A parcimônia nas Ciências e a simplicidade das coisas

Este texto foi escrito por Mariana Pereira, graduanda em Ciências Biológicas pela UFBA e com formação (graduação e mestrado!) em áreas da Comunicação. Na disciplina de estatística que ministro, uma das atividades é escrever uma resenha a respeito dos textos do Brian McGill (Dynamic Ecology) sobre Statistical Machismo. Eu adoro dar essa atividade na disciplina, porque sempre surgem alguns textos bem interessantes, e por vezes surgem textos absolutamente lindos como este. Inclusive achei ele muito apropriado para ser o último post deste ano :-)

Naquela que possivelmente é sua obra mais potente (e sem dúvida a minha favorita), Douglas Adams cria um computador gigante e fictício que opera por milênios a fio para nos informar que a resposta para as questões mais complexas sobre a vida, o universo e tudo mais é na verdade de ordem muito simples e objetiva: 42.

Postular uma resposta tão precisa para problemas tão complicados é um toque de gênio próprio de Adams, que transforma acalento em angústia ao nos levar rapidamente à realização de que os números importam tanto quanto o contexto que os cerca e que eles podem ser reveladores, mas só se tivermos a pergunta certa e as vias corretas para interpretá-la.

É difícil pensar que o uso indiscriminado de testes estatísticos complexos não seja uma roupagem diferente sob a qual impera essa mesma lógica, em que floreios e borrões perpassam resultados que são ofuscados pela própria complexidade do processo necessário para obtê-los. E que testes simples e igualmente (ou ainda mais) relevadores sejam preteridos em nome de uma densidade muitas vezes limitadora, que se confunde com confiabilidade.

É difícil pensar também que essa estatística pesada e muitas vezes inteligível para a maioria de nós, que se vende como confiável justamente por sua robustez e complexidade, esteja dissociada de um embate que atravessa todo o processo histórico de concepção da Ciência como Instituição. Essa ciência institucionalizada que por muitos anos esteve reservada aos privilegiados e que atravessou séculos alinhada aos valores hegemônicos da masculinidade, da branquitude e do eurocentrismo é também uma ciência que se fechou por diversas vezes em uma linguagem própria, quase autorreferente, afastando-se assim do mundano e do cotidiano – embora estivessem justamente ali suas maiores potências.

Claro que esse foi (e ainda é) um embate entrecortado por movimentos e disputas de resistência. Isso se materializa no trabalho de mulheres, muitas delas silenciadas por seu gênero e pela presença incômoda que representavam nesses espaços. Está também no conhecimento oferecido por cientistas fora desse eixo norte, que conquistavam seus lugares entre as brechas por sua inspiração e relevância. Mesmo hoje em dia essa disputa se prolonga sob novas facetas, são as universidades que cada vez mais se expandem para além da academia, negociando e incorporando saberes tradicionais e populares, são as políticas de cotas universitárias e todas as medidas reparadoras que impulsionam a Ciência ao possibilitarem incorporar novas vivências, repertórios e referências de mundo às suas práticas. Uma Ciência que se torna inclusiva – inclusive em sua linguagem e na maneira de apresentar seus trajetos e resultados – é uma ciência mais rica.

Estabelecer essa Ciência escrita e decodificada por poucos, como a história nos mostra, não é somente improdutivo como também perigoso. Em tempos em que a confiança no saber científico é posta em cheque continuamente, e vacinas continuam a ser questionadas mesmo quando mais precisamos delas, abrir outras e novas pontes para romper essa divisão em que ainda se encontram os cientistas e a Ciência é urgente e oportuno. Recuperar as historicidades da Ciência e retraçar os trajetos pelos quais ela se firma como instituição faz pensar no ganho em potência que se estabelece sempre que essa Ciência deixa os templos, quando é desmistificada para incorporar uma linguagem simples e compreensível e quando se firma como reveladora de um conhecimento da ordem do dia a dia, daquilo que nos cerca, nos afeta e nos encanta.

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