Digitando e conferindo dados

corrigindodados

Como podem ver acima, tais coisas acontecem. rs E às vezes um resultado que parece muito bonito e te deixa muito feliz por ter resultado de um erro de digitação.

Por mais que tomemos cuidado ao digitar dados, via de regra alguns errinhos acabam passando. Especialmente se temos alguns milhares de valores para digitar. Por exemplo, na minha iniciação científica eu medi o diâmetro e altura de 6446 caules de Miconia albicans* – e pra digitar tudo isso aí? Existem algumas formas de maximizar eficiência e minimizar erros ao digitar. Eu recomendaria, por exemplo, digitar aos poucos, preferencialmente assim que volta do campo. Deixar todos os dados para digitar no fim do trabalho envolve alguns riscos, como: – Não entendermos alguma anotação cujo significado teríamos lembrado digitando logo após a coleta; – Acontecer alguma coisa com os dados, que só estariam em uma cópia no seu caderno, e você perder todo ou parte do trabalho**; – Você cansar depois de duas horas digitando e começar a introduzir erros.

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Coorientação: por que e quando coorientar?

Semana passada o Marco Mello publicou um texto bem interessante criticando o sistema brasileiro de coorientação nas diferentes fases da vida acadêmica. Recomendo fortemente a leitura do texto e dos comentários!

No texto, o Marco apresenta ótimos motivos para não ter coorientação e também bons motivos para ter coorientaçã0 em casos bem específicos – no caso, para ajudar com um problema bem complexo, e por problema bem complexo diria que podemos entender, por exemplo, desenvolver funções novas em R se nem a/o aspira nem a/o orientadora/o entendem de programação; mas não simplesmente aplicar análises já bem estabelecidas, isso pode ser aprendido – ou no caso de fazer parte do mestrado/doutorado no exterior. A isso eu adicionaria uma terceira situação, que foi o meu caso: a pessoa que me coorientou, por motivos de…. é uma longa história, não orienta doutorado, e mesmo que orientasse, eu não queria fazer o doutorado inteiro fora do Brasil, então a coorientação foi uma solução que deu certo; mas eu já estava trabalhando com esta professora desde metade do mestrado e tinha bons indicativos de que daria certo.

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IALE + IUFRO LatinoAmerica 2016: Impressões e pensamentos

De 29 de novembro a 2 de dezembro participei  do Congreso Latinoamericano IUFRO de Ecología del Paisaje e 2º Congreso Latinoamericano de IALE, que para simplificar acho que podemos chamar de Congresso Latino-Americano de Ecologia de Paisagens* – afinal, em termos práticos o evento foi essencialmente isso. Foi em Temuco, no centro-sul do Chile (minhas fotos do Chile aqui!), um lugar que valeu a pena conhecer! Nunca comi tanta cereja na minha vida – sério, um quilo de cereja por 1500 pesos, que equivale a uns 7-8 reais, que mais alguém pode desejar nesta vida pra ser feliz? – mas não estou aqui pra falar de cerejas (mano, aquelas cerejas eram boas), e nem de morangos (um quilo de morando por algo em torno de 5 reais… mmmm…), que eu comprava na Feria Pinto perto do hotel que me hospedei** [Pavel, controle-se], e sim pra falar sobre o evento, então vamos lá.

Cerejas e morangos

Cerejas e morangos.

 

O evento foi sensacional, inclusive superando as minhas expectativas. Houve uma boa variedade de temas, incluindo temas que eu chamaria de clássicos em ecologia de paisagens, como efeitos da perda de cobertura florestal sobre a biodiversidade ou trabalhos com efeitos de borda; e também temas relacionados, mas que têm mais relação com outras áreas: ecologia do fogo; ecologia e manejo de espécies invasoras; restauração florestal; trabalhos relacionando ecologia do fogo com espécies invasoras e/ou com restauração florestal; polinização; e alguns temas com enfoque mais social. Algo que achei bem legal foi a ocorrência simultânea de apresentações de trabalhos relacionados a um tema específico e a realização de simpósios, que consistiam da apresentação de trabalhos sobre um tema específico mas buscando algo mais direcionado. Eu assisti principalmente os simpósios, por eles via de regra contarem uma história mais concisa – o que pra mim é um aprendizado melhor. Simpósios incluíram temas como espécies invasoras, restauração em um contexto de paisagem, e manejo de vida silvestre em propriedades privadas.

Inclusive foi num desses simpósios que apresentei o meu trabalho sobre efeitos de borda na serapilheira (serapilheira são as folhas e galhos caídos no chão de uma floresta ou outro ambiente natural) do cerrado. Era um simpósio sobre tradeoffs entre agroflorestas e conservação em paisagens multi-funcionais e, embora eu não tivesse estudado exatamente isso, avaliei bordas de cerrado adjacentes a diferentes matrizes, então achei que seria apropriado me inscrever para participar deste simpósio. E bom, fui aceito, e acho que o trabalho se encaixou de forma interessante junto aos outros! Algo bem legal de apresentar este trabalho é que, pela primeira vez, apresentei um trabalho finalizado, inclusive cujo artigo já está disponível online. Achei bem mais interessante apresentar um trabalho finalizado do que trabalhos incompletos ou ainda em desenvolvimento, justamente por ter mais certeza sobre a mensagem que estou transmitindo com ele. Às vezes apresentamos trabalhos incompletos para termos sugestões de como melhorar eles; mas não acho que apresentações em congresso sejam a melhor forma de conseguir estes comentários. Pode ser mais interessante pedir para algumas pessoas de confiança lerem e opinarem sobre o trabalho. Por outro lado, um congresso é o lugar perfeito para mostrar o que você tem feito e, quem sabe, fechar colaborações para trabalhos futuros. O Marco Mello fala algo parecido em um post dele.

Além dos simpósios, apresentações de trabalhos, coffee breaks excelentes e almoços saborosos, havia as conferências plenárias, ministradas por pesquisadoras e pesquisadores de renome em suas áreas. Eu assisti a todas menos a primeira [porque cheguei atrasado…], e foram todas excelentes. Estas conferências são interessantes para tomar conhecimento de outras formas de pesquisar um assunto ou de pensar sobre um assunto, ou até mesmo para tomar conhecimento de uma área de estudos que eu nem imaginava que existia. Um exemplo: Lisa Shipley, da Washington State University, falou sobre estudos de ecologia nutricional de cervos e outros ungulados, nos EUA, em que eles avaliam, a partir de animais criados em cativeiro, a capacidade de suporte de uma área. Ou seja, conseguem ter estimativas precisas de quantos animais um hectare de um determinado tipo de floresta consegue manter. Achei isso sensacional, e nunca havia pensado em algo parecido.

Sobre as apresentações e palestras: grande parte foi em espanhol, mas algumas foram em inglês ou em português. Achei isso apropriado – afinal, é um congresso latino-americano, e qual a sua desculpa por não falar espanhol ainda? e acho perfeitamente apropriado que seja primariamente em espanhol (grande parte das/os participantes eram hispanofalante) e português; tive a impressão de que quem fala português entendia sem grandes problemas as apresentações em espanhol e vice-versa. Eu mesmo falei um belo portunhol tentei falar espanhol, e acho que deu certo! Mas algo que eu recomendo é deixar os slides sempre em inglês. Para mim era mais fácil entender palestras em espanhol com slides em inglês do que palestras em espanhol com slides em espanhol, até mesmo pela maior familiaridade com termos técnicos (e no meu caso também por eu ser muito mais fluente em inglês). E outra questão é de que, embora fosse um congresso latino-americano, havia pesquisadoras e pesquisadores convidadas/os de fora, e é interessante que estas pessosa também possam entender as nossas apresentações. Tudo bem que são poucas pessoas – mas podem ser pessoas cuja opinião lhe seja muito valiosa! Deixando os slides em inglês e falando na nossa língua ou na língua do local do evento, podemos maximizar o número de pessoas que ouvirão (ou lerão) o que temos a dizer.

E fora isso, achei este congresso um ambiente bem amigável, favorecendo a comunicação. Sabem aqueles PhD Comics sobre como é apresentar um trabalho? Não foi nada parecido com isso. E na verdade congressos de ecologia que tenho ido costumam ser assim, um ambiente mais tranquilo e “de boa”; não sei como é nas outras áreas. Eu acho que isso favorece bastante a colaboração científica e, portanto, o progresso da ciência como um todo. Não precisamos competir uns com os outros, colaborações geralmente dão mais e melhores frutos para todas e todos!

Finalizo com um Parabéns e um Muito obrigado! à organização do evento, foi realmente um evento de alto nível! Estou ansioso pelo próximo em 2018 🙂

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Eu no Parque Rucomanque, um dos dois remanescentes de vegetação nativa em Temuco, em uma excursão durante o congresso. Meus parabéns a Sérgio e Mónica, excelentes guias! (Foto por Alexandra Cravino)

* Falo “Ecologia de Paisagens” no plural, ao invés de “Ecologia de Paisagem” ou “Ecologia da Paisagem”, porque é assim que nos referimos a outras áreas na ecologia: Ecologia de Populações, Ecologia de Comunidades, Ecologia de Ecossistemas… Sigo nisso uma sugestão do Milton “Miltinho” Cesar Ribeiro.

** Para quem for a Temuco, recomendo a Hospedaje Casa Estación, com um preço acessível, localização boa (perto de terminais de ônibus e da Féria Pinto, onde tem morangos e cerejas e muitas outras coisas!) e a uns 50 minutos de caminhada da Universidad de la Frontera.

Existe vida após a graduação?

[Este é um post convidado, escrito por Cinthya Santos, atualmente mestranda em Ecologia na UESC e antes disso… Continuem lendo 🙂 ]

Escolher uma profissão não é algo tão simples e me parece uma tarefa difícil para recém egressos do colegial. Entramos na graduação excitadíssimos e saímos (de maneira geral) perdidos profissionalmente. Ouvimos, durante toda a graduação que biologia é uma área muito ampla e podemos atuar em inúmeros setores! Ahh, que massa! Tá, mas quais? Me formei bióloga, e agora?

O curso de ciências biológicas vem sendo reformulado e houve uma divisão básica que resultou em dois cursos distintos: bacharelado (visando a continuidade na academia) e licenciatura (com grande bagagem de disciplinas pedagógicas). Parece meio intuitivo: quem se formou bacharel vai fazer mestrado, doutorado e continuar pesquisando e quem se formou em licenciatura vai dar aulas. E para onde foram aqueles inúmeros setores de atuação?

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Um artigo por dia?

Diversas vezes, ao longo de vários anos, li e ouvi que um(a) cientista precisa ler pelo menos um artigo científico por dia. E por muito tempo – acho que desde que entrei no doutorado, ou até antes – tentei seguir este ideal. E nunca consegui fazê-lo por mais de uma ou duas semanas por vez.

Mas eu sou um cientista… Modéstia à parte, com quatro artigos publicados este ano e com um a três artigos publicados por ano desde 2011, não sou um exímio cientistas mas também não estou muito aquém das espectativas… Então me pergunto – será um requisito mesmo ler artigos com tal frequência? Ou há outros caminhos?

Minha resposta é: não sei; mas sempre acho que há outros caminhos! Talvez ler um artigo por dia seja um ideal a ser perseguido; mas talvez não! Explico…

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Não gosto de boxplots. #prontofalei

Não gosto de boxplots. E vocês?

Não que o fato de eu gostar ou não gostar de alguma coisa queira dizer algo. Só que acho eles bem pouco informativos, se apresentados sozinhos. Permitam-me exemplificar.

Imagine que você está estudando variação no comprimento de chifre de três populações de unicórnios: uma população de deserto, uma de floresta, e uma de montanha. Ao me referir à população de montanha não estou falando necessariamente de Monoceros montanus, espécie cuja estrutura populacional foi muito bem estudada pelo grande Stuart H. Hurlbert (1990); considerando a incrível capacidade de locomoção, dentre e entre mundos, de ao menos uma espécie de unicórnio (Sapkowki 1999), acredito que qualquer espécie de unicórnio poderia facilmente ter populações em diferentes ambientes, e, tendo ficado em um dado ambiente por tempo suficiente (por escolha, tornada possível pela já mencionada capacidade locomotora), variações inter-populacionais podem surgir. Não me parece impossível que uma destas variações seja no comprimento dos chifres, característica possivelmente sujeita a seleção sexual.

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Pesquisa, ensino e extensão, e unicórnios

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Quais são as funções da Universidade, no Brasil e no mundo? E as atribuições de quem faz parte desta Universidade?i

Universidade é um centro de pesquisa por excelência, e também um centro de ensino, formando profissionais de alto nível. Mas esses dois aspectos ficam frequente restritos à própria Universidade, como instituição – boa parte do conhecimento gerado é altamente específico e uma parte considerável do ensino forma pessoas para continuarem pesquisando e formando mais pessoas para continuar pesquisando… E às vezes ainda se sente uma frustração quando alguém decide não continuar na universidade fazendo pós-graduação e prestando concursos para trabalhar com outras coisas. Que é uma frustração bem estranha, considerando que nem todo mundo tem vocação para trabalhar com ciência!

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