Sobre saúde mental na Universidade

Observação: Já faz um tempo que quero escrever sobre o assunto. No entanto, eu não tenho qualquer formação na área e também não tenho lido tanto assim sobre isso. Ou seja, é provável que eu não saiba do que estou falando :-) Escrevo baseado na minha própria experiência e coisas que venho pensando. Não assumam que essas coisas façam sentido e nem entendam esse post como uma opinião qualificada sobre o tema.

O tema de saúde mental no meio acadêmico é algo que tem sido até que bastante discutido atualmente; e na real nem sei se tenho algo novo a contribuir sobre o assunto. Mas isso nunca me impediu de escrever algo antes, então… :-)

O meio acadêmico é um meio estressante; não tenho vivência pra dizer se é um meio mais estressante ou menos estressante do que outros, mas o fato de ser estressante é, bom, um fato. O que não impede este meio de ser um meio lindo! Um meio lindamente estressante, ou estressantemente lindo? Ou apenas estressante e lindo ao mesmo tempo? Acho que nunca tinha pensado nisso com essas palavras, mas acho que faz sentido, ou não…

Mas por que a carreira acadêmica é tão estressante? Bom, eu acho que tem diversas questões envolvidas; mas, numa primeira tentativa de sistematização, eu hipotetizo que três motivos importantes são: sobrecarga; falta de empatia; e organização pouco eficiente.

Sobrecarga

A sobrecarga é algo muito comum no meio acadêmico, como provavelmente vocês poderão ver na enquete abaixo:

Em uma conversa que tive com Marco Mello, ele falou de três fatores que podem contribuir com isso (Mello 2019, com. pers. por corr. eletron.): 1) na vida acadêmica, nós realmente gostamos do que fazemos. Bom, não todo mundo; mas quem realmente se estabelece nela, realmente gosta do que faz. E acho talvez possamos projetar isso para outras pessoas, e achar que elas também realmente gostam do que fazem e assim não têm problema em ler artigo de fim de semana, fazer campo sexta-feira à noite (#sextou #emcampo) e falar de trabalho a qualquer horário do dia e da noite (whatsapp tá aí pra isso, né meu povo? #ironiaModeOn), o que pode gerar uma sobrecarga nessas outras pessoas, além de nós mesmos nos forçarmos voluntariamente a trabalhar além do limite do saudável; 2) as nossas metas muitas vezes somos nós que definimos, e, quando realmente gostamos do que fazemos, podemos estabelecer metas megalomaníacas; e 3) o meio acadêmico é realmente muito, muito competitivo, “tipo no nível da Olimpíadas” (Mello 2019, pers. com por corr. eletron.). E pra nos mantermos competitivos, trabalhar apenas a quantidade de tempo que está no contrato pode não ser suficiente. E não estou aqui falando de benefícios meramente individuais – ter uma alta produtividade permite adquirir mais recursos, equipamentos etc, o que contribui com a formação de pessoas no futuro; e ter alta produtividade discente e docente permite manter um PPG com um conceito alto, o que permite ter mais bolsas e assim formar mais pessoas. O benefício em grande parte é coletivo.

E além desses três tópicos, acho que a forma como tarefas são distribuídas pode contribuir para a sobrecarga. Sem uma base de dados mostrando as atividades que cada docente faz, em termos de ensino, pesquisa, extensão e administração, fica difícil atribuir novas atividades de forma otimizada. Por exemplo, ao atribuir carga horária em disciplinas, não se leva em conta necessariamente quantas pessoas cada docente está orientando. E, assumindo que as outras atribuições sejam equivalentes, se um docente ministra 12 horas de aula e orienta duas ICs, enquanto outra ministra 12 horas de aula e orienta duas ICs, quatro mestrados e dois docs, é meio evidente que uma sobrecarga será gerada, né? (Uma vez eu fiz uma análise para verificar se havia um tradeoff entre produção científica/orientações e carga horária em sala de aula, i.e. se quem dava menos aula publicava/orientava mais e vice-versa. Não deu qualquer correlação. Ou seja, o possível argumento de que quem faz mais de um tipo de atividade faz menos do outro tem grandes chances de não ser válido; seria bem interessante um estudo de larga escala sobre isso!)

Empatia

Outra questão que me parece importante é que frequentemente deixamos de levar em conta como nossas ações podem impactar o bem-estar emocional de alguém. O meio acadêmico é estressante (e lindo). Não há motivos racionais para deixarmos ele mais estressante (e menos lindo) para outras pessoas se houver alternativa.

Pensando aqui no estresse ao longo da vida acadêmica… Minha impressão é de que ele vai constantemente aumentando, desde a graduação até o doutorado, e no pós-doc, e depois de assumir o trabalho como docente. Espera-se que a nossa capacidade de lidar com o estresse também aumente com o tempo – e pra mim isso faz parte do aprendizado. Mas nada garante que as duas coisas – o estresse e como lidamos com ele – aumentem proporcionalmente. Pode acontecer de alguém mais avançado na carreira ser plenamente capaz de lidar com isso tudo; ou pode ser que a pessoa esteja no limite e a capacidade de lidar com perturbações adicionais seja praticamente nula. E nós não temos como saber a situação da outra pessoa – independentemente do estágio de carreira dela. Enquanto uma pessoa lida tranquilamente com tudo que acontece, em outra uma brincadeira inocente pode levar a um colapso mental. De modo que… Cuidar da própria saúde mental é importante; e cuidar da saúde mental das pessoinhas a seu redor também!

Algo importante a se levar em conta é que as relações são sempre bilaterais. Me parece que às vezes a Universidade é vista como um campo de batalha, com discentes de um lado e docentes do outro. Ou uma luta de classes. Não vejo sentido nisso. Estamos todos e todas no mesmo barco (o qual talvez esteja afundando…), com o mesmo objetivo de ter o melhor possível em termos de ensino, pesquisa e extensão. Mas se esquecermos disso… Bom, às vezes um docente pode esquecer que seu aluno também tem vida fora da universidade, ou não entender que alguém precisa gastar três horas no ônibus (pra ir, mais três pra voltar) porque estuda em Ilhéus mas faz estágio em Canavieiras, ou que nem todo mundo tem acesso a computador. Faz sentido alguém ficar com falta porque a empresa de ônibus decidiu não fornecer transporte aquele dia? Ou ficar sem nota porque aconteceu algo na vida da pessoa que a impediu de fazer aquela atividade? Pra mim, não faz muito sentido não.

E às vezes pode acontecer da aluna esquecer que a profa também tem sentimentos e vida fora da universidade, e que existem atitudes que são altamente desmotivadoras e não fazem bem. Por exemplo, quando se está dando uma aula (sendo que foram algumas horas preparando ela, e talvez algumas semanas pensando sobre ela, e alguns anos estudando o assunto como um todo) e alguém fica mexendo no celular o tempo todo. Ou quando se está corrigindo uma atividade e de repente se descobre que a atividade foi copiada da internet ou do coleguinha. Ou quando se estabelece um prazo e não se cumpre ele – isso tem consequências, e isso é algo que pode abalar a psicologia de alguém, além de atrapalhar o planejamento (assim gerando o que? Sim, sobrecarga!). (E sim, isso vale também para demora em lançar notas – se existe um prazo para lançar notas, eu enxergo poucos cenários que justifiquem que ele não seja cumprido). Eu tive um professor na graduação que tinha um conhecimento bom do assunto, e aparentemente gostava de ensinar aquilo, e que poderia dar aulas muito dahora, mas que estava totalmente desmotivado, e eu acho que é porque quase ninguém dava a mínima pra aula dele, saindo da sala na primeira oportunidade.

Enfim… Neste quesito, eu acho importante, basicamente, levar em consideração o efeito que nossas ações, palavras e atitudes podem ter sobre outras pessoas; e levar a sério o que pessoas dizem sobre isso. Se alguém diz que está sobrecarregada/o, a resposta não deve ser “sobrecarregado todo mundo está”. Mesma coisa sobre outros aspectos da vida acadêmica e de saúde mental. Não estou falando de tentar oferecer ajuda profissional sem ter qualificação para isso, mas simplesmente de levar a sério o que alguém lhe fala. Cuidar da sua saúde mental, mas também da de pessoinhas a seu redor.

Organização

Existem pessoas que trabalham bem respondendo a demandas imediatas. Outras pessoas trabalham bem seguindo um plano. E outras pessoas trabalham bem em qualquer cenário. Além de todo o gradiente de variação entre esses três tipos!

De qualquer modo, geralmente, no meio acadêmico, temos muitas atividades a cumprir simultaneamente, e isso requer um planejamento. Às vezes surgem demandas imediatas e o nosso planejamento precisa ser modificado; e às vezes elas são inevitáveis, fugindo do nosso controle. Mas às vezes não – às vezes é falta de organização, por vezes da parte de outras pessoas. Então às vezes temos um planejamento de como fazer todas as coisas que precisam ser feitas no tempo em que elas precisam ser feitas, quando uma nova demanda aparece para ser resolvida urgentemente. Mas para uma nova demanda ser resolvida, ou alguma outra demanda deve ser deixada de lado, ou se deve trabalhar mais horas (o que provavelmente leva à redução da qualidade do trabalho), ou se deve cumprir ambas as demandas com menos qualidade. E tendo em vista que as coisas que se fazem numa universidade via de regra são de interesse coletivo, deixar demandas de lado ou cumprir elas com menos qualidade pode ter efeitos que se espalham. Mas acho que isso merece um post à parte…

Concluindo…

Como falei no começo, não sei se sei do que estou falando aqui. Mas acho que esse tema é importante e precisa ser conversado sobre… Havendo interesse, no Dynamic Ecology tem vários posts sobre saúde mental, disponíveis neste link. Também adoraria saber a opinião de vocês – comentários do blog servem para isso!

8 pensamentos sobre “Sobre saúde mental na Universidade

  1. Muito legal o texto. Meu grande desafio no momento tem sido as demandas imediatas que fazem eu ter que ficar refazendo meu planejamento com frequência. A cada novo degrau na vida acadêmica elas têm aumentado. Eu continuo investindo em organização e em aumentar o foco durante a jornada de trabalho, evitando distrações para maior rendimento. Você já publicou um post bem legal sobre isso, descrevendo como se organiza, adorei aquela dica dos momentos de checar e-mail depois do almoço. Abraço

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    • Obrigado! :-)

      Lidar com demandas imediatas é algo complexo… Algo que aprendi nos cursos da Arata Academy é que precisamos dar um jeito de ter um tempo para demandas não-imediatas. Uma sugestão dele é: dividir as atividades em quatro quadrantes: importantes e não urgentes; importantes e urgentes; não importantes e urgentes; e não importantes e não urgentes. O foco deve ser sempre nas importantes e não urgentes, porque são as que trazem benefícios a longo prazo. Ou seja, precisamos dar um jeito de não ficar o tempo todo lidando com demandas importantes e urgentes. As não importantes e urgentes podem ser ignoradas… Embora normalmente não queremos ignorá-las. É tipo aquela mensagem de whatsapp que queremos responder, rs.

      Outra possibilidade é delegar tarefas. Mas acho importante pensar em como isso vai contribuir para a pessoa… É legal que sejam coisas que promovam o crescimento pessoal da pessoa a quem a tarefa está sendo delegada.

      (E eu ainda não consegui seguir este meu conselho mas estou tentando, xD)

      Abraço!

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  2. Pav, adorei o texto e acho super importante falar disso, principalmente porque a pessoa que está com problemas de saúde mental tende a achar que isso só acontece com ela. Acho legal também que todos pensemos na ajuda profissional – às vezes, precisamos de um bom psicólogo ou psiquiatra para ajudar a esclarecer as coisas em nossas mentes. Parabéns pelo texto! Abraços!

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    • Oi Mi!

      Obrigado! :-)

      Eu não falei sobre a importância de ir em psicólogo ou psiquiatra por dois motivos… Um é que eu pessoalmente tenho uma relutância irracional em ir, e não quero falar sobre isso haha Mas não queria escrever algo de “faça o que eu digo, não o que eu faço”.

      Mas o motivo principal de eu não ter tocado neste ponto é que tenho a impressão de que isso pode colocar a responsabilidade inteiramente em quem está sofrendo… e não em quem pode ter sido responsável pelo sofrimento. Se alguém está passando por problemas psicológicas na universidade, ouvir que ela deve ir num psicólogo pode dar a impressão de que o problema está inteiramente nela. E eu acho que em grande parte das vezes não está! De modo que… Sim, pedir ajuda profissional é importante e pode ajudar bastante; mas agir de modo a não impactar negativamente a saúde mental de outras pessoas, para mim, é mais importante ainda! Se um aluno sente a necessidade de ir no psicólogo por causa do estresse provocado por uma disciplina, o professor dessa disciplina precisaria ter um acompanhamento profissional para deixar de causar esse estresse todo.

      Coisas do tipo… Por um lado, talvez a pessoa precise de algo para lidar melhor com a sua ansiedade; mas por outro lado, talvez outras pessoas precisem mudar suas atitudes para não provocar tanta ansiedade em alguém. E acho que temos esquecido de mencionar este outro lado. :-)

      Abraço!

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  3. Excelente post, Pavel! Eu ainda acrescentaria mais um ponto à nossa conversa e ao seu texto. No caso de quem já concluiu a Jornada do Cientista e conquistou um emprego (professor, pesquisador, analista etc.), é preciso saber a hora de pisar no freio. Durante a pós-graduação, precisamos, sim, dar um gás e fazer sacrifícios, mas sem nunca deixarmos de cuidar também do corpo e do espírito. Só que, quando atingimos a tão sonhada meta, precisamos nos dar conta disso e desligar o “modo de batalha”. Só assim é possível curtir de verdade a vitória e começar uma nova fase. Infelizmente, vejo muitos colegas continuarem “full throttle” ad infinitum, o que só desgasta a saúde mental deles. Naturalmente, um cientista precisa continuar com a mente de principiante a vida inteira, sempre aprendendo e se atualizando. Mas é perfeitamente possível fazer isso de forma saudável e sustentável. A carreira acadêmica não é uma corrida de 100 metros rasos, mas uma maratona. Vence e sobrevive quem tem disciplina e constância.

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    • Obrigado, Marco!
      Sim, concordo plenamente… Uma comparação similar que li em algum lugar é que: um mestrado é uma corrida de cem metros rasos, e um doutorado é uma maratona. Mas o que vem depois é a vida. Não podemos passar a vida neste mesmo esquema (mesmo tendo que dar umas corridas às vezes!).
      Ou talvez, se o doutorado for uma maratona, a vida acadêmica em si é uma grande jornada, na qual às vezes precisamos nos esconder de Nazgûls, e às vezes precisamos correr de Balrogs, mas a maior parte do tempo precisamos caminhar, devagar e sempre…
      Abraço!

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  4. Pavel querido! Grata por compartilhar essas ideias conosco. Eu vejo que muito está em como lidamos mesmo com a sobrecarga. Assim como, imagino que algumas pessoas tenham melhor estrutura psíquica pra lidar e outras menos. Eu sou do time que curto sim fazer ciência e estudar, mas tb curto não ter que trabalhar todos os finais de semana, feriados e afins. Gosto daquilo que vem sendo chamado de ódio criativo e ter bons momentos de lazer, embora esteja ciente que em um universo tão competitivo, eu possa ser menos produtiva. E tudo bem. Acho que não ficar se comparando com os coleguinhas pode ser uma boa.
    Mas, um ponto fundamental que vc tocou é o da organização. E este ponto é uma linha de mão dupla. Ou seja, não basta o orientador/professor ou orientado/aluno ser organizado. É preciso que todos sejam, no mundo ideal. Mas, como falamos de um mundo real, devemos ter estratégias próprias e uma delas é antecipar-se. Tem umas dicas boas no blog http://www.vidaorganizada.com da Thaís Godinho. Gosto dela pq aborda a organização possível na vida real, com um enfoque na qualidade de vida.
    Tem me ajudado bastante!
    Grande beijo

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    • Obrigado! :-)

      Eu sou desse time também haha Em casa só ligo o computador se for pra assistir desenhos ou Doctor Who! A não ser que tenha alguma coisa muito urgente que eu não tenha conseguido me organizar pra resolver antes…
      Eu aprendi várias coisas sobre organização nos cursos do Seiiti Arata; tem vídeos gratuitos dele aqui https://www.youtube.com/watch?v=JrDDaJ0Ruw0&list=PLRisaeHTE4Q1EoK8d_FeKmQr-pVfKOCBf (preciso assistir eles haha)

      Acho que antecipar-se é importante; e é importante não aceitar toda e qualquer tarefa, mesmo que alguém lhe diga que é sua obrigação. A não ser que essa pessoa também lhe diga que tarefa você pode deixar de fazer para fazer essa nova tarefa! Afinal, existe uma quantidade finita de coisas que podemos fazer em uma quantidade finita de tempo.

      Abraço!

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