Atividades não-acadêmicas úteis academicamente

Caso você prefira ouvir ao invés de ler esse texto, uma versão em áudio (mp3) está disponível clicando aqui 🙂

Já repararam como na Academia frequentemente nos referimos a qualquer atividade não-acadêmica como procrastinação? Sendo que às vezes nem é. Muitas vezes não é! Parafraseando Iron Maiden, there’s a time to work and a time to rest (ou seja, existe um tempo para trabalhar e um tempo para descansar). Não é porque alguém não está trabalhando na sua tese ou artigo ou preparando aula ou participando de reunião ou estudando que a pessoa está procrastinando – não dá pra trabalhar o tempo todo, a não ser por curtos períodos, e ter uma vida também faz bem pro Lattes! E cuidar da saúde, física e mental, é legal.

Mas esse não é mais um post pra reforçãr que você não precisa trabalhar horas infinitas, que existe vida fora do trabalho, e que podemos aumentar nossa produtividade se organizarmos bem o tempo e matermos um foco no trabalho enquanto estivermos de fato trabalhando, sem ter que trabalhar até a exaustão e abdicar de outras atividades. Aqui venho discutir um pouco sobre como atividades que aparentemente não tem nada a ver com a vida acadêmica podem nos auxiliar em diferentes aspectos do nosso trabalho, ajudando a nos tornar profissionais melhores. Inclusive tem um post no Dynamic Ecology, com vários comentários interessantes, discutindo isso, dêem uma olhada clicando aqui!

É saudável separar a vida profissional dos outros aspectos da vida; tal separação pode nos ajudar a manter resquícios de sanidade. Mas nós não somos seres modulares separados em caixinhas que não interagem entre si. Não existe um Pavel cientista separado de um Pavel metaleiro* separado de um Pavel escritor – existe um Pavel que ouve power metal enquanto escreve um texto sobre como se faz ciência para um blog. As coisas que fazemos e que somos interagem entre si e, portanto, coisas não-acadêmicas que fazemos, que à primeira vista não têm nada a ver com fazer ciência ou com ensinar ou com orientar ou com qualquer atividade profissional, podem nos ajudar, e muito, a exercermos melhor essa atividade.

Reparem que não estou falando que todas as nossas atividades devem ser direcionadas a aumentar nossa produtividade. Mas se podemos unir o útil ao agradável, por que não fazer isso? No mínimo vai ajudar a tirar o peso da consciência por estar desenhando/fazendo suburi/escrevendo poesia ao invés de estar escrevendo um artigo.

Vou dar aqui alguns exemplos da minha própria experiência, e eu adoraria ver relatos das suas experiências nos comentários 🙂

A primeira atividade que me vem à mente é a prática de artes marciais. Sim! Mas Pavel, o que artes marciais podem ter a ver com fazer ciência? Bom, à primeira vista aparentemente nada, né? A não ser que seja um trabalho científico sobre artes marciais. Mas a prática de artes marciais é boa para desenvolver algumas capacidades muito úteis para outros aspectos da vida. Por exemplo, a capacidade de manter foco ou concentração em alguma coisa. Eu pratiquei Aikido e Kendo durante alguns anos, e capoeira regional depois disso. Uma prática de Aikido ou de Kendo começa com um período de concentração; para mim era uma forma de focar no treino, e depois focar no que eu ia fazer ao longo do dia. E manter um foco durante o treino é importante! Em alguns casos muito, muito importante. Por exemplo, ao treinar Kendo Kata, no qual se você estiver distraída/o você pode dar um belo golpe na testa do amiguinho com uma espada de madeira. Acredito que deve doer bastante – no amiguinho e na sua consciência! 🙂 Nunca vi isso acontecer, o que talvez indique que o pessoal realmente mantem um bom foco no treino.

Então, se aplicarmos o foco e a disciplina que artes marciais requerem para outros aspectos do nosso trabalho, poderemos trabalhar melhor, com melhores resultados em menos tempo. Para mim, que tenho bastante dificuldade em manter o foco, a prática de artes marciais foi de grande ajuda.

E, falando agora como ecólogo de campo, saber usar uma espada também aumenta sua habilidade com o uso do facão para abrir trilhas. 🙂

Outra atividade que me vem à mente é jogar RPG. Sim novamente! Para quem não sabe, RPG, ou role-playing game, é um jogo em que você interpreta personagens, descrevendo suas ações e falando com as suas palavras. Idealmente você se transforma mentalmente no seu personagem. Deixa de ser você e passa a ser outra pessoa, dentro do jogo. Eu jogava RPG nos tempos de ensino médio e graduação, e depois no doutorado; não tanto quanto gostaria, mas jogava. E eu sempre fui uma pessoa tímida e introvertida. E pra uma pessoa tímida e introvertida não é muito fácil apresentar um seminário perante uma plateia de colegas. Só que quando eu comecei a apresentar seminários, a experiência de jogador de RPG entrava em cena. E para apresentar um seminários, eu assumia o papel de um personagem que não era tímido e que conseguia falar diante de uma plateia sem dificuldades. Era como se a pessoa apresentando não era eu, e sim uma outra pessoa, a qual eu estava apenas interpretando. Funcionou! Acho que usso essa técnica até hoje para dar aula. De modo que acho que jogar RPG me tornou um professor melhor!

Eu também cantava em coral. Por um lado, eu usava a mesma técnica de RPG para vencer o medo de palco, até isso se naturalizar. Por outro lado, canto (e atividades como teatro) te ensinam a posicionar a voz de modo a cansar menos, o que é bem útil quando se dá aula por longas horas.

Outra coisa que foi muito útil para eu me tornar um professor melhor foi ter trabalhado com educação ambiental, guiando visitas no cerrado da UFSCar. Eu não fiz licenciatura, mas o aprendizado de dez anos guiando visitas foi bastante relevante. Em uma visita, não dá pra ter tudo perfeitamente planejado, pois um grupo de saguis pode aparecer justo quando você está dando uma super explicação sobre por que as plantas do cerrado têm folhas peludas, e você vai ter que mudar o roteiro. Assim como você pode precisar mudar o roteiro de uma aula por algum motivo. Ter feito atividades que te ajudem a ser mais adaptável pode ajudar nisso.

E falando em atividades que te tornam mais adaptável, uma outra coisa que me vem à cabeça é a arte de ser palhaço – chamada de palhaçaria, ou a arte do clown. Talvez um dia eu consiga escrever em detalhes sobre isso. Mas algo que aprendi em cursos de palhaço que fiz é que se você não acredita no que está falando ou fazendo, a plateia também não vai acreditar; e também algo sobre como lidar com situações inesperadas sem que o espetáculo perca qualidade. Transferindo isso pra vida acadêmica, o espetáculo é a aula, o minicurso, a palestra ou qualquer outra coisa que ministramos. Às vezes você chega pra dar aula e o data-show encontra-se tal como o segundo par de asas de Diptera (ausente), ou a energia acaba, ou acontece qualquer outra coisa que te obriga a ministrar aquela aula no improviso. Qualquer coisa que te prepare para lidar com tais situações é útil.

Escrever e ler coisas não-acadêmicas também pode aprimorar sua escrita acadêmica. Para escrever bem não basta ler muito, mas ler é importante; e não apenas ler coisas acadêmicas, mas ler coisas, de qualquer tipo, escritas por pessoas que sabem escrever o tipo de coisa que elas escrevem. Eu diria que ler literatura em geral pode lhe ajudar a melhorar sua escrita; e escrever coisas em geral – crônicas, poesias, ensaios, textos para blogs… – melhora sua escrita mais ainda. Você pode até incluir elementos do estilo de seu escritor ou sua escritora favorita nos seus próprios textos. Uma das principais atividades de cientistas é escrever, e quanto mais escrevemos, melhor conseguimos escrever. Eu inclusive sinto que a prática de escrever para o blog me ajudou muito nas provas de conhecimento dos concursos que prestei.

Enfim, dá pra pensar em muitos outros exemplos. Se você desenha, isso pode te ajudar a fazer figuras muito mais lindas para seus artigos. Atividades físicas te ajudam a trabalhar em campo, por vezes fazendo coisas altamente específicas como coletar formigas lá no topo das árvores ou detritos sobre bichinhos bentônicos. Se você costura, você pode fazer suas próprias armadilhas malaise para capturar insetos. E assim por diante…

Então, concluindo… Não é porque algo não tem relação direta com a sua atividade acadêmica que ela não pode ser útil para tal atividade. Pode ser interessante investir nessas diferentes formas de aprimoramento. O que não quer dizer que você só precisa fazer coisas que tenham relação com seu trabalho! E mesmo que não haja relação, fazer tais atividades vai lhe deixar feliz, o que, além de ser muito bom por si só, provavelmente vai aumentar sua produtividade enquanto estiver trabalhando! Às vezes não estar trabalhando é sim procrastinação. Mas às vezes nem é!

* Headbanger é na Inglaterra e em todas nações que falam a língua do inglês, se você vive nesse país respeite a sua pátria, pratique o bom português! – Detonator

3 pensamentos sobre “Atividades não-acadêmicas úteis academicamente

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s