Sobre perdas, e sobre empatia, no meio acadêmico

Por que estou escrevendo este post, e por que estou escrevendo este post hoje? É uma boa pergunta, na real; deve fazer, o que, dois anos? que estou pensando em escrever isso; desisti e des-desisti mais de uma vez, e sempre fiquei esperando uma data melhor pra escrever sobre isso; mas aí quando a data chegava, eu não queria. Existem coisas que são difíceis de serem escritas – mas que precisam ser escritas mesmo assim; porque se nunca ninguém as escrever, a única forma de ter contato com elas vai ser por experiência própria; que é uma experiência que é provável que tenhamos na vida, ou que conheçamos alguém que a tenha, e talvez – ênfase no talvez, porque cada experiência é única – ter lido as palavras de alguém que passou por algo pode ser de alguma valia. Ou talvez não.

E às vezes escrever sobre algo pode ser um rito de passagem que nos permita lidar melhor com aquilo; mas é difícil. Anos podem ser necessários pra conseguir escrever sobre algo, e existe a possibilidade de eu apagar tudo e não publicar isso antes de terminar (se você está lendo isso, aparentemente eu decidi publicar no fim das contas).

Sim, estou falando de quando se perde alguém próximo; não sobre como lidar com isso, porque anão acho que duas pessoas lidariam com a mesma perda da mesma forma; mas, experiências são importantes e relatar elas também pode ser. E talvez você conheça alguém que tenha passado por uma perda recentemente; minha esperança é que minhas palavras possam ajudar a entender um pouco sobre o que a pessoa pode estar passando. Ou talvez não, porque cada experiência é única…. Então, vou aqui falar sobre a minha e como (não) consegui lidar com ela. Meu objetivo é, basicamente, tentar mostrar como é passar por uma perda, e acho que também escrevo porque nós esquecemos tanto do lado humano da vida acadêmica e das experiências que pessoas tiveram – mas são coisas importantes, que definem o que alguém faz e o que alguém é. E é importante falar disso, e pensar nisso, inclusive porque nunca temos como saber o tipo de coisa pelo que alguém pode estar passando e é interessante ter em mente as diferentes possibilidades. Empatia é importante, e não é trivial quando não se discute certas coisas no mundo.

Sinta-se livre para não continuar lendo :-)

Time what is time? He saw it clearly, it’s too late. It doesn’t heal, but it lets us forget. Mas talvez não esquecer, em si; não esquecer, mas parar de pensar sobre algo o tempo todo. Passar do plano de frente para um background, e assim voltar à rotina e conseguir fazer as coisas que devem ser feitas e que faz bem fazer. Agora imagina um cenário em que você precisa escrever uma tese de doutorado, para a qual você precisa ainda coletar os dados, e para coletar os dados você precisa pensar (Pera, isso é uma gramínea ou uma ciperácea? Que classe de tamanho a coloco? 50 ou 75% de cobertura?), mas tipo só metade do seu cérebro está funcionando, e em alguns períodos nem isso… Enquanto a outra metade, ou mais, está ainda tentando entender algo que aparentemente não evoluímos pra conseguir entender.

Era um domingo, em julho de 2012, metade do meu doutorado; eu estava em casa, alternando entre jogar Doom II e trabalhar no relatório de uma disciplina, quando tocou a campainha. Era um amigo do meu irmão, me avisando que meu irmão tinha tido um acidente de bicicleta e morrido. Mas não vou falar aqui daquela noite nem dos próximos dias, porque é irrelevante para este post. Vou falar dos meses e anos seguintes, que acho mais relevante de ser discutido. Os efeitos crônicos, por assim dizer, mais do que os efeitos agudos.

(Certo, acabei de decidir que eu não vou apagar este post, já que consegui chegar até aqui…)

Primeiros meses: sensação aguda e constante de que isso não fazia sentido, não era pra ter acontecido, era injusto, não era pra ser, como assim e por quê e wtf?. Ela não desapareceu depois, apenas passou para o plano de fundo; ficou menos aguda e constante. It does not heal, but lets us forget, ou algo assim. Implicações para a vida profissional e pessoal: uma redução intensa na capacidade de pensar, porque metade do cérebro está pensando em como isso não faz sentido etc; com a consequência de provável tomada de decisões ruins. Acho que foram uns três a seis meses assim, ou mais. Ou seja…. três meses, ou mais, foi o tempo mínimo pra retomar alguma funcionalidade. Não funcionalidade plena – alguma funcionalidade.

Sim, eu continuei trabalhando no doutorado, mas foi mais porque pra mim meu doutorado, e a vida acadêmica, sempre foi a parte mais importante da minha vida. E era uma forma de eu lidar com a situação – Fighting in the darkness, holding back the tears. Tipo me afundar no trabalho, mesmo. Se meu doutorado fosse apenas como um emprego, eu provavelmente não trabalharia em nada dele por uns três a cinco meses, e depois trabalharia bem devagar, justamente por não conseguir pensar.

Meu irmão era programador, trabalhava com softwares livres; eu traduzir o manual do Past foi uma homenagem a ele. (A tradução está em algum lugar da internet ainda, embora não mais no site oficial porque o Past mudou de versão).

Depois dos primeiros meses: continuei pensando em como não fazia sentido; mas, comecei a focar mais em outras coisas… Minha orientadora e coorientadora me apoiaram muito neste período, e tive um belo apoio de amigas e amigos, foi essencial. E coisas legais aconteceram no período – por exemplo, meu doutorado-sanduíche foi aprovado pra eu passar seis meses no Canadá… E foi algo, tipo, uma notícia muito legal – doutorado-sanduíche – pouco tempo depois de uma tragédia. Meio como se fossem duas coisas inconciliáveis… Sei lá, não sei me expressar sobre isso. Mas enfim, o geral foi isso: eu estava fazendo as minhas coisas, trabalhando e tudo, mas uma boa parte do meu cérebro continuava pensando no que havia acontecido. Além disso, coisas boas que aconteciam como se tivessem seu valor reduzido. O que não quer dizer que coisas boas não ajudem; elas ajudam, ao menos temporariamente, e trazem um sentido para algumas coisas. Só não podemos esperar que sejam suficientes.

Um ano depois do acidente, eu estava fazendo campo na tundra canadense. Foi tão lindo, fazer campo na tundra canadense. Neste dia específico, eu pedi pra minha equipe fazermos uma exploração do ambiente para conhecer as áreas de um outro projeto que tínhamos que também desenvolver, porque eu não estaria em condições de coletar os meus dados; mas não falei essa última parte, não queria entrar em detalhes, porque, bom, é difícil né. Vide os oito anos pra eu escrever este post; e vide o fato de eu ainda não ter conseguido jogar Doom II de novo. No final do dia fui pra varanda do centro de pesquisas, chorar e olhar para o céu e como se fazer uma despedida mental… “Olha que legal, estou no Canadá!”.

A continuação… Tipo… Tem coisas que a gente não se recupera, mas aprende a viver com elas. Talvez até use como inspiração – afinal, é também uma forma de manter o legado. Mas o efeito permanece. Fazendo uma estimativa, foram seis a nove meses pra eu conseguir voltar a trabalhar com uma relativa eficiência – o que me faz pensar que, no caso de alguém perder uma pessoa próxima e pedir uma prorrogação de prazo pra defender, três meses seria ridiculamente pouco. Eu não pedi prorrogação, porque pra mim defender no prazo era uma questão de honra e de orgulho e também uma homenagem a meu irmão. Mas, que sentido haveria esperar que outra pessoa também sinta isso ou pense assim? Então se alguém diz que precisa de mais tempo pra finalizar o trabalho, eu acho que ele ou ela efetivamente precisa desse tempo, até mesmo porque o trabalho científico não é algo que possa ser feito automaticamente. Precisamos pensar, e para pensar precisamos que nosso cérebro funcione a mais do que metade da sua capacidade cognitiva normal.

E outra questão é tomar cuidado sobre como falar de alguns assuntos…. Morte em família, ou, em linhas gerais, perder alguém próximo é algo sério, e se acontecer em algum contexto disso ser tratado como piada (provavelmente porque as pessoas envovlidas não sabem que tem alguém no grupo que tenha passado por tal experiência), pode ser um gatilho, e pode ser traumatizante. E em um grupo com várias pessoas que não são todas bem próximas entre si, acho meio impossível saber o que pode servir de gatilho pra alguém.

Vou parar por aqui; acho que escrevi o que queria escrever e escrever mais provavelmente estaria fugindo do propósito deste blog… O principal é o que escrevi nos dois últimos parágrafos: sobre valorizar o tempo a mais de que uma pessoa pode precisar, e sobre tratar assuntos sérios com seriedade e sensibilidade.

(Inicialmente eu ia desabilitar os comentários deste post, porque é um assunto difícil, mas vou deixar eles abertos para o caso de alguém quiser relatar ou compartilhar alguma experiência, para outras pessoas lerem…)

6 pensamentos sobre “Sobre perdas, e sobre empatia, no meio acadêmico

  1. Oi, Pavel! Obrigado por compartilhar conosco uma experiência tão íntima. Apesar de a morte ser a única certeza da vida, na nossa cultura não somos educados para lidar bem com ela. Deveríamos criar mais intimidade com ela desde cedo. Precisamos aprender a sorrir para ela, porque ela sorri para todos nós. Ao menos deveríamos fazer processos de luto bem feitos, com rituais, quando sofremos perdas significativas. Sejam perdas de pessoas, de posses ou de sonhos. Uma das lições mais duras que aprendi na vida é que o sofrimento, nesses casos e em todos os outros, vem do apego, não da dor em si.

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    • Concordo… Acho que não sabemos lidar com a morte, e lidamos com ela da pior forma possível. Eu li uns anos atrás sobre o povo Milwakee, se não me engano, do leste canadense, em que o luto é na forma de festa, e, por exemplo, se a esposa de alguém morre, espera-se que o viúvo dance mais que todo mundo – mostrando que ele se recuperou. Eu acho que isso faz sentido, sabe? Nossa tendência é eternizar o sofrimento, sendo que acho que seria melhor torná-lo uma lembranca de luz e inspiração.

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      • Mesma coisa na cultura maia, do México. Veja a influência positiva enorme que ela teve sobre a cultura mexicana contemporânea, com suas festas cheias de vida em homenagem aos mortos. E note que essas festas da morte acontecem ao redor do mundo todo quase sempre na mesma época (Beltane, Samheim, Halloween, Obon etc.), exatamente no meio do caminho entre o equinócio e o solstício.

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      • Eu também perdi uma das pessoas de quem mais gostava no mundo, a minha mentora, quando estava no meu primeiro emprego acadêmico. Fiquei uns 4 anos em luto pela morte dela, perdi o rumo muitas vezes, demorei a me seguir em frente. E olha que a morte é minha velha amiga. Cresci num bairro pobre e violento, acostumado a brincar numa pracinha onde apareciam cadáveres regularmente. Muitos amigos de infância morreram nas mãos da polícia, do tráfico ou das drogas. Mas só agora, na meia idade, me aprofundei na questão da vida e da morte, e consigo enxergar as perdas com mais tranquilidade.

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  2. Não fazia ideia Pavel. Nunca é fácil falar de perdas, ainda mais de alguém tão próximo como um irmão.

    Na minha graduação tb perdi uma pessoa muito especial, meu primo de segundo grau, mas que eu sempre considerei meu irão mais velho, crescemos juntos.

    Tentei eternizar a lembrança dele e de como ele me influenciou no mundo do FF com uma singela homenagem no meu TCC – AGRADECIMENTO ESPECIAL II: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/138991/000864964.pdf

    Escrevendo esse comentário já me dá um nó na garganta, ele se foi sem conhecer meu filhote. Hj tento passar para o Dudu os bons momentos que tive com ele jogando =]

    PS. A última música que eu me lembro de termos ouvido, pode parecer ocasional, mas foi essa mesma: https://youtu.be/MmAtwvZYTe8

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