Os caminhos do doutorado

…Venho pensando em escrever este post já faz algum tempo, desde antes de defender o doutorado. Mas é claro que eu não queria escrever antes da defesa, afinal, não tinha a imagem completa ainda. E agora mais de três meses se passaram e eu quase consigo olhar para este longo período (quatro anos passam voando né. Mas ainda é um longo período), não como um observador externo; mas talvez como um marinheiro ancorado em um farol, numa ilha solitária, relembrando a sua viagem.

O que escrevo abaixo é a minha impressão apenas e algo em que fiquei pensando bastante nos últimos tempos. Não sei quão correta ou incorreta está, e a possibilidade de eu mudar de idéias nos próximos anos ou até meses é grande. Portanto, vou compartilhar ela antes que isso aconteça! 🙂

Pois bem… A minha impressão geral sobre o significado de um doutorado, com base na minha experiência e na de minhas colegas e meus colegas, é que… depende! O doutorado, assim como qualquer outro caminho na Academia, assim como qualquer outro caminho da vida, não tem uma única direção. O Marco Mello diz, e eu concordo, que defender um doutorado é equivalente a receber a faixa preta em uma arte marcial oriental. Mas o conceito de faixa preta, e os pré-requisitos para recebê-la, também variam… Faixa preta te torna apto a ensinar a arte; mas faixa preta também significa que você pode, finalmente, começar a de fato aprender esta arte, e tudo aprendido até agora é apenas o básico, os fundamentos essenciais que permitem um aprendizado de verdade. Doutorado pode ser o começo, ou pode ser um meio, mas dificilmente um doutorado é o fim.

Abstrações e analogias marciais à parte, a minha impressão é que há dois caminhos principais (cada um com suas encruzilhadas, atalhos e trilhas, algumas das quais precisam ser abertas com facão e machado) a serem seguidos no doutorado. O primeiro, que me parece ser mais comum na Europa e na América do Norte (Canadá e Estados Unidos), é uma dedicação total e exclusiva à pesquisa. É claro, se pode dar algumas aulas de vez em quando; se pode ajudar outras pessoas; se pode até tirar férias no meio do caminho (essa talvez seja a parte mais difícil…); mas pesquisa é o mais importante. Na prática, isso significa: horas infinitas em campo/ no laboratório/ na coleta de dados em geral; horas infinitas trabalhando com estes dados; horas infinitas estudando a teoria e lendo artigos, em grande maioria referentes à sua área; publicações muito interessantes em revistas de alto impacto; uma grande probabilidade de contribuições importantes à sua área; e um pouco de insanidade nos meses antes da defesa.

O outro caminho, que me parece ser comum no Brasil (ao menos nas universidades com quais tive mais contato – UFSCar e Unesp), é uma dedicação grande à pesquisa, mas não limitada a ela. O restante do tempo pode ser dedicado à extensão universitária, ou a alguma ONG, ou a orientações… Este foi o caminho que eu escolhi; e eu digo que durante o doutorado eu trabalhei em muitas coisas, inclusive na tese! Este caminho implica em: horas finitas na coleta de dados; horas também finitas trabalhando com estes dados; horas finitas ou infinitas estudando a teoria, mas não necessariamente da sua área; algumas publicações relativamente interessantes, mas dificilmente algo revolucionário; dedicação a projetos de extensão, ONGs ou outros grupos do tipo; possibilidade de coorientar estudantes de iniciação científica ou até mestrado; minicursos, aulas e palestras ministradas (um exemplo muito legal são aulas em cursinhos comunitários); participação de grupos de estudo; e um pouco de insanidade nos meses antes da defesa.

É claro que existem infinitos caminhos intermediários entre estes dois; e eu não venho aqui discutir qual é o melhor, mesmo porque eu não acredito que um caminho seja melhor que outro. Cada um tem suas vantagens e desvantagens, e as limitações de cada um deles podem ser supridas em momentos futuros. Uma dedicação total à pesquisa lhe dará vantagens em termos de publicações, mas o segundo caminho pode lhe dar vantagens em provas didáticas graças à experiência adquirida. O primeiro caminho aumenta as chances na Academia, mas o segundo talvez lhe abra outras portas com mais facilidade. E o destino final, a longo prazo, será o mesmo; e, não importa o que tenha sido feito, depois de conseguida a faixa preta muito mais há de ser aprendido e feito para chegar ao segundo, ou terceiro, ou, quem sabe, oitavo dan.

E aproveito para convidá-los a comentar: o que representa o doutorado (ou o mestrado) para vocês?