O que Cavaleiros do Zodíaco nos ensinam sobre Fazer Ciência

Estou assistindo Cavaleiros do Zodíaco (tinha assistido vinte e cinco anos atrás, então acho que não conta como reassistir), e, eu sendo eu, tem me feito pensar em várias coisas relacionadas ao nosso Fazer Ciência – na verdade a consolidar melhor algumas ideias – e, eu sendo eu, é claro que isso ia virar um post no blog né :-)

(E é claro que vai ter alguns spoilers; especificamente, spoilers até a Casa de Virgem, que é até onde assisti até o momento).

Pois afinal, será que percorrer as Doze Casas para chegar à Sala do Mestre, em doze horas, é tão diferente de fazer uma pós-graduação e realizar algunas trabalhos científicos, em dois ou quatro anos? (Sim. É muito diferente. Mas poxa, deixa eu fazer umas analogias que podem não fazer sentido pra chegar a alguma conclusão que talvez faça!)

Para quem não assistiu não lembra, neste arco, os Cavaleiros de Bronze precisam atravessar doze casa, cada uma das quais protegida por um Cavaleiro de Ouro – muito mais fortes que os de bronze – e precisam fazer isso em apenas doze horas… Ou seja, sem tempo pra descansar e recuperar as forças e fazer uma manutenção nas armaduras. Tipo, sabe aquele período que você precisa entregar um relatório atrás do outro, escrever artigos no meio do tempo e ainda participar de quarenta e duas reuniões? Tipo isso. E é claro que nossa saúde mental e física vai sofrendo no caminho…

Aí chegam aqueles momentos que o Caveleiro de Bronze foi atingido por um golpe que devia ter estraçalhado a armadura dele, e parece derrotado, a ponto de desistir. Mas, de repente, ele se lembra daquilo pelo que está lutando… Tem pessoas que dependem dele, e tem uma tarefa que ele precisa cumprir antes de sucumbir. Ele não pode desistir agora! E assim, contra todas as expectativas (do seu oponente, não dos espectadores) ele se levanta e encontra forças onde não havia mais e consegue vencer a luta!

O que isso tem a ver com pesquisa científica? Bom, nada Que muitas vezes precisamos nos lembrar de por quê estamos fazendo aquilo. Existe algo que consideramos importante, e é para isso que trabalhamos. Não é simplesmente para entregar um relatório ou ter um título… Quer dizer, às vezes é; mas mesmo que seja, o que nos mantem seguindo em frente? Qual é a nossa inspiração final? Às vezes podemos perder ela de vista, e aí o trabalho vira apenas trabalho e o excesso de trabalho vira apenas algo sem sentido… E então pode ser hora de lembrar qual é o nosso propósito para, assim, cumprir a tarefa.

O que não quer dizer que precisamos fazer isso sempre! Vocês lutaram sem parar e estão cansados. Descansem pelo menos alguns dias. Não há armadura e cavaleiro que aguente. Você não está em condições, Seiya! Você precisa descansar e se recuperar! É importante lembrar disso; e é mais importante ainda que a pessoa coordenando o trabalho – chefes de colegiados, orientadoras e orientadores – lembrem disso e às vezes falem para pessoas descansarem e se recuperarem. Isso é uma questão de cuidar da saúde física e mental, e também é uma questão de conseguir cumprir com as tarefas. (Acho tão legal quando o chefe de um Colegiado de que faço parte fala isso, eu tenho uma tendência a trabalhar até a exaustão se há prazos para serem cumpridos.)

Ao percorrer as Doze Casas, os Cavaleiros de Bronze têm uma missão conjunta: chegar à Sala do Mestre a tempo. Mas, além disso, cada um deles tem o seu próprio objetivo pessoal, de crescimento ou aprimoramento ou, por que não, formação: despertar seu Sétimo Sentido para atingir o Cosmos máximo. E isso é algo que cada um deve fazer sozinho. E na verdade foi isso que me fez pensar em pesquisa científica e em grupos de pesquisa: em um grupo de pesquisa, pode haver um projeto geral, e é um trabalho em equipe atingir os objetivos deste projeto. Mas, ao mesmo tempo, o foco é na formação de cada membro do grupo. Cada um e cada uma precisa despertar – em grande parte por conta própria – seu Sétimo Sentido e aprender aquilo que está lá para aprender. É uma combinação entre o trabalho coletivo e o trabalho individual; e os dois são importantes. Pensando especificamente em pós-graduação – muito, acho que a maior parte, é esforço individual, por mais que exista um trabalho coletivo também muito importante. E alguém pode até te dar conselhos ou te ajudar em algum aspecto, mas o crescimento e o esforço individual é algo essencial. Existem coisas que ninguém pode nos ensinar e ninguém pode fazer por nós.

O que não quer dizer que precisemos fazer tudo por conta própria. Eu inclusive acho que isso seria praticamente impossível numa pesquisa ecológica. Às vezes algo só pode ser resolvido por um trabalho em grupo, com uma corrente tirando o oponente do kamae e dois golpes simultâneos congelando seus braços. E às vezes, em uma batalha um a um contra um oponente muito mais forte, aquela ajuda vinda de fora lhe dá as forças para seguir em frente ou lhe mostra algo que você não conseguiria ver por conta. E isso não tira nem um pouco o mérito da vitória! Não é por ter recebido alguma ajuda que a batalha ou a vitória deixou de ser sua. Eu ao menos acredito que, por mais que o trabalho de pesquisa seja um esforço individual, alguma ajuda externa quase sempre é necessária.

E por outro lado, é necessário respeitar quando alguém não quer ajuda, porque é importante fazer aquilo por conta própria. Pode até ser como um rito de passagem, ou algo que alguém precisa fazer porque sente que precisa conseguir fazer isso. Então se alguém diz Afaste-se. Essa batalha é minha., o melhor a fazer é respeitar esse desejo… Senão estamos impedindo o crescimento alheio, né? (Eu ainda estou trabalhando nisso, para falar a verdade)

Outro aspecto muito legal desse arco é a questão da confiança. Eu confio em Shun. Ele vai aparecer! E também cumprir as coisas que pessoas cumpram que você faça. Em um trabalho em equipe, é preciso confiar que os outros membros do grupo façam o que precisam (o que não implica não manter um controle de qualidade! Confie, mas confira, como dizem na Rússia.), e também cumprir o que se espera que você faça. Por exemplo, se um projeto depende da identificação de algumas espécies e uma pessoa disse que vai identificar – confiemos na pessoa. Projetos de pesquisa maiores exigem uma divisão de tarefas e frequentemente um compartilhamento de dados entre os membros, e aí se não confiarmos que a pessoa fará o que prometeu, e se não cumprirmos o que prometemos, vai ser difícil o trabalho progredir no tempo certo. (E aí entra outra questão: não prometer mais do que conseguimos cumprir. Acho que não aprendemos tanto isso quanto deveríamos; eu estou ainda muito no processo de não me comprometer com mais coisas do que consigo cumprir).

E falando em confiança, e em trabalho individual, e em trabalho coletivo, e em receber ajuda para o trabalho, e juntando tudo isso numa coisa só… Temos, então, quatro coisas: o objetivo geral que precisa ser atingido, pelo grupo; o objetivo individual de cada um e cada uma; o tipo de coisa que cada pessoa pode se comprometer a fazer; e o tipo de coisa que cada pessoa deve fazer por conta própria, em oposição ao tipo de coisa que pode receber auxílio. Afinal, não faz muito sentido esperar que cada pessoa seja especialista em tudo, assim como não esperamos que Shiryu aprenda a esfriar o ar como Hyoga faz. Por exemplo, vamos pensar em um trabalho hipotético de ecologia de paisagens de interações inseto-planta. A coleta de dados para um estudo assim requer vários passos. Primeiro, é preciso ter algum mapa temático da área de interesse; existem mapeamentos que podem ser baixados, mas pode ser necessário verificar a qualidade deste mapa (se o detalhe corresponde à nossa escala de análise) e realizar possíveis correções nele. Depois, é necessário definir pontos pela paisagem, calcular as métricas de interesse nesses pontos, e selecionar os pontos que serão de fato amostrados. Para essas duas etapas, precisamos de conhecimentos de sistemas de informação geográfica, ecologia de paisagens, e uso de softwares apropriados, além de conhecimentos de desenho amostral. Escolhidas as paisagens, podemos precisar de um mapeamento mais refinado nelas, pois os mapeamentos disponíveis podem estar desatualizados ou não estarem na escala apropriada para o nosso estudo. Para isso, podemos precisar baixar imagens de satélite, avaliar se elas precisam de alguma correção (normalmente não precisam mas vai que), e fazer classificação de imagens (automática ou manual). Aí vem a parte de coleta de dados em campo, e partindo da premissa que não se faz campo sem companhia, a possibilidade de fazer um trabalho totalmente por conta própria já é excluída aqui. De qualquer modo, mesmo que a coleta de campo não precise de conhecimentos muito especializados, é importante ter conhecimento sobre o grupo de interesse, ou consultar especialista no grupo de interesse, para garantir que os dados serão coletados de forma válida. E tendo coletados os dados, entra a parte de morfotipagem e identificação… Por exemplo, morfotipar e identificar as plantas, separar os insetos em ordens, morfotipar os insetos das ordens de interesse, e identificar esses insetos. (Isso tudo depois de prensar as plantas e possivelmente alfinetar os insetos) E depois, finalmente, precisaremos analisar os dados, o que pode requerer conhecimento de análises estatísticas avançadas, por exemplo modelos de efeitos mistos com autocorrelação espacial ajustadas por máxima quase-verossimilhança penalizada. :-)

Bom, eu pessoalmente acho difícil uma pessoa dominar os conhecimentos de SIG necessários pro cálculo das métricas, de sensoriamento remoto necessários pro mapeamento, de botânica pra identificar as plantas, de entomologia pra identificar os insetos, e de estatística para fazer todas as análises e ter plena confiança de que elas foram feitas corretamente. E não acho que faça sentido esperar que uma pessoa faça tudo isso por conta própria! O que faz sentido é ter definido, a priori, quais aprendizados entram nos objetivos pessoas da pessoa, e quais atividades podem ser feitas por outras pessoas (que podem ser colegas do mesmo grupo de trabalho, ou especialistas de outros grupos, ou alguém que pagamos para fazer um serviço, ou pessoas legais em geral, ou qualquer combinação das anteriores). Ter uma parte do trabalho feita por outra pessoa não tira nada o mérito do trabalho que é seu – assim como não esperamos que os Cavaleiros de Bronze consigam consertar suas próprias armaduras; neste caso, a ajuda de um especialista acaba sendo essencial. No meu doutorado, por exemplo, eu fiz essencialmente tudo por conta própria (com ajuda de ajudantes de campo sensancionais e incríveis), mas precisei recorrer a especialistas para identificar as plantas depois que eu as tinha morfotipado, porque o tempo simplesmente não era suficiente para fazer os campos, morfotipar as plantas, aprender a programar em R, aprender sobre wavelets e escrever as outras coisas, e porque aprender a correr chave e identificar plantas não fazia parte dos meus objetivos pessoais.

O importante, mesmo, é definir o tipo de coisa que você quer aprender… E se aprimorar nisso. E por vezes, pode ser melhor dominar bem uma coisa do que dominar mais ou menos várias. Afinal, a maior parte das batalhas é vencida com Meteoros de Pêgaso ou com a Cólera do Dragão. Não há necessidade de dominar golpes mil – dominar um ou dois, mas dominar a fundo, pode ser melhor. Isso se aplica, por exemplo, a análises estatísticas: o mesmo problema pode ser abordado de diferentes maneiras e pode ser melhor dominar a fundo uma abordagem de análise do que ter um conhecimento superficial de muitas sem dominar nenhuma a fundo. Embora ter um conhecimento superficial de muitas pode ser útil para ajudar pessoas: “Olha, eu acho que você pode usar árvores de regressão pra responder essa pergunta, aí sugiro você estudar elas, mas eu nunca as estudei a fundo então não posso ajudar mais.”

E, finalmente, entra a questão da experiência… Um golpe não é eficaz contra um Cavaleiro que já o tenha visto. Um erro em R não assusta alguém que já tenha visto este erro :-)

Então, resumindo, o que os Cavaleiros do Zodíacos podem nos ensinar sobre como fazer pesquisa científica? Eu diria que é, antes de tudo, buscar sempre o aprimoramento pessoal, e lembrar sempre dos motivos que nos levam a fazer o que fazemos; e lembrar sempre que muito do que fazemos é esforço individual, mas não é nenhuma vergonha receber ajuda, e ter uma ajuda em alguma parte do trabalho não tira em nada seu mérito ao cumprir ele. E que quanto mais nos aprimoramos em algo, mesmo algo específico, mais eficientes nos tornamos; embora por vezes uma técnica nova pode ser necessário em um caso. Cometa de Pêgaso!

(Agradeço Juliana Silveira por sugestões sobre o trecho de ecologia de paisagens!)

6 pensamentos sobre “O que Cavaleiros do Zodíaco nos ensinam sobre Fazer Ciência

  1. Sensacional este post! Mais nerd e noventista, impossível, hahaha! O seu conselho mais importante, na minha opinião, é este aqui: “[…]muitas vezes precisamos nos lembrar de por quê estamos fazendo aquilo.” Manter a motivação clara na mente é crucial para um monte de coisas na vida profissional e na vida pessoal. Essa clareza influencia até mesmo nossas relações interpessoais, sendo uma das chaves da comunicação não-violenta. ;-)

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  2. Excelente texto! Bem otaku, nerd e inspirador (*^▽^*) E sim, gosto da mensagem de descansar e parar para respirar, “reparar sua armadura”. Nós pós-graduandos, muitas vezes, esquecemos disso.

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