Os sons da natureza, ou a natureza dos sons?

Este é um post convidado, escrito por Tamires Fernandes Oliveira, Bióloga e Especialista em Ensino de Ciências pela UERJ, mestranda em Ecologia e Conservação da Biodiversidade pela UESC, “apaixonada pela ciência, e, não menos importante, louca por baleias, rs.” Ela também tem um instagram bem legal sobre baleias, recomendo! @baleionautas Tamires, muito obrigado pela contribuição! :-)

Você já parou para ouvir os sons à sua volta?

Experimente um dia, fechar os olhos e observar os sons. Talvez escute até o seu coração batendo. Se você ouvir um riacho, o barulho do vento, pássaros e insetos cantando – onde você está?

Na floresta!

Agora, se você ouve buzinas, vozes de muitas pessoas ao mesmo tempo, motores de carros – onde você está?

Na cidade!

O som é uma fonte rica de informação. Nós conseguimos identificar o ambiente ao nosso redor através da audição.

A comunicação acústica evoluiu em diversos grupos animais, como insetos, aves, anuros e mamíferos, e a ciência que estuda a comunicação animal através dos sons é a bioacústica.

A bioacústica pode ser definida como o uso do som para o estudo do comportamento dos animais, incluindo como e quando o som é produzido, quais são as características do meio em que ele se propaga, e como os animais recebem o som. Devido a diversas características da onda sonora, sua velocidade muda com o ambiente. Na água, por exemplo, a velocidade do som é 3 vezes maior que no ar.

Nós humanos nos comunicamos através da linguagem, temos diversos idiomas, e para alguns pesquisadores, o desenvolvimento da fala, da audição e a resposta aos sons é o que fez nossa sociedade evoluir tanto.

Porém, outros animais também emitem uma série de sons.

Aves, anfíbios, insetos e alguns peixes, por exemplo, emitem sons para encontrar seus parceiros e defender seus territórios. Macacos podem gritar para se comunicar dentro do grupo, informar onde podem encontrar água ou comida.

Cada espécie possui a capacidade de ouvir de acordo com os sons que os membros da própria espécie emitem, para que, obviamente, a comunicação seja possível.

Mas nem sempre os sons emitidos pelos animais são percebidos por nós. Os golfinhos e os morcegos, por exemplo, emitem ultrassons, que são mais agudos que o ouvido humano é capaz de ouvir. Já as baleias e os elefantes emitem sons graves, os infrassons, que o nosso ouvido também não é capaz de ouvir.

A determinação de infra e ultra sons vem das características da onda sonora. É aí que a equação da bioacústica cresce: entra a física.

A física mostra as características da onda sonora, como amplitude, frequência, fase, período. Esses conceitos são fundamentais para o estudo dos sons.

Para a interpretação dos dados acústicos, o som é transformado em uma imagem: o espectrograma. No espectrograma o eixo y mostra a frequência (número de oscilações da onda sonora por unidade de tempo), o eixo x o tempo, e as cores representam a intensidade do som. Quanto mais intensa a cor, mas intenso é o som.

O conjunto de sons que cada animal produz tem um formato específico. Então, para analisar o espectrograma, é preciso conhecer os tipos de sons que as espécies emitem. No entanto, até o momento, sabemos os tipos sonoros de poucos animais. Conhecemos menos ainda os sons das espécies do ambiente marinho!

Os sons de ecolocalização emitidos pelos cetáceos, ou clicks, como mostrado no espectrograma abaixo, tem essa configuração em linhas verticais.

Espectrograma mostrando os sons emitidos pela Orca – Orcinus orca para exploração do ambiente através do som – Ecolocalização. Fonte: Discovery of Sound in the Sea

A bioacústica é uma disciplina dentro da área de comportamento, que foca em uma ou poucas espécies. Mas se você quiser ter uma visão mais ampla de um ambiente, sob uma abordagem sistêmica, incluindo os sons não só dos animais, mas os sons gerados pela natureza e por nós humanos, então nós entramos no campo da Ecologia de Paisagens Acústicas.

A Ecologia de Paisagens Acústicas é um novo braço da ecologia que integra conceitos da física, da música, da arquitetura e da psicologia. Cada ambiente possui uma identidade acústica, formada pela interação das diferentes fontes sonoras – a zoofonia, os sons dos animais, a geofonia, os sons da natureza, e antropofonia, os sons gerados pelo homem. Todos esses sons compõem a paisagem acústica, ou soundscape.

Essa área busca responder de que maneira cada fonte sonora ocupa o espaço acústico, que período do dia e do ano as espécies são mais ou menos ativas.

Atualmente o desafio é encontrar metodologias para monitorar os ambientes e entender de que forma os ruídos provenientes de atividades humanas, tanto no ambiente terrestre quanto marinho, podem impactar e alterar o comportamento dos animais.

Para quem se interessou, eu recomendo o site Discovery of Sound in the Sea – Um site que ensina sobre acústica, bioacústica, ecologia acústica, dentre outros tópicos da área, com foco nos oceanos. Ele é desenvolvido pela Universidade de Rhode Island (EUA).

Como uma pessoa louca por baleias, eu tenho um instagram de divulgação científica sobre cetáceos: @baleionautas

Muito obrigada pelo convite, Pavel. Fiquei muito feliz e foi um grande prazer!

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