Fazendo pesquisa em quarentena

…E aí você estava lá, feliz e contente, fazendo sua pesquisa de mestrado ou doutorado ou iniciação científica ou TCC ou alguma outra… E aí quando você finalmente tinha colocado o cronograma em dia… Tá, acho que exagerei, suspeito que a única forma de colocar um cronograma em dia é tendo uma TARDIS transformada em máquina de paradoxo… E aí quando você estava finalmente chegando relativamente perto de colocar o cronograma em dia, BANG, você está em quarentena, e seu caderno de dados está no laboratório (ao qual você não tem mais acesso), você não pode ir pra campo, as plantas que você precisava identificar e morfotipar vão ter que ficar em stand by por tempo indeterminado, você não tem lupa ou microscópio para examinar amostras e nem amostras você tem com você, seu computador é lentinho, seus últimos arquivos não estão na nuvem e nem acesso à nuvem você tem direito, e todos seus planos de quais seriam os passos seguintes para fazer sua pesquisa foram coronavírus abaixo.

O que fazer?

Lembrando que você não precisa manter uma super produtividade em meio a uma **** pandemia global e que é normal não se sentir bem e que um desespero pode vir… Recomendo inclusive esse texto aqui, escrito por uma pessoa com experiência em crises, dizendo pra você ignorar a pressão para ser produtiva/o. E também sem esquecer que cuidar de sua saúde é importante!

Mas bom, vamos supôr que você está conseguindo manter sua sanidade (ou resquícios dela) e quer trabalhar na sua pesquisa (talvez porque isso pode lhe ajudar a manter os resquícios de sanidade?), sendo que a maior parte das coisas de que você precisa para fazer ela não estão com você. E sim, você pode fazer pesquisa estando longe do seu grupo de pesquisa – uma parte importante do trabalho científico é feita de forma colaborativa, mas outra parte essencial é o input intelectual individual. E mesmo em tempos normais, grande parte de cientistas regularmente leva trabalho para casa (eu mesmo escrevi a minha tese quase inteiramente em casa), mas não é todo mundo (em tempos normais, é perfeitamente plausível, e provavelmente saudável, deixar para trabalhar no local de trabalho e deixar a casa reservada para outras coisas importantes, como dormir e tirar cochilinhos). Assim, se você já tinha na sua casa uma estrutura boa para trabalhar – legal! E se não tinha, é provável que possa se dar uma jeito… Veja esse texto sobre como trabalhar em homeoffice. Só não podemos assumir que outras pessoas tenham a mesma estrutura que nós.

Minhas recomendações neste texto, portanto, são para pessoas que estão impedidas ou quase impedidas de fazer as coisas que rotineiramente precisariam fazer para fazer pesquisa, mas que têm as condições mínimas necessárias para trabalhar – basicamente um computador, algum acesso à internet, eletricidade, um lugar para apoiar o computador enquanto trabalha nele e um ambiente em que você possa se concentrar para fazer seu trabalho (se necessário, com um fone de ouvido e ouvindo Megadeth em volume máximo). Ter uma cadeira é interessante mas opcional.

Inicialmente, eu diria que é preciso fazer um novo planejamento. Tipo um plano de contingência, feito depois que a contingência já começou. E para fazer um planejamento, é preciso definir 1) as coisas que precisam ser feitas, 2) a sequência em que essas coisas devem ser feitas, 3) quais dessas coisas podem ser feitas nas suas condições atuais, 4) como a ordem dessas coisas pode ser alterada para fazer as que podem ser feitas agora.

Pela minha experiência (fazendo pesquisa, orientando pessoas e ajudando pessoas), normalmente seguimos a seguinte sequência em uma pesquisa ecológica: planejar o estudo –> coletar os dados –> analisar os dados –> escrever.

Essa é uma sequência intuitiva, e pode parecer a mais lógica. Afinal, para coletar os dados precisamos planejar o estudo, certo? Certo! E para analisar os dados precisamos ter eles coletados, certo? Certo também! E para escrever o trabalho final, precisamos ter os dados analisados, certo? Também certo!

E consequentemente, para definirmos que análises iremos usar e como elas serão feitas, precisamos ter os dados coletados, certo? Errado! :-) O ideal inclusive é planejar as análises antes de coletar os dados. Existem alguns motivos para isso. Análises estatísticas têm premissas, como independência das unidades amostrais, a forma de distribuição dos dados etc. Algumas análises permitem lidar com algumas violações dessas premissas – mas elas não fazem milagres! E dependendo da análise que vai ser usada, o desenho amostral pode mudar. É frustrante coletar tudo e descobrir que devia ter feito uma coisinha diferente pra poder rodar a análise indicada.

Então se você não começou a coleta dos dados, é possível aproveitar este tempo para fazer um desenho amostral supimpa, e talvez até pensar em como coletar os dados mais rapidamente depois que a quarentena terminar. Isso inclui estudar desenho amostral, estudar sobre os processos e sistemas que você vai analisar, e também estudar estatística.

Mas digamos que você está na metade da coleta de dados, não tem como mais mudar o desenho amostral, e também não tem como analisar os dados que já foram coletados porque o caderno de campo está no laboratório ao qual você não tem acesso. Isso significa que você deve esperar até ter os dados coletados para começar suas análises? Novamente, não! Há muito que você pode fazer.

Primeiramente, estudar estatística você pode e deve, jovem Padawan; e aqui temos conselhos de Mestre sobre como fazer isso. Impedido de coletar dados, estudar estatística é uma forma de avançar com a sua pesquisa. Um erro comum, tipo muito comum mesmo, é chegar nos últimos meses antes da defesa ainda sem saber que análises usar. Fazer isso é estressante para você e talvez para quem esteja te ajudando com as análises. A quarentena pode ser uma oportunidade de se adiantar nessa parte: estudar e definir que análises serão usadas nos seus dados.

Você inclusive pode simular dados similares aos que você acredita que irá obter e rodar as análises neles. Não sabe simular dados? Bote número aleatórios em uma planilha de Excel e pronto. Você não tem como saber quais serão os valores que irá obter, mas você já deve saber como eles serão organizados e qual será a estrutura deles. Ou seja, quais serão suas variáveis resposta e suas variáveis explanatórias? Como elas serão dispostas em uma planilha? Qual a melhor forma de organizar a sua planilha, afinal? Você irá trabalhar com valores de cada indivíduo ou irá calcular valores médios por parcela? Há algum fator de não-independência ou pseudoreplicação nos seu desenho amostral? Se sim, como você irá lidar com isso?

Uma forma de planejar isso é definir claramente quais são exatamente as perguntas que você pretende responder; quais análises serão usadas para responder elas; e como você irá interpretar os resultados. Tipo, “Existe diferença entre tratamento e controle? Análise: teste-t por permutações. Interpretação: quanto mais baixo o p-valor, mais evidência tenho de que há uma diferença. Em quais circunstância essa diferença é maior? Teste: ANOVA, para testar a interação entre fatores. Intepretação: …. ” E normalmente você não precisa ter os dados coletados para fazer isso! Algumas decisões dependem dos dados em si, mas você também pode planejar isso: “Fazer uma análise de variância; extrair os resíduos e testar sua normalidade por Shapiro-Wilk; se a distribuição for normal (p > 0.05), continuar com a análise de variância, caso contrário fazer um teste de Kruskal-Wallis.” ou “Ajustar um modelo generalizado com distribuição de Poisson; testar superdispersão; se houver superdispersão, reajustar o modelo incluindo um parâmetro para superdispersão (“quasipoisson”); fazer um semivariograma dos resíduos; caso haja evidências de autocorrelação espacial, ajustar um modelo generalizado misto incluindo autocorrelação espacial.” Assim, quando chegar a hora de efetivamente analisar os dados, você saberá exatamente o que fazer!

Você inclusive pode rodar estas análises sobre os seus dados simulados, para se familiarizar com o software de escolha. E se você for usar um software baseado em linha de comando, como o R, melhor ainda: você pode deixar o código pronto, incluindo até mesmo a criação de figuras e tabelas nele. Deixar um código pronto e bonitinho para rodar análises, gerar figuras e gerar tabelas dá um trabalhinho, tipo alguns meses. Se você fizer isso agora, depois que terminar de coletar os dados vai ser só inserir eles, e os resultados, figuras e tabelas ficarão prontos quase instantaneamente. Acredite, você não vai se arrepender de ter preparado o código antecipadamente.

E outra coisa que pode ser feita durante a quarententa é estudar e escrever! No mínimo dá pra escrever a introdução e os métodos do trabalho. E você pode inclusive preparar a estrutura dos resultados (de modo que vai ficar faltando inserir os valores, figuras e tabelas) e talvez ate escrever versões possíveis da discussão. Por exemplo, digamos que você está estudando o efeito de borda sobre as plantilhas de um ambiente qualquer. Quais são os resultados possíveis? Bom, pode não haver efeito de borda. Ou pode haver efeito de borda fraco. Ou pode haver efeito de borda forte. Ou pode ser que o efeito de borda varie entre diferentes plantilhas (por exemplo, ter efeito de borda sobre gramíneas mas não ter sobre árvores). Como você discutiria cada uma dessas possibilidades? Você já pode escrever isso! Preparar rascunhos da discussão para cada uma das possibilidades que você pode encontrar. E mesmo que você encontre algo diferente, escrever esses rascunhos será um ótimo treino!

Não tem acesso a artigos para estudar? Algumas universidade oferecem acesso remoto; na UFBA, por exemplo, isso é feito por virtual private network (VPN) e tem as instruções aqui. É preciso ter (ou solicitar) um email institucional e solicitar cadastro para acesso VPN. Na UFSCar eu usava um proxy que também me permitia baixar artigos de casa. E mesmo que não dê certo, existe Google Scholar, existe Sci-Hub… Pode ser mais difícil fazer uma pesquisa sistemática sem o Web of Science, mas é possível.

Voltando ao plano de contingência, minhas recomendações seriam, então, planejar seu estudo de estatística, seu planejamento das análises, seu estudo e sua escrita. Essas coisas podem ser feitas simultaneamente; principalmente em relação à escrita, é interessante que ela seja algo constante, e não deixada para o final – afinal, escrever é difícil, e quanto mais você escreve mais fácil fica escrever, e quanto mais você escreve melhor você fica na escrita, então mesmo que você não aproveite o material que escrever agora, terá servido como prática!

E se você tiver feito isso tudo e a quarentena não tiver acabado ainda, sempre dá pra escrever um artigo de revisão :-)

10 pensamentos sobre “Fazendo pesquisa em quarentena

  1. Pingback: Sobre trabalhos de revisão – Mais Um Blog de Ecologia e Estatística

  2. Pingback: Escrevendo trabalhos de revisão – Mais Um Blog de Ecologia e Estatística

  3. Pavel conheci teu blog em um evento no Ibio, no qual tu apresentou teus trabalhos, e visito aqui para tirar dúvidas sobre estatística. Esse teu texto não poderia ter vindo em melhor hora, te agradeço e parabéns pelo blog!

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