Sobre iniciações científicas supimpas em Ecologia

Eu gosto muito de trabalhos de iniciação científica (ou IC para os íntimos). Acho estes trabalhos uma ótima porta de entrada para o mundo da pesquisa, podendo estimular interesse na área ou, alternativamente, permitir que alguém veja que realmente não tem interesse na área. Pode ser o início de uma longa e bela jornada; ou não; de qualquer modo, tem grandes chances de ser uma ótima experiência. E talvez seja o trabalhólatra* em mim falando, mas acho que IC pode, e deve, ser algo interessante, estimulante e, sim, divertido!

Mas para que serve, oficialmente, uma iniciação científica? De acordo com um edital da UFBA, os objetivos da IC incluem “Despertar a vocação científica e desenvolver talentos para a pesquisa“, “contribuir para a formação de recursos humanos para a pesquisa“, e “estimular pesquisadores a engajarem estudantes de graduação nas atividades de
iniciação científica e tecnológica“. (Estas são algumas das finalidades do edital, mas acho que podemos aplicar elas à IC como um todo). E então fica a pergunta… Como podemos atingir estes objetivos? E como podemos atingir estes objetivos e simultaneamente fazer pesquisa científica de qualidade?

Neste texto vou falar um pouco sobre a minha visão de IC (com base na minha experiência, mesmo que limitada, e com base no que tenho pensado nestes últimos anos) e um pouco sobre como trabalhos de IC, dado tempo e/ou colaborações suficientes, podem gerar pesquisas ecológicas interessantes, relevantes, supimpas e dahora.

Os objetivos de uma IC

Bom, na minha visão, o objetivo principal de uma iniciação científica é permitir que a pessoa tenha um vislumbre, ou uma noção geral, de como se faz uma pesquisa científica. Isso pode gerar uma publicação, ou pode não gerar; o importante mesmo é a experiência formadora, que a pessoa termine a IC sabendo como a pesquisa científica é feita, ou ao menos tendo uma boa noção de algumas etapas de uma pesquisa científica. Fazendo uma analogia com artes marciais – se no doutorado adquirimos a faixa preta de cientista, uma IC seria o equivalente a adquirir a faixa amarela, participar de uma competição ou duas (tipo um campeonato regional; nada de Ultimate Fighting ainda, rs) e aprender o suficiente para seguir aprendendo.

Mas quais então são as etapas de uma pesquisa científica, e o quanto podemos explorar ela em uma IC? Bom, pensando especificamente em ecologia, podemos fazer a seguinte classificação, que se aplicaria na verdade a (quase) qualquer projeto científico:

  • Pensar em uma pergunta de pesquisa;
  • Fazer uma revisão de literatura para saber se essa pergunta realmente faz sentido;
  • Pensar em objetivos mais específicos;
  • Operacionalizar as variáveis teóricas (tem um texto sensacional de Marco Mello sobre como operacionalizar variáveis)
  • Definir o método de estudo
  • Fazer um cronograma
  • Conseguir financiamento para isso tudo
  • Coletar os dados
  • Fazer ajustes no método enquanto se está coletando os dados
  • Analisar os dados
  • Interpretar os resultados
  • Escrever sobre isso tudo
  • E apresentar isso tudo em algum evento.

Muitas etapas, né? E olhando assim parece assustador… Olhando assim até eu estou ficando assustado com essa complexidade toda. rs Ainda bem que com o tempo isso fica tudo internalizado! E, na minha visão, é importante que um trabalho de IC permita ter alguma experiência com todas ou a maior parte destas etapas.

No que, então, um projeto de IC difere de um projeto de mestrado, ou de doutorado, ou de pós-doc? Eu diria que difere basicamente 1) no apoio dado pela orientadora ou pelo orientador, que deve acompanhar mais de perto o projeto e por vezes guiar o que será feito; e 2) no escopo, amplitude ou grau de ambição da pesquisa. Mas são diferenças quantitativas. Qualitativamente, para mim, são coisas similares. E tem outro texto excelente de Marco Mello sobre o que se espera de projetos em diferentes fases da carreira. No geral, eu acredito que desde a IC é importante estimular a autonomia e o pensamento independente. Citando Marco Mello (op. cit.), “ao contrário do péssimo costume de muita gente, projetos de ICs devem, sim, ser originais!”

Pois então, vamos por partes…

Voltando à sistematização que fiz acima, vou discutir aqui o que acho que pode ser mais ou menos explorado em um trabalho de IC. Isso são minhas opiniões pessoas, e não estou dizendo que elas estejam certas ou sejam melhores do que outras opiniões sobre o assunto! Em linhas gerais, minha visão de uma IC é que a discente “nunca se sinta abandonada, mas também aprenda a se virar sozinha” (Ingrid Paneczko, com. pess., 19/02/2020).

Pensar em uma pergunta de pesquisa

Essa é provavelmente a parte mais difícil, e a parte que mais deve ser estimulada! Me parece ser bem mais estimulante responder uma pergunta que você pensou do que uma pergunta que lhe foi colocada por alguém. Mas é muito difícil pensar em uma pergunta científica que seja interessante, que possa ser respondida, e que não seja trivial. Então acredito que este processo deve acontecer de forma dialógica entre orientador e discente. Um processo interativo e iterativo, mesmo, para chegar em algo que interesse à aluna, e que seja cientificamente interessante, e que possa ser respondido em uma IC, e que também interesse à orientadora.

Para fazer uma pergunta interessante, é importante se familiarizar com a literatura – de modo que a primeira etapa de qualquer IC deve ser ler coisas e pensar sobre as coisas que se está lendo. E perguntas interessantes também podem surgir quando se está no campo, em contato com o sistema. De repente, em um belo dia de sol na restinga, num estado de quase insolação, se pode ver um lindo lagartinho em cima de um cactus e pensar, “O que este bichinho tá fazendo neste tronco espinhudo?”. Isso dá uma pergunta de pesquisa! Ele pode estar termorregulando, ou pode estar indo atrás de um fruto para comer, ou fugindo de algum predador, talvez… Ou se pode ver uma planta curiosa e querer entender a sua estrutura populacional. E como não sabemos quase nada sobre a história natural de grande parte das espécies, e tampouco sobre a ecologia de grande parte de ecossistemas, perguntas assim são sim relevantes. E, finalmente, participar de grupos de discussão ajuda muito a ter ideias de perguntas interessantes.

Portanto, minhas sugestões para pensar numa pergunta de pesquisa, ou para estimular alguém a pensar em uma pergunta de pesquisa, são: 1) ler (ou estimular a leitura); 2) ter contato com o sistema que se pretende estudar, idealmente ajudando outras pessoas em campo ou talvez coletando dados para um projeto de outra pessoa – sendo que essa coleta de dados para um projeto de outra pessoa seria algo preliminar à IC propriamente dita; e 3) participar (ou organizar) grupos de discussão. Eu tento estimular pessoas que querem fazer IC comigo a fazer essas três coisas; não tenho dados para falar se está dando certo mas no geral acho que tem sido interessante.

Fazer uma revisão de literatura para saber se essa pergunta realmente faz sentido

Eu acho de extrema importância que a/o discente faça essa revisão e estude o material por conta própria. É interessante que quem orienta passe alguns trabalhos no começo do processo, e também ensine a fazer a busca por referências, mas leitura e estudo é uma parte essencial de uma IC que não deve ser deixada de lado nunca.

Pensar em objetivos mais específicos, operacionalizar as variáveis teóricas, definir o método do estudo, fazer um cronograma

Para mim, isso deve ocorrer de forma interativa entre discente e docente. Algo importante de se levar em conta é o que interessa a quem vai fazer a IC – afinal, não tem muita graça ficar coletando dados de algo que não lhe interessa muito, né? A definição de objetivos, a operacionalização das variáveis e a definição do método são aspectos tão importantes quanto a formulação da pergunta inicial, e talve sejam o maior aprendizado que uma IC oferece.

Conseguir financiamento para isso tudo

Já isso, a meu ver, é papel de quem orienta. Exceto em relação a bolsa – bolsa depende do projeto, e o projeto deveria ser escrito conjuntamente pelo discente e pelo docente. Fora isso, o tempo de IC é muito curto para ficar indo atrás de financiamento, e é muito mais fácil docentes pedirem isso, até mesmo pela posição que ocupam.

Coletar os dados, fazer ajustes no método enquanto se está coletando os dados

Já essa parte, pra mim, é de responsabilidade principalmente da discente! Eu acho de suma importância o orientador colaborar na coleta de dados no início, para ensinar como o trabalho deve ser feito; e é também importante ter um acompanhamento ao longo do trabalho. Se for trabalho de campo, acho importante quem orienta ir pelo menos em alguns campos, até mesmo para fazer um controle da qualidade do trabalho e também para dar dicas de como tornar o trabalho mais eficiente. (E bom, como eu não vivo sem campo, eu vou sempre que dá, rs). Mas é no trabalho de campo que a pessoa pode adquirir maior independência, e também pode aprender a organizar os campos e cuidar da logística deles. Afinal, trabalho de campo não é apenas ir lá coletar os dados, tem toda a organização antes e depois. Isso é muito importante em termos de aprendizado.

DSC03248.JPG

A felicidade no final de um dia de campo! Na foto temos um orientador, uma mestranda que gosta de campo, e duas alunas de IC coletando dados para seus projetos. Vejam só a alegria! Devia ser a insolação, rsrs.

Analisar os dados, interpretar os resultados

Acho importante também que o discente faça a análise dos dados e os interprete. Mas estamos falando de ecologia, né pessoinhas? E embora ecólogos sejam estatísticos com as botas sujas de lama (conforme dito por alguém sábio que não lembro quem foi), não podemos esperar que alguém na graduação saiba fazer análises estatísticas complexas por conta própria (a não ser que o trabalho seja focado em análise de dados já existentes, sem coleta de dados próprios). Assim, eu acho válido que a orientadora fale que análises possam ser feitas e ensine a fazê-las, e depois auxilie a interpretar os resultados. Existem pessoas que se dão melhor com estatística, existem pessoas que têm mais dificuldade, e isso tudo deve ser levado em conta.

Escrever sobre isso tudo

Essa é outra parte muito importante – afinal, cientistas são escritores! Nossas descobertas de pouco valem se não forem comunicadas. Escrever é uma arte, e requer treino. E escrever um artigo científico é algo bem demorado! Pela minha experiência, depois que os dados foram coletados é perfeitamente normal gastar um ano para escrever o artigo. E o tempo de uma IC pode ser insuficiente. Mas mesmo assim, é importante que a pessoa escreva uma primeira versão do artigo; e, se ela tiver interesse, continue trabalhando nele até ficar pronto. Às vezes a pessoa pode não ter interesse em continuar escrevendo o trabalho, preferindo apenas entregar o relatório. E eu não vejo nenhum problema nisso! Afinal, e pessoa já teve contato com todas as fases de uma pesquisa científica, e pode ter percebido que isso não é pra ela. Ou senão pode querer deixar a escrita para quando tiver uma bagagem intelectual maior.

Mas aí entramos num dilema. É certo deixar aquele trabalho todo não ser divulgado? Eu acho que não… Se é considerado importante que o trabalho seja publicado logo, uma possibilidade é convidar alguém da pós-graduação (ou pós-doc!), que já tenha mais experiência em escrita científica e também esteja precisando melhorar o currículo, para tomar a frente da escrita. Ou quem orienta pode tomar a frente da escrita. Ou podemos esperar… Eu coletei os dados da minha IC em 2008, mas publiquei o principal artigo dela em 2014, e o artigo ficou muito mais interessante do que teria sido antes, pela bagagem intelectual que adquiri durante o mestrado e doutorado. Sim, eu acredito em slow science.

E apresentar isso tudo em algum evento

Mesmo que não seja obrigatório, eu acho muito importante apresentar os resultados em um evento… É uma experiência bacana que provavelmente ficará na lembrança. Ainda lembro dos meus primeiros congressos.

Concluindo, que o texto já está muito grande…

Na minha visão, uma IC deve permitir que a pessoa tenha uma noção de como se faz uma pesquisa científica em sua totalidade, desde formular uma pergunta até interpretar os resultados, incluindo a longa (looonga (looooooonga)) coleta de dados no processo. E perguntas ecológicas interessantes podem ser ser respondidas em uma IC! Por exemplo, vejam este trabalho de Renata Muylaert ou esse de Carolina Stella Gonçalves ou esse de Raquel Miatto – trabalhos de IC que foram publicados durante ou pouco tempo após a graduação. A minha própria IC rendeu um artigo (em colaboração) que publiquei no meu mestradoum que publiquei no meu doutorado e outro que só consegui escrever quando era pós-doc, porque precisava de tempo pra programar aquelas análises e conseguir escrever algo direito. Como exemplos de trabalhos de IC cuja escrita foi liderada por outras pessoas, posso dar o exemplo deste com que colaborei e deste outro em que fui coorientador. E tá, normalmente não publicamos uma IC em uma revista topzera mega hiper power das galáxias, mas publicar em revistas menores também é importante! Então, sim, podemos conciliar uma boa experiência formadora com produção de conhecimento científico. E muitas vezes também nos divertir no processo. :-)

Pav_IC.png

Um Pavel se divertindo durante a sua IC, lá por 2007 :-) (O nunchaku servia pra abrir caminho pelo capim-gordura. Sim. E você não pode falar que não funciona se nunca tentou!)

* Gostaram da minha tradução de workaholic? xD

4 pensamentos sobre “Sobre iniciações científicas supimpas em Ecologia

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