Ratos, doenças e a selva de pedra [mais selva do que esperado]

Este é um post convidado, escrito por Caio Graco Zeppelini, doutorando em Ecologia: Teoria, Aplicação e Valores pela UFBA.

A gente tende a não pensar nas áreas urbanas como ecossistema, como “meio ambiente”, embora a gente resida nela, divida espaço com diversas outras espécies, e possa observar como recursos (comida, água e energia, por exemplo) entram e saem transformados por sua passagem no ambiente urbano. Esse pontinho de cegueira que temos, que impede a gente de reconhecer a cidade como um ambiente e, portanto, parte da ecosfera atingiu diversas ciências por décadas, inclusive as ciências da saúde. Para ilustrar a situação, observemos uma doença infecciosa de grande importância de saúde pública nos centros urbanos dos países em desenvolvimento: a leptospirose.

Até poucas décadas atrás, leptospirose era uma doença rural com menor incidência. No ambiente rural, os roedores silvestres são o reservatório da Leptospira (o patógeno, a bactéria que causa a leptospirose), e a transmissão para os humanos se dá no contato destes com o ambiente contaminado pela urina dos roedores infectados. Quando saímos em direção ao ambiente urbano (seja por deslocamento, seja porque a mancha urbana se expandiu e agora cobre uma área antes rural), saem os roedores do campo e entram as ratazanas, a transmissão agora se dá nas ruas e terrenos, e a concentração de pessoas no espaço urbano aumenta a quantidade e frequência de casos a níveis que demandam intervenção das autoridades de saúde pública.

Na empreitada de diminuir o número de casos humanos, e garantir segurança sanitária para os residentes das cidades, os programas de controle de zoonoses focam em eliminar os ratos urbanos portadores da bactéria, normalmente fazendo campanhas de controle com rodenticidas. Embora tais medidas consigam aliviar o número de contágios imediatamente após o controle populacional, basta a população de ratos ser deixada em paz que seus números se recuperam (e com eles, também voltam a pipocar os casos humanos). Nesse ponto cego da saúde sobre a ecologia que está minha intrusão de ecólogo na saúde pública.

Se tentar acabar com o risco de infecção acabando diretamente com os ratos do local não funciona, quais alternativas a ecologia apresenta? Basta voltar aos princípios da ecologia de populações e lembrar que o principal definidor das populações animais num ambiente é sua capacidade de carga [pensem capacidade de carga como uma espécie de “orçamento” do ambiente a ser gasto sustentando a vida que o ocupa. Se a população excede o que o orçamento é capaz de segurar, faltam recursos para a população se manter plenamente, e a mesma vai encolher até ser toda contida pelo orçamento]. Se nós (e por nós, eu digo minha tese) encontrarmos quais são os principais componentes do ambiente afetado pela infestação de ratos (e consequente problema de leptospirose) que são úteis ou importantes para a presença e sobrevivência dos ratos, podemos manipular o ambiente de modo a deixar tais componentes indisponíveis ou limitados, reduzindo o quanto o ambiente é capaz de albergar ratos. Suficientes iterações desse processo de avaliação e manipulação do meio são capazes de diminuir permanentemente a população de ratazanas de uma área (em contraste com o sobe-e-desce populacional vindo do uso de rodenticidas) até que o tamanho populacional também limite a transmissão e alastro da zoonose.

Amarrados a esse primeiro passo de reconhecer o problema de saúde pública como um problema também ecológico – ou como chamamos na academia, usar uma abordagem de One Health – surgem diversas possibilidades de aplicar o que se sabe da relação entre biodiversidade e seu meio para lidar com problemas urbanos. Vide como podemos traduzir tais ideias para o controle de doenças como dengue/zika/Chikungunya, como o controle de uma espécie de interesse para uma zoonose (como o caso dos ratos e da leptospirose) pode afetar posivita ou negativamente o funcionamento de outros ciclos de transmissão de zoonoses (como o caso da leishmaniose ou do hantavírus, que contam com os roedores urbanos para sua transmissão e mantimento nas cidades).

[E para os que ficaram curiosos, posso citar duas possibilidades de características ambientais que podem ser alteradas para diminuir a capacidade de carga de ratazanas das áreas urbanas, de acordo com meus resultados: alterar a disponibilidade de solo nu com areia ou terra exposta (que pode dar abrigo às ratazanas) e/ou alterar a presença de corpos d’água e esgoto a céu aberto (que são uma via de movimento importante para as ratazanas, além de servir de suprimento de água)! O artigo já está publicado, na Urban Ecosystems, com o título “Demographic drivers of Norway rat populations from urban slums in Brazil“.]

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