bizarros. (rs)

Então, resumindo, a minha ideia principal é que não adianta passar conteúdo demais e lições demais – além do conteúdo não ser absorvido, uma mente cansada não vai conseguir aproveitar a aula do dia seguinte. Tempo de descanso, tempo de recuperação fazem sim parte de qualquer treinamento e qualquer aprendizado. Claro que se a quantidade de conteúdo e de atividades está abaixo do ótimo, o aprendizado não vai ser tanto quanto seria desejado; mas se esta quantidade estiver acima do ótimo, o aprendizado também vai ser prejudicado – e a saúde provavelmente também. A longo prazo, não é uma estratégia que compense.

* Aqui na UFBA, no mestrado e doutorado acadêmicos em Ecologia, as disciplinas são condensadas, mas via de regra apenas de manhã ou apenas de tarde, e apenas quatro dias por semana (via de regra segunda, terça, quinta e sexta). Eu gosto desse esquema – um dia sem aula no meio da semana é bom para recuperação e sedimentação do conteúdo.

** [atualização] Cursos de campo são talvez um caso à parte – o tempo é curto, o curso é caro e a logística para ele é bem complicada. Mas, sendo assim, será que o aprendizado é de fato otimizado se há um excesso de atividades? Trabalhar 10 a 12 horas por dia até que é viável durante uma ou duas semanas; acredito que mais do que isso prejudica o aprendizado mais do que favorece ele.

11 pensamentos sobre “Sobre disciplinas condensadas

  1. Excelente post, Pavel! E obrigado por mencionar a minha disciplina de redes! ;-)

    Agora mesmo estou dando uma disciplina condensada de pós (Comunicação Oral) e experimentei mudar um pouco o meu esquema padrão. Minhas disciplinas costumam ter 60 h (teóricas + práticas + dever de casa pré-disciplina) e durar 6 dias, das 9:00 às 17:00 (com 2h de almoço). Eu costumava ministrá-las super-condensadas, ou seja, de segunda a sexta e depois mais uma segunda. Esta agora eu resolvei quebrar em 2 semanas mezzo-condensadas, às segundas, quartas e sextas, para incluir dias de “descanso” e digestão no meio (e também porque estou escrevendo minha tese “sugar free” nos intervalos). Depois vou perguntar a opinião dos alunos, refletir sobre a minha opinião e ver se foi melhor ou pior. Uma desvantagem que eu já sabia de antemão foi ter menos alunos de fora de SP, que precisariam ficar na cidade não por 1, mas 2 semanas.

    Quanto às duas opções que você propôs, fico com a primeira: manter o esquema condensado, mas repensar o conteúdo, e tentar resolver quase tudo dentro de sala com um mínimo de dever de casa durante os dias da disciplina.

    Na verdade, precisamos repensar e discutir amplamente a filosofia de uma disciplina de pós. Na minha opinião, na pós, nós, professores, devemos ensinar um toolkit básico de “ferramentas de cientista” e estimular que os alunos aprendam o conteúdo técnico e se aprofundem nas minúcias e novidades por conta própria.

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    • Oi Marco,

      Obrigado! Legal saber que você tem uma visão similar :-)

      Sim, concordo que aumentar a carga horário é muitas vezes inviável… Até porque isso implica reduzir a carga horário em outras disciplinas/atividades!

      Achei interessante a suas proposta de “semanas mezzo-condensadas”. De fato, vai ter menos gente de fora… E isso é um argumento para termos disciplinas mais condensadas.

      Na minha última disciplina de estatística, eu acho que tentei seguir um pouco essa ideia de “tool kit básico”. O que eu queria que pessoas soubessem? Abrir arquivos em R, ajustar modelos simples, interpretar resultados, entender o que é p-valor e dAIC. Coisas mais complexas ou detalhadas podem ser aprendidas por conta própria ou, dependendo, em disciplinas optativas. E a pós em Ecologia na UFBA está com uma proposta interessante agora: temos uma disciplina chamada “introdução à teoria ecológica, aplicação e valores”, que é sobre epistemiologia, teorias ecológicas gerais, e relação ciência-sociedade; e outra chamada “Introdução aos métodos de investigação em ecologia e suas aplicações”, que é uma visão geral de métodos de coleta e análise de dados, incluindo métodos qualitativos. Eu vou ministrar parte de ambas :-)

      Abraço!

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    • Oi Chico!
      Então, eu não acho que seja sem sentido. É a impressão que tive ao ver o grau de exaustão em algumas situações. Eu não vejo por que disciplinas devam ser estressantes e exaustivas além de um certo ponto.
      E sim, a opinião de quem cursa a disciplina é essencial de ser considerada! Como falei, me baseei em parte em longas conversas que tive com discentes de pós. Algo interessante é que essas opiniões podem ser diferentes das que são passadas nas avaliações das disciplinas por discentes; não sei bem qual seria a causa dessas diferenças.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Massa o texto. Curti a ideia e compartilho com vc.
    Minhas disciplinas condensadas sempre tem muito tempo para os estudantes desenvolverem o raciocínio próprio – seja através de exercícios ou de resolução de problemas. E eu concordo com o que o Marco postou ali em cima, acho que não devemos “enxurrar” conteúdo nos estudantes, mas sim dar ferramentas para eles seguirem adiante com o próprio estudo. Ninguém aguenta mais um professor na frente falando sem parar!
    abs
    Emilio

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    • Obrigado, Emilio! :-)
      De fato, aulas expositivas seguidas de exercícios para serem resolvidos apenas em casa são complicadas… O esquema, pra mim, é pensar e “pôr a mão na massa” durante o próprio tempo em sala de aula.
      Abraço!

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  3. Comentário recebido por email, do prof. Marco Batalha:

    Oi, Pavel,

    Gostei do texto e concordo com tudo que escreveu. O problema é basicamente aquilo que John Medina coloca em seu livro “Brain Rules”: “tentar passar mais informação do que o aluno é capaz de digerir”.
    A meu ver, ainda há mais dois motivos bem importantes pelos quais as disciplinas são dadas de forma condensada: (1) imersão – uma disciplina condensada permite que o aluno mergulhe naquele tema durante duas semanas e se foque completamente, com as vantagens que daí decorrem; (2) alunos de fora – o fato de a disciplina ser dada em um período curto permite que alunos de outras cidades tenham a chance de assistir a ela; o que não seria possível em disciplinas estendidas.

    Abraços,

    Marco.

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  4. Gostei da reflexão e da abordagem!
    Obrigada, Pavito!
    Minha experiência como aluna variou entre exaustão em disciplinas exclusivamente expositivas e imersão/bom aproveitamento em disciplinas com atividades práticas/participativas.

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  5. Muito legal seu texto Pavel, bem divertido de ler!
    Minha impressão das disciplinas da pós foi parecida com a de Requinha, variando de exaustão completa à imersão. Devo confessar que em vários momentos me senti mesmo como uma soldada na terceira guerra mundial, chegando na faculdade às 9h e saindo às 21h!! Isso não foram em casos isolados e sim pelo menos uma vez em cada disciplina, estando nesse padrão esquizofrênico por semanas seguidas, e pasme: isso tudo só pra conseguir entregar os trabalhos que são entregues na segunda para serem apresentados na sexta! Sinto muito mesmo por mim, por não ter conseguido aprender tudo o que eu pude pelo simples motivo de não ter tempo para REFLETIR, LER, DISCUTIR com meus pares sobre o que aprendemos. O sentimento que fica é o autoflagelo de não ter me dedicado o suficiente para as disciplinas e no caso, o “suficiente” seria o sobre-humano.
    abs

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    • Oi Amanda,
      Obrigado! :-)
      (Textos divertidos sobre temas importantes são legais né? rs)
      Eu acho que de vez em quando é normal trabalhar horas muito longas; mas isso deve ser de vez em quando!
      Uma hipótese é que, na Academia, aquilo que deveria ser excessão passa a ser a norma. Não é raro profs trabalharem bem mais do que as 40 horas semanais que está no contrato; e acaba sendo entendido que isso é normal, é assim que tem que ser. Oras, se é isso que se espera na vida profissional, nada mais lógico do que preparar pessoas pra isso durante as disciplinas da pós-graduação, certo?
      E acho que essa cultura não é saudável e não ajuda a aumentar a produtividade… Se temos um tempo limitado, precisamos saber definir quantas coisas fazemos neste tempo limitado… Pra não deixar coisas sem terminar. Excesso de atividades faz com que elas não sejam terminadas ou sejam terminadas com qualidade abaixo do que podia ser…
      Tempo pra reflexão, leitura e discussão é essencial!
      Obrigado pelo comentário! <3

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