Iniciando um projeto de pesquisa

Acho que “Escreva um projeto” é uma das frases que aspiras a cientista mais ouvem, em qualquer nível, desde a graduação até o doutorado. Depois paramos de ouvir essa frase porque já ficou tão impregnada na nossa mente que não tem muito por que continuar falando.

E aí de repente alguém que nunca escreveu um projeto na vida, ou nunca escreveu um projeto daquele tipo na vida, se confronta com uma grande questão: como transformar um grande Nada em um belo e idealmente financiável Projeto.

Pois quando se ouve “Escreva um projeto”, frequentemente não existe um ponto de partida, ou, caso exista, é um ponto de partida com o qual a pessoa não está familiarizada. E, num ato de (sub)criação, espera-se que onde apenas Nada havia, um Projeto seja criado.

Pessoa tentando transformar um Nada em um Projeto, este texto é para você. :-)

E a primeira coisa que quero lhe dizer é: o Nada na verdade não é um Nada. Existe sim um ponto de partida, mesmo que você não saiba qual é. Este ponto de partida é o seu conhecimento prévio, os seus interesses e a sua curiosidade.

Então primeiramente eu sugiro que você pense: O que me instiga? O que eu quero entender ou descobrir ou aprender? Para onde minha curiosidade está me guiando? Como eu quero contribuir para a comunidade, ou a humanidade, ou a ciência? O ponto de partida é esse.

E depois, é importante pensar também nos fatores limitantes, por assim dizer, que delimitam o tipo de projeto que pode de fato ser realizado. Se sua curiosidade te leva a estudar os ursos polares no ártico russo, mas você mora na Bahia, fazer um projeto nesta linha vai ser um tanto complicado (mas não impossível! Acho.) Os fatores limitantes incluem a infraestrutura e financiamento disponíveis, as exigências de agências de fomento, e os interesses, linhas de pesquisas e conhecimentos de quem te orienta. E pode acontecer de, por alguma contingência, você já receber um projeto relativamente pronto, ou uma ideia de projeto pronta, e precisa trabalhar em cima dela. Mas mesmo que isso aconteça, a responsabilidade de escrever e delimitar melhor este projeto é sua.

O terceiro passo então é ver onde a sua curiosidade se cruza com estes fatores limitantes mencionados. E caso este cruzamento seja zero, bom, você provavelmente precisa buscar outra pessoa para te orientar, ou outra área para fazer pesquisas, enfim. Digo isso porque, por um lado, é muito chato e desestimulante trabalhar em um projeto que não te instigue, que você ache, bom, chato e desestimulante. E o resultado final provavelmente vai ser pior também – afinal, trabalhamos melhor em coisas que nos interessam. Sem falar que realizar uma pesquisa envolve também muita leitura, e ter que ler sobre um assunto que não lhe interessa é bem mais difícil. E por outro lado, é chato ter uma pessoa trabalhando em um projeto sem ter real interesse nele.

Mas é improvável que não haja pontos de convergência, embora talvez dê algum trabalho achar eles.

Bom, depois de ter claro o que lhe interessa fazer e ter claro o que você pode de fato fazer, sugiro pensar sobre o que se espera de um projeto na sua área e no seu nível de formação. Recomendo lerem este excelente texto do prof. Marco Mello, sobre o que se espera em um projeto de iniciação científica, mestrado, doutorado, pós-doc e profissional. E pense também sobre o que se espera de um projeto na sua área de pesquisa. Por exemplo, em um projeto de ecologia espera-se que uma pergunta ecológica seja respondida. Parece óbvio, mas não é incomum ver projetos de ecologia que não têm essa pergunta! O que seria uma pergunta ecológica? Bom, eu diria, em linhas gerais, algo que diga respeito à relação de seres vivos entre si e/ou com o seu ambiente. Avaliar a relação da comunidade vegetal com alguma característica do ambiente é uma pergunta apropriada para um projeto de ecologia, mas simplesmente fazer um levantamento de espécies não. Mas talvez um levantamento de espécies seja uma pergunta apropriada para um projeto de botânica, especialmente se for uma área pouco explorada. Reparem que o levantamento de espécies pode ser uma parte essencial de um projeto de ecologia – o que não pode é o projeto se limitar a isso.

E nesta etapa pode acontecer de você descobrir que o seu interesse está em uma área diferente da que você tinha imaginado que estaria…

Temos então a intersecção dessas três coisas: o que lhe interessa; o que você pode fazer; e o que se espera que você faça. E nesta intersecção provavelmente existirão muitas possibilidades de projetos a serem desenvolvidos. Chegou agora a vez de você escolher uma delas!

Para fazer tal escolha, sugiro conversar com quem vai te orientar nisso, e também com outras pessoas experientes (e de repente outras pessoas inexperientes também). Mas defendo que a decisão final deve ser sua; afinal, um aspecto essencial da formação acadêmica é aprender a pensar de forma independente!

E finalmente, tendo feita tal escolha, chegou o momento de efetivamente escrever. Recomendo ler este outro excelente texto de Marco Mello que fala detalhadamente sobre a elaboração de um projeto de pesquisa. Aqui vou apenas sugerir uma sequência de passos para começar (outras sequencias podem ser tão boas ou melhores do que esta):

1) Abra o programa que você usa para escrever coisas no computador. Crie um documento novo.
2) Salve este arquivo, com um título como “Projeto_seuNome_v0.1.odt” (ou .doc, para as pessoas que ainda usam coisas da Micro$oft…)
3) Escreva um título para seu projeto. Pense com carinho no título. Você provavelmente vai mudar ele depois, mas pense nele com carinho.
4) Crie a estrutura geral do documento – introdução, métodos, resultados esperados etc. Na minha experiência, isso ajuda a você não travar no processo de escrita, pois os tópicos já estarão lá, apenas esperando para serem preenchidos (e também te lembrando de preencher eles).
5) Escreva uma primeira versão dos objetivos. Ou seja, o que você quer descobrir com este projeto? Qual o objetivo principal dele? Que avanços você quer trazer? Os objetivos vão guiar o restante do seu texto.
6) Esboce uma estrutura de tópicos para a parte que você quer escrever primeiro. Eu gosto de começar pela introdução mesmo, inclusive porque isso me ajuda a organizar as ideias. Pense em que assuntos você quer abordar em cada parágrafo da introdução, e depois escreva sobre estes assuntos. Alguns deles você já terá domínio sobre; outros você vai ter que estudar mais antes de escrever. Deixe que o que você escreve lhe mostre sobre o que você precisa ler mais.
7) Se acabou a sua inspiração naquela parte, nada te impede de pular para outra parte antes de voltar pra primeira. Assim, você pode escrever algo da introdução em um dia, descrever a área de estudo no dia seguinte, depois passar pros resultados esperados, voltar pra introdução, escrever a forma de amostragem… Enfim. O importante é escrever; e assim, pode acontecer de um belo dia você olhar para aquilo e pensar “Nossa, eu escrevi isso tudo? Que bonito que ficou.”

Sim, é um processo demorado; mas ciência é um processo demorado. E sim, escrever é difícil, mas escrever também é uma das partes mais importantes do nosso trabalho! E para escrevermos bem, precisamos primeiro escrever.

Já criou seu arquivo? :-)

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