Rotina, trabalho e saúde em tempos de crise

Vou parar um pouco de escrever sobre modelos estatísticos aplicados ao COVID-19, e falar um pouco sobre como viver nesses tempos :-)

Estamos vivendo tempos de crise, uma crise que tem tudo para ser prolongada e deixar sequelas, e sem que saibamos quanto tempo ela dure. Embora tenhamos previsões a respeito; mas é difícil prever um processo como a expansão de um vírus, afetado por fatores biológicos, econômicos, sociais, e especialmente quando muita gente não respeita as recomendações dos órgãos de saúde e algumas pessoas falar que não é algo tão sério assim.

E isso que eu acabei de falar faz a coisa parecer mais desesperadora, né? Talvez ela seja… Acho que não estou ajudando. Ou talvez esteja? Leiam para descobrir! :-)

Meu objetivo aqui é falar a minha visão de como lidar com a crise, a nível individual. Ou seja, o que cada pessoa pode fazer. Outras pessoas sábias já escreveram ou falaram sobre isso, nesse contexto específico; recomendo esse e esse texto de Marco Mello, e também esse vídeo de Seiiti Arata. E aqui nesse texto apresento a minha visão, que pode fazer sentido para você, ou pode não fazer, ou talvez seu contexto seja tão diferente do meu que essa visão nem se aplique. Mas, vamos lá :-)

…Eu sou uma pessoa que gosta de fazer várias coisas diferentes e aprender várias coisas diferentes, algumas das quais com pouca ou nenhuma relação com as outras coisas que eu faço. E uma dessas coisas é um curso de resgatista que estou fazendo e que provavelmente finalizaria este ano, se o coronavírus não atrapalhasse todos os planos. rs Nesse curso, voltado para profissionais do SAMU, bombeiros e outras pessoas da área (mas que também faz muito sentido para pessoas que fazem campo em locais remotos, ou mesmo nem tão remotos assim, porque segurança em campo é importante!), aprendi várias coisas importantes. Mas uma coisa que acontece sempre, e que chama a atenção, é que praticamente toda simulação começa com quatro palavras: “Cena segura e EPI”.

Cena segura: avalie a cena, o que está acontecendo, e tenha certeza de que você pode atuar nela em segurança. EPI: equipamentos de proteção pessoal, que precisam necessariamente ser utilizados.

A razão disso? Não adianta cuidar de alguém e se expôr desnecessariamente no processo; não adianta tentar resolver algo sem cuidar da sua própria segurança antes. A sua própria segurança deve vir em primeiro lugar.

E se expandirmos isso para outros aspectos da vida, a minha interpretação é que não dá pra ajudar alguém, ou resolver um problema, ou fazer algo se você não estiver suficientemente bem para isso. Cuidar de si mesmo, para com isso poder fazer coisas e ajudar pessoas. É como no avião: “Em caso de despressurização da cabine, máscaras cairão automaticamente. Coloque a sua própria máscara antes de ajudar outras pessoas.” Porque se você for colocar a máscara na criança que está do seu lado antes de colocar a sua, é provável que você desmaie no meio do processo (aprendi isso no curso de resgatista!).

Portanto, em tempos de crise, a minha primeira recomendação é: cuidar da sua saúde, física e mental. Do jeito que for possível. E também lembrar que todo mundo está no mesmo barco e passando pela mesma crise, ou seja, ter paciência e empatia e não fazer coisas que possam piorar o estado de outras pessoas. Tipo uma frase que li em algum lugar do instagram: É normal você não ser tremendamente produtiva ou produtivo em uma **** pandemia global.

É claro que a rotina mudou completamente. Mas é possível ainda Fazer Coisas que te façam bem. Atividades físicas são importantes. Interações sociais, na medida do possível, são importantes. Alguns aspectos dessas atividades precisaram ser cortados… O próprio ritual de ir para a universidade, ou ir para a academia, ou ir tomar açaí/sorvete/cerveja. Mas bom, ainda podemos nos vestir como se estivéssemos indo para a universidade ou para a academia, e assim fazer a nossa mente pensar que parte da rotina está sendo mantida. Ainda podemos fazer atividades físicas em casa (talvez improvisando um pouco dependendo da atividade!). Ainda podemos Fazer Coisas de que gostamos, que nos fazem bem e que são boas para a nossa saúde.

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Impedido de ir à academia, um Pavel realiza exercícios físicos em sua residência, usando um garrafão de cinco litros como um proxy para halteres.

Em termos gerais – fazer coisas que façam bem pra sua saúde, física e mental, é importante. E não é nada egoísta cuidar de si mesma ou si mesmo! Afinar, ter um colapso mental não faria bem pra ninguém, nem pra você nem pra quem está a seu redor. Períodos de crise podem ser favoraveis a colapsos mentais. Vamos evitar isso :-)

…Tem um episódio de Stargate Atlantis em que o personagem ouve uma profecia apocalíptica. Só que essa profecia não diz nada muito específico, como a data em que vai acontecer. Então ele fala algo nas linhas de “Bom, sabemos que isso pode acontecer; pode acontecer amanhã ou em dez anos ou em cem anos – então o que mudou? Não temos nenhuma informação adicional. Existe uma quantidade ótima de informação para tomada de decisão; qualquer informação adicional é ruído.” O que isso tem a ver com a situação atual? – Que não há muito motivo pra ficar lendo todas as notícias, especialmente as apocalípticas – isso provavelmente não vai lhe fazer bem. Mas também não é legal ficar totalmente por fora! Eu tenho procurado ficar relativamente informado sobre COVID-19 e seu avanço, mas só até um certo ponto. Acima desse ponto minha mente ficaria saturada. E mesmo quando em crise, existem aspectos da vida que não estão em crise. Vale a pena se apegar a eles (mais sobre isso algum outro dia, ou não…)

A meu ver, cuidar de sua própria saúde e de seu bem-estar é a prioridade maior, e um pré-requisito para poder fazer outras coisas… Que outras coisas? Poderíamos classificar elas em quatro grupos, sem uma ordem específica: 1) pessoas que podem precisar de seu apoio, aqui e agora – depois de cuidar da própria saúde, podemos fazer algo para cuidar da saúde de outras pessoas!; 2) atividades de rotina – coisas que devem ser feitas independentemente da crise, porque a vida continua depois dela – eu não poderia, por exemplo, deixar de lado minhas atribuições de orientador ou de revisor de artigos; 3) investimentos de longo prazo – não são atividades de rotina, mas são atividades que serão importantes no futuro, incluindo estudos e pesquisa científica sobre temas não relacionados à crise (bem que pesquisa científica é atividade de rotina para nós cientistas. Mas se a expectativa de publicação é provavelmente para 2021, também um investimento a longo prazo); 4) coisas que podem ser feitas para ajudar a resolver a crise.

Pensando especificamente nesse último ítem… Para algumas pessoas, ajudar a resolver a crise faz parte do trabalho delas. Profissionais da saúde; cientistas trabalhando diretamente em vacinas e remédios e modelando a propagação do vírus; tomadoras e tomadores de decisão. Para outras, não faz explicitamente parte das atribuições, mas isso não significa que coisas não podem ser feitas. A contribuição que eu consigo oferecer neste momento, por exemplo, são essas postagens no meu blog, as quais acredito serem úteis informando e talvez quem sabe se pá inspirando pessoas. Meus colegas Ricardo e Bruno são mais sensacionais do que eu e escreveram um artigo avaliando quais fatores explicam a propagação de COVID-19 em nível internacional, revelando a importância das conexões aéreas; vejam o artigo aqui e o texto de divulgação aqui. Outras pessoas tem contribuído divulgando ciência, ou informando e tentando convencer pessoas a ficarem em casa, ou arrecadando fundos para comunidades carentes… Enfim. Muita coisa a ser feita, e muita coisa que parte de iniciativas individuais. Na Academia estamos acostumados com iniciativas individuais – é delas que surgem projetos de extensão e de pesquisa. É possível aproveitarmos essa características nossa.

A minha sugestão em relação a isso, portanto, é: se você acha que pode contribuir com alguma coisa, faça isso! Mas se você acha que não pode contribuir ou que não está em condições de contribuir, tudo bem também, porque cuidar de si mesma ou si mesmo é o mais essencial, e porque nem todo mundo precisa estar ajudando. E lembrando que mesmo uma contribuição pequena é uma contribuição… Tipo quando Donna Noble insiste para o Doutor salvar uma pessoa. O que é uma simples pessoa para um Senhor do Tempo? (De acordo com ele, a coisa mais importante do Universo.)

E falando um pouco sobre outros aspectos… Um efeito colateral interessante que a crise teve para algumas pessoas foi um aumento no tempo disponível e na flexibilidade do trabalho. Enquanto para outras gerou uma carga maior ainda de trabalho e estresse… Então se você está no grupo das pessoas que está com mais tempo e maior flexibilidade, faz todo sentido aproveitar isso! É algo raro termos tempo para investir em escrita, por exemplo. E também é raro termos tempo para projetos paralelos, que não dizem respeito ao nosso trabalho principal ou à nossa pesquisa principal mas que são importantes (como discutido nesse texto aqui). Tentar transformar a crise numa oportunidade de crescimento. (E se você não tem transformar a crise em oportunidade, por qualquer motivo, não se sinta mal por isso! Eu diria que poder transformar a crise em oportunidade é um belo de um privilégio que boa parte das pessoas provavelmente não tem.)

É claro que mudar totalmente o ambiente de trabalho é desafiador… Algumas coisas que podem ser feitas na universidade, em um laboratório, em um escritório até não podem ser feitas em casa. Mas outras podem! A questão, então, é avaliar: que atividades podem ser feitas no meu ambiente atual? Como posso reorganizar ele para otimizar a realização dessas atividades?

Quando eu saí de São Carlos e vim para Ilhéus fazer pós-doutorado, eu decidi não trabalhar em casa (exceto se muito necessário); ao vir pra UFBA eu mantive a decisão. De modo que nem internet eu tenho, exceto pelo celular! Sou mais feliz assim :-) Quando a UFBA fechou, pedi a senha da internet pro vizinho, e ele gentilmente cedeu; mas a internet só pega bem mesmo em poucos lugares da casa, que não são os mais comfortáveis pra trabalhar. E mesmo assim demooora… O restante do tempo trabalho offline mesmo, usando os dados móveis e meu whatsapp ilimitado da Tim. E tenho conseguido produzir coisas assim! Trabalhar em artigos científicos, escrever textos pro blog, fazer algumas atividades de rotina… Existem muitas coisas que podem ser feitas offline! Às vezes é até mais fácil, há menos distrações.

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Um Pavel trabalhando em um notebook que está em cima de um microondas que está em cima de um frigobar quebrado (longa história), aproveitando a internet do seu vizinho extremamente gentil, no único lugar da casa onde essa internet funciona direito.

O que não quer dizer que eu esteja super produtivo. E não estou dizendo que você precisa almejar a ter o máximo de produtividade. O que estou dizendo é que é interessante avaliar que tipo de coisas você pode fazer na crise; e como você pode adaptar seu ambiente para fazer essas coisas; e então fazer essas coisas. Mas se cobrar pra ter o máximo de produtividade em meio a uma **** pandemia global seria estranho.

Então, resumindo, minhas sugestões, que podem fazer sentido para você ou não, são: Cuide de você, mental e fisicamente; e, se possível, cuide das pessoinhas a seu redor; e, se possível, trabalhe em coisas, sejam de rotina, sejam investimento a longo prazo, sejam projetos paralelos; e, se possível, pense em coisas que você possa fazer para ajudar a resolver a crise, e tente fazer essas coisas.

No mais, fiquem em casa :-)

18 pensamentos sobre “Rotina, trabalho e saúde em tempos de crise

  1. “se você acha que pode contribuir com alguma coisa, faça isso!” Você fez isso ao escrever esse post! Obrigada =) me sinto motivada e avaliarei o que eu posso fazer em meio a essa **** pandemia global =D

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  2. Ótimo texto, Pavel! A essência se resume a esta expressão: “Cena segura e EPI”. Precisamos cultivar essa mentalidade rotineiramente. Mas em tempos de pandemia ela se torna mais importante ainda.

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    • Obrigado, Mestre!
      Temos esse hábito de não nos cuidarmos na Academia, né? E falarmos de não se cuidar como se fosse algo normal. Quem sabe essa pandemia não sirva de estímulo para pessoas deixarem de tratar com tanta naturalidade o excesso de trabalho, os problemas psicológicos e os riscos desnecessários aos quais nos sujeitamos…

      Curtido por 1 pessoa

      • Pois é, uma crise global, como essa pandemia, sempre pode ser vista como uma oportunidade de nos reinventarmos. Quando tudo é bagunçado, as cartas são re-embaralhadas.

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  3. Parabéns pelo ótimo texto Pavel. Também tive que me adaptar para trabalhar em casa, o bom é que agora estou com tempo para voltar em trabalhos e projetos que estavam parados. O melhor de tudo é que estou conseguindo fazer atividades físicas também, algo que antes da pandemia já não fazia tinha muito tempo 😅

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  4. Muito bom texto Pavel! Totalmente de acordo. Precisamos, ao nos cuidar e cuidar dos que estão próximos, estabelecer um ritmo e aceitar as mudanças! Abraços.

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