Doutorado e consultoria, ou Como matar um coelho com duas cajadadas

Este é um post convidado, escrito por Jessyca Luana Teixeira, e (até o momento) o último na série de textos sobre como é a vida fora da Academia. Jessyca é doutoranda em Ecologia e Conservação da Biodiversidade na UESC, trabalhando com biologia marinha, mas por um bom tempo trabalhou também com consultorias – inclusive na caatinga, bem longe do mar. Pedi para ela escrever um pouco sobre como foi conciliar as duas coisas e ela gentilmente concordou 🙂

Todos sabem que um doutorado não é tão simples obter, requer tempo, dedicação e dinheiro. Assim eu pensei que seria os meus principais obstáculos no doutorado. Fui aprovada, que legal!! Mas sem bolsa e com previsão incerta de ter. Veio aquele desespero, continuar ou desistir sem bolsa? Venho de uma família de muitos filhos e poucos recursos financeiros, não seria uma opção pedir ajuda financeira aos meus pais. Poderia trabalhar, claro!! Mas a julgar que o doutorado requer muito do aluno, considerei não dar conta. Mas como adoro desafios (e não tinha muita escolha) aceitei arriscar, pois não vivemos de fotossíntese (infelizmente) e precisamos pagar as contas.

No período de um ano sem bolsa, forneci consultoria ambiental para empresas diferentes. Após essa experiência tenho pontos a levantar sobre.

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Dores e delícias da vida fora da Academia

Este é mais um post convidado da série sobre a Vida Fora da Academia. Quem não viu os outros – basta olhar os últimos posts, a série está sendo ininterrupta. Talita Sampaio foi minha colega de mestrado e doutorado na UFSCar, e agora escreve um pouco sobre como está sendo a vida depois do doutorado. Boa leitura!

O final do meu doutorado (2015) foi bastante doloroso. Eu amava meu trabalho, o campo era incrível, o processamento dos dados coletados era como um trabalho de detetive, a análise de dados era divertida, e os resultados refletiam o que eu via acontecer na Natureza. Infelizmente, os moldes atuais da academia limitam nosso tempo em 4 anos; por mim, ficaria mais uns 4 anos fazendo doutorado.

Obviamente, o final do doutorado coincide com o fim da bolsa, mas as contas pra pagar não deixam de existir. Por dois anos após a defesa, e muitas tentativas sem sucesso em concursos públicos, tive trabalhos, mas nenhum emprego. Isso acabou culminando na escolha de voltar para a casa dos meus pais. Não foi uma escolha fácil, mas foi um período importante para refletir sobre diversos tópicos, incluindo a possibilidade de encarar um emprego que não era o dos meus sonhos – o de docente em universidade pública – visto que com as mudanças políticas dos últimos anos, os concursos para docente de ensino superior escassearam, de modo que os poucos concursos que tem acontecido são muito concorridos. Neste período, também tentei bolsas de pós-doutorado fora do país, mas não obtive sucesso. (Nesta fase, a síndrome da impostora foi minha companheira todos os dias).

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Uma vida não-acadêmica dentro da Academia: técnica no INPA

Mais um post convidado! Renata Vilar, bióloga e mestra em Ecologia, conta da sua experiência trabalhando como técnica no INPA, em Manaus. Bem interessante o relato dela; e interessante inclusive para pensarmos como, ao lermos – ou até publicarmos – um artigo científico, muitas vezes nem pensamos no trabalho das pessoas que viabilizaram a coleta dos dados e, assim, a realização da pesquisa.

Em primeiro lugar, muito obrigada, Pavito, pelo espaço e pela iniciativa de discutir sobre esse tema!

Eu sou a Renata, moro em Manaus e estou trabalhando como bolsista de um projeto dentro do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas), onde minha função, atualmente, é ajudar na parte de organização dos campos para coleta de dados. E eu também participo de coletivo independente (Coletivo Caxxyri) no bairro em que moro (próximo ao INPA e à UFAM – Universidade Federal do Amazonas), onde atuamos/queremos atuar com agricultura urbana, economia solidária e educação popular.

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Eu, a academia e a participação na revisão do plano diretor municipal

Hoje temos mais um post convidado! Desta vez Julia Assis*, da Unesp, conta sua experiência na revisão do Plano Diretor Municipal de Rio Claro, SP. Eu acompanhei bem de longe essa participação, e acho que é um ótimo e inspirador exemplo de como a Academia pode contribuir com a Sociedade.

Eu

Às vezes parece que está tão distante de nós a possibilidade de mudança… Nos revoltamos e nos inconformamos com como as coisas acontecem ao nosso redor. Sentimos a impotência nos paralizar diante de rotineiros absurdos que testemunhamos. Por muito tempo, adotei conscientemente a alienação como defesa. Sou uma pessoa bastante sensível e penso que cada um deve usar as armas que tem pra se defender daquilo que nos fere. O que tenho percebido, de uns tempos pra cá, é que o otimismo pode ser uma arma mais eficiente e que a mudança pode começar dentro da gente. Se nos concentrarmos e dispusermos de um pouco de tempo, com muita força de vontade e persistência, somos capazes de dar início à mudança. Pode até soar utópico ou idealista, mas eu vivi de fato essa experiência.

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Desafios dentro e fora da Academia e como sobreviver a eles

Este é um post convidado, seguindo a sequência de relatos profissionais e histórias de vida. Desta vez, Jean Henrique – biólogo, ecólogo e fotógrafo – conta um pouco da sua passagem pela Academia e dos outros caminhos antes, durantes e depois disso.

Lembro-me de quando eu passava na frente da faculdade saindo da zona periférica da cidade para fazer algo na parte central. Sempre olhava o emblema da UFU (Universidade Federal de Uberlândia) e dizia para mim, “é ali que quero ir, é ali que quero estar”. Mas minha história começa um pouco antes, acredito que quando comecei a trabalhar (acho que essa é a proposta kk). Quando fiz meus 12 anos (há 15 anos “ago”, 2003), acreditando que já estava “grande” (grande eu era de tamanho já, só não de idade, acho que entenderam) comecei a trabalhar com meu Pai (sim com maiúsculo por que ele é um substantivo próprio, um ser individual, único para mim), me lembro da primeira festa que trabalhei, pensem, um “moleque”, magrelo, sem um pelo direito no corpo, carregando de duas a três jarras de refrigerante e servindo. Penso que essa palavra define muito a minha vida, servir, porque após esse início nunca mais parei.

Dando um salto para o ano de 2010, outro ponto importante na minha vida, entrei para o 36° Batalhão de Infantaria Motorizada do Triângulo Mineiro, e sim, aprendi muito, mas percebi que ali não era meu caminho, não enxergava um sentido de ser militar do exército, saí então em 2011 prestando o vestibular (pela quinta vez) para biologia e passando em 2011/2. Assim foram 4 anos muito loucos, mas de uma grande experiência. Me formei em 2015/2 em Licenciatura e 2016/1 em Bacharel, entrando no mestrado no mesmo período em outro estado, Bahia.

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Desafios fora da Academia: trabalhando em ONG – Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ)

Este é um post convidado, escrito por Gabriela Rezende, bióloga, doutoranda em Ecologia e vinculada à ONG Instituto de Pesquisas Ecológicas – IPÊ. É o segundo no que espero que seja uma longa série sobre como é trabalhar fora da Academia e da Universidade.

Eu sou a Gabi Rezende, bióloga formada na UNESP de Botucatu, especialista em Manejo de Espécies Ameaçadas pela University of Kent/Durrell (UK) e em Gestão de Projetos pela FGV, mestre profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável pelo IPÊ e agora doutoranda em Zoologia pela UNESP e mãe da Sofia desde abril desse ano.

Quando o Pavel iniciou essa série de posts sobre os desafios fora da academia logo me “candidatei” a relatar minha experiência, por achar um tema super pertinente pra biólogos e ecólogos, que muitas vezes se formam sem ter muita ideia do que o mercado de trabalho tem para oferecer fora da academia. Assim foi comigo, e, por ter escolhido um caminho um pouco diferente do “emendar graduação com mestrado com doutorado”, vim aqui contar um pouco da minha trajetória e de como é trabalhar em uma ONG, o IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas).

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Desafios fora da Academia: trabalhando em Unidade de Conservação

Este é um post convidado, escrito pela minha amiga Karina Lopes Ramos, oceanóloga e ecóloga que atualmente trabalha numa Reserva Extrativista. Este é o primeiro (ou talvez segundo) post do que espero ser uma série longa sobre possibilidade de trabalho para pessoas da área ambiental, ecologia, biologia, oceanologia fora da Academia.

Meu nome é Karina, sou formada em Oceanologia (FURG), mestre em Oceanografia Biológica (FURG) e doutora em Ecologia e Conservação da Biodiversidade (UESC).

No doutorado (concluído em abril de 2018), o foco da minha pesquisa foi sobre conflitos entre leões-marinhos (Otaria flavescens) e os pescadores de emalhe do sul do Brasil.

No ano passado, quando recém tinha retornado a Ilhéus (depois de uns meses na minha cidade de origem, Rio Grande-RS), soube de uma seleção que estava tendo para trabalhar como bolsista de pesquisa em algumas Unidades de Conservação marinhas do Brasil (Projeto GEF Mar, um projeto do MMA financiado pelo Banco Mundial). Resolvi me candidatar, achando que não daria em nada. Escolhi me candidatar para trabalhar na Reserva Extrativista Marinha do Corumbau, um lugar que eu havia conhecido em 2006, através de um estágio feito na época da minha graduação, onde estagiei por um mês em um projeto do Tamar/CI-Brasil, na comunidade de Imbassuaba. O projeto na época era sobre a interação das tartarugas marinhas com a atividade pesqueira e foi um momento inesquecível na minha vida. Morei em uma comunidade pequena, sem luz elétrica, conheci pessoas incríveis e saí de lá com a impressão que ia demorar pra voltar, mas sabendo que um pedaço meu tinha ficado.

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