Metacomunidades

Este é um post convidado, escrito por Gabriele Tavares, graduanda em biologia pela UFBA e cuja iniciação científica eu oriento 🙂 A introdução do relatório ficou bem legal, e pedi para ela a transformar em um post; depois fiz apenas algumas pequenas mudanças antes de publicar e aqui está!.

O conceito de metacomunidades é novo na área da ecologia, tendo sido muito estudado nos últimos anos e é considerado importante para conhecer quais elementos podem condicionar a estrutura e diversidade de uma comunidade. A definição de metacomunidades está ligada ao conceito de metapopulações, que são populações que habitam em diferentes manchas de habitat, podendo ser duas ou mais, e estão interligadas por dispersão[1]. Sabendo isso, pode-se dizer que metacomunidades são comunidades localizadas em manchas de habitats distintas, conectadas por dispersão [1][2]. Representantes de todas as espécies não necessitam estar presentes em todas as manchas de habitat, cada mancha pode ter sua própria comunidade (vegetal ou animal) já que as características ambientais das mesmas podem ser distintas, fazendo com que o crescimento ou a permanência de determinadas espécies não seja favorável naquele espaço.

A teoria de metacomunidades é principalmente conceitual, com relativamente menos definição empírica. Através dela surgem novas formas de buscar compreender e descrever padrões de distribuição, interação e abundância de espécies, isso em uma escala maior que a teoria mais habitual de comunidades[2].

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A Arte de Orientar

Este é um post colaborativo sobre a arte de orientar bem. Para este post, convidei algumas e alguns professoras e professores que admiro e considero (e outras pessoas também consideram, conforme ouço por aí) excelentes orientadoras/es. Pedi para escrever em torno de dois parágrafos; algumas pessoas escreveram mais, o que tornou o texto mais interessante ainda! Então agradeço por escreverem!, e coloco abaixo as diferentes visões sobre como ser um bom orientador ou uma boa orientadora, finalizando com algumas palavras minhas.

Prof. Francisco Barros – Laboratório de Ecologia Bentônica, UFBA

Não existe uma fórmula mágica. Estudantes e orientadores são pessoas, e cada um é uma pessoa diferente. A interação é variável, seja flexível. 

Tenha uma conversa franca, antes de “fechar o contrato” de orientação. Explique como você orienta e qual o perfil desejável para que a orientação funcione. 

Seja transparente ao longo de todo o percurso, caso aconteçam desconfortos converse (nesse caso evite e-mails e mensagens de WhatsApp) e explique os motivos do desconforto. Deixe o orientando confortável para fazer o mesmo. 

Seja um exemplo do que exige.

Valorize os pontos positivos dos orientandos e tenha discussões sobre ciência, em seus aspectos mais gerais, vá além do projeto. Explique as atividades relacionadas a pesquisa que você faz no dia a dia (e.g. consultorias adhoc, preparação de projetos, avaliações, colaborações).

Seja criativo e promova interação social, não obrigatória, no grupo de pesquisa.

Explique que ser um pesquisador exige muito e sempre, mas que pode ser uma carreira muito prazerosa.

Reunião virtual em tempos de pandemia
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Help me help you: um bestiário para entender erros e pedir ajuda no R

Este é um post convidado, escrito por Maurício Humberto Vancine, ecólogo e doutorando em Zoologia e uma pessoa que entende muito (tipo, muito mesmo) de R, QGIS e coisas relacionadas. Conheci Maurício durante meu doutorado, quando me infiltrei no LEEC (Lab. de Ecologia Espacial e Conservação, na Unesp), e é uma das pessoas a quem recorro quando algo não funciona no meu QGIS ou no meu Linux. Aproveitem a leitura! Ele escreveu um post muito melhor do que eu teria conseguido escrever.

Olá jovens, tudo bom? Conversei com o Pavel há um tempo sobre como pode ser complicado tentar ajudar as pessoas com dificuldades no R. Dessa nossa conversa surgiu a ideia desse post, sobre os principais erros que iniciantes [e mesmo experientes] podem encontrar no R e qual a melhor forma de pedir ajuda.

Bem, antes de mais nada, uma breve apresentação sobre minha pessoa: meu nome é Maurício [Humberto] Vancine, sou ecólogo de formação [fiz graduação em Ecologia], fiz mestrado em Zoologia e atualmente sou doutorando também em Zoologia, tudo pela UNESP, em Rio Claro/SP. Também sou caipira com muito orgulho, nasci no interior de São Paulo, numa cidadezinha chamada Socorro, e morei toda infância na parte rural da cidade. Sou ainda pai do Dudu, companheiro da Japa (Lauren), fã de músicas instrumentais e de jogos de RPG. Se quiserem saber um pouco mais sobre meu trabalho acadêmico ou trocar uma ideia, segue aqui meu site com informações de contato.

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Interpretando os resultados de um GLM

Recentemente uma amiga me pediu ajuda para interpretar o resultado de um GLM (eu já escrevi um post explicando o que são GLMs? Não? Poxa. Alguém precisa me lembrar de fazer isso. Haha), e ao dar uma explicação detalhada por email eu pensei, Ei, isso dá um post legal! Tá aqui esse post 🙂 Agradeço à Bianca Righi por ceder a tabela e os gráficos.

Enquanto eu não escrevo um post sobre o que é um GLM, vai aqui uma explicação rápida: GLM vem de Generalized Linear Model, ou Modelo Linear Generalizado. Um modelo linear é um modelo que modela alguma coisa (nossa variávei Y) como uma função linear de uma outra coisa (nossa variável X). Então um modelo linear pode dizer que quando uma coisa aumenta, a outra também aumenta; ou quando uma coisa aumenta, a outra diminui. E este aumento ou esta diminuição é linear – podemos traçar uma linha reta no gráfico para mostrar isso.

Em um modelo linear podemos também modelar como uma coisa varia em função de duas ou mais outras coisas – como nosso Y varia em função de X1, X2, X3 etc. Isso é feito de forma aditiva: valor de Y = efeito de X1 + efeito de X2 + efeito de X3. Se usarmos uma letra, por exemplo a letra greta β, para representar o efeito de cada coisa, temos que Y = β1X12X23X3. E também podemos incluir interações, que é quando uma coisa afeta o efeito de outra coisa. Por exemplo, pode ser que, sei lá, o metabolismo de dragões vermelhos aumenta com a temperatura em condições de baixa umidade, mas em condições de alta umidade este efeito desapareça (porque a alta umidade atrapalha a geração do fogo interno que estes dragões precisam pra aumentar seu metabolismo) (acho que viajei demais agora…)

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Pensamentos aleatórios sobre a descrição dos métodos estatísticos em projetos

Estive pensando sobre como apresentamos nossos métodos estatísticos em projetos de pesquisa – especificamente projetos de iniciação científica, mestrado e doutorado – e tem alguns aspectos disso que acho que são bastante subótimos, por assim diz, e poderiam ser bem mais informativos (e melhores para a formação das pessoas) se mudássemos a abordagem geral de como escrevemos esses métodos.

Em ecologia, a estatística que utilizamos frequentemente é bem mais complexa do que a estatística que aprendemos na graduação – ou na pós-graduação; a não ser que façamos graduação ou pós-graduação em estatística! Mas aí provavelmente não estaríamos desenvolvendo um projeto de ecologia. (Acho que não conheci nenhum estatístico que estivesse fazendo pós-graduação em eco nos PPGs com que tive mais contato). Por exemplo, vejam o artigo “The mismatch between current statistical practice and doctoral training in ecology”, de Touchon e McCoy, publicado em 2016 na Ecosphere – podem acessar por este link aqui, o acesso é aberto. Eles mostram como a estatística ensinada nos cursos de doutorado frequentemente não é a mesma estatística usada nos artigos. Pela minha experiência, frequentemente usamos modelos generalizados lineares e aditivos, modelos mistos, análises por permutações e até estatística Bayesiana. São coisas que não aprendemos; e mesmo as coisas que aprendemos – ANOVA, regressão, teste t – frequentemente aprendemos de forma superficial.

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Mais um texto sobre réplicas e pseudoréplicas

Uma versão deste post em áudio está disponível clicando aqui.

Digamos que você decidiu estudar como as características funcionais de unicórnios são afetadas por características do ambiente e como elas se relacionam entre si. Mas aí você percebeu que a sua área de estudo é muito pequena pra estudar unicórnios, e aí você decidiu estudar fadas. De modo que agora você está estudando como as características das fadas encontradas em uma área se relacionam com o ambiente e entre si.

E é claro que antes de planejar seu estudo você foi atrâs de ler sobre desenho amostral, réplicas e pseudoréplicas… Como assim você não leu sobre isso?! Ah, uffa. Levei um susto aqui. Bom, caso por algum motivo da vida você não tenha lido sobre isso, no final deste texto tem referências para artigos que você precisa ler. Precisa sim. Sim. Precisa. Mesmo. Precisa ler, mesmo. Começando pelo artigo do Hurlbert (aquele que fala de intrusões demoníacas), mas não parando por ele. Bom, se quiser ler esse post antes, tudo bem, mas leia os artigos ein!

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Ciência, Amazônia e o chamado para a aventura

Versão em áudio disponível clicando aqui. Este é um post convidado, escrito por Ivana Cardoso, licenciada em ciências biológicas e estudante de mestrado do PPG Ecologia e Conservação da Biodiversidade da UESC. A convidei para escrever esse texto depois de algumas conversas por email sobre o blog, nas quais pensei “Olha, essa pessoa poderia escrever um texto bem legal!” Eu estava certo! 🙂

Talvez você esteja se perguntando quem sou eu, de onde vim e por que raios estou escrevendo um post para o blog. Particularmente, eu não sou alguém importante, não venho de uma faculdade renomada e de uma cidade que você já tenha ouvido falar. Sou de uma cidade pequena no Rio Grande do Sul, chamada Júlio de Castilhos, venho de um IFFar, Instituto Federal Farroupilha, onde cursei Licenciatura em Ciências Biológicas. Então, o que possivelmente eu estaria tentando escrever aqui no blog? Bom… neste post, venho escrever um pouco sobre minha jornada do herói (como diz Marco Mello). Quando ingressei na faculdade, no ano de 2015, eu nada sabia sobre ciência, artigos científicos e rede de contatos, mas Gandalf já dizia que nem mesmo os muito sábios podem ver todos os fins.

Meu chamado para aventura foi através de uma seleção para um voluntariado no Amazonas, aquele que você faz, mas não tem muita esperança de ser selecionado. Foi assim comigo: me inscrevi, fiz a seleção e recebi com muita surpresa, uma semana depois, a notícia de que tinha sido escolhida. Agora, me restava decidir se deixaria minha família e partiria para fora do meu estado pela primeira vez, com pessoas que eu não conhecia. Eu decidi: tranquei um semestre de meu curso, fiz um seguro de vida (para desespero da minha mãe haha) e pensei, como Bilbo Bolseiro, estou indo em uma aventura!

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Dicas para aprender inglês

Caso você prefira ouvir ao invés de ler esse texto, uma versão em áudio (mp3) está disponível clicando aqui

…Eu ia escrever mais sobre temas ecológicos esses tempos. Mas não estou com muita vontade, então, seguindo os resultados de uma rápida pesquisa de opinião que fiz, decidi escrever um post com dicas de como estudar inglês! Já ouviram falar de procrastinação produtiva? É quando você faz algo importante como forma de deixar de fazer outra coisa importante. Esta postagem é um exemplo disso. 🙂

Não vou escrever sobre exames (TOEFL etc) porque eu pessoalmente não acredito em estudar para exames… Acredito em estudar para aprender algo, e ir bem no exame é mera consequência.

E também não sei se sou uma boa pessoa pra falar sobre isso porque eu fiz curso de inglês (CCAA) durante vários anos; mas, por outro lado, embora importante, eu não acho que o curso sozinho tenha sido suficiente, e talvez ele nem tenha sido o mais importante pra eu aprender inglês. Foi importante, sim; mas eu acredito que é possível aprender sem fazer um curso formal, especialmente se houver pessoas que lhe possam dar um retorno sobre aspectos do que você fala, escreve e entende. Aqui vou dar umas dicas com base na minha própria experiência, que pode fazer sentido para você ou não.
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Atividades não-acadêmicas úteis academicamente

Caso você prefira ouvir ao invés de ler esse texto, uma versão em áudio (mp3) está disponível clicando aqui 🙂

Já repararam como na Academia frequentemente nos referimos a qualquer atividade não-acadêmica como procrastinação? Sendo que às vezes nem é. Muitas vezes não é! Parafraseando Iron Maiden, there’s a time to work and a time to rest (ou seja, existe um tempo para trabalhar e um tempo para descansar). Não é porque alguém não está trabalhando na sua tese ou artigo ou preparando aula ou participando de reunião ou estudando que a pessoa está procrastinando – não dá pra trabalhar o tempo todo, a não ser por curtos períodos, e ter uma vida também faz bem pro Lattes! E cuidar da saúde, física e mental, é legal.

Mas esse não é mais um post pra reforçãr que você não precisa trabalhar horas infinitas, que existe vida fora do trabalho, e que podemos aumentar nossa produtividade se organizarmos bem o tempo e matermos um foco no trabalho enquanto estivermos de fato trabalhando, sem ter que trabalhar até a exaustão e abdicar de outras atividades. Aqui venho discutir um pouco sobre como atividades que aparentemente não tem nada a ver com a vida acadêmica podem nos auxiliar em diferentes aspectos do nosso trabalho, ajudando a nos tornar profissionais melhores. Inclusive tem um post no Dynamic Ecology, com vários comentários interessantes, discutindo isso, dêem uma olhada clicando aqui!

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Sentinelas ambientais

Esse é um post convidado, escrito por Ingrid Silva Rodrigues, doutoranda do PPG Ecologia: Teoria, Aplicação e Valores pela UFBA (inclusive sob minha orientação 🙂 ) e mestra em Sistemas Aquaticos Tropicais pela UESC. Ingrid, muito obrigado pela colaboração!

Sentinelas são espécies de animais ou plantas capazes de monitorar a qualidade ambiental do local em que vivem, funcionando como um sinal de alerta quando as concentrações de poluentes e toxinas estão altas e constantes, principalmente para os seres humanos que dependem de muitos serviços ecológicos para sua sobrevivência. O termo sentinela foi empregado incialmente na década de 50 em referência a organismos utilizados em pesquisas de monitoramento ambiental da radioatividade. Dependendo do tipo de resposta que estes organismos apresentam frente a exposição aos compostos tóxicos, como mudanças na fisiologia, comportamento ou abundância, podem ocorrer equívocos na interpretação dos resultados, devendo a sentinela ser adequadamente classificado como indicador ou monitor de espécies, pois sua importância está na quantificação dos efeitos tóxicos diretos ou indiretos.

Sentinelas podem ser classificados em categorias diferentes de acordo com a sua finalidade. Podem ser do tipo monitor, indicador, acumulador e eficaz. O sentinela monitor atua medindo o impacto do poluente de acordo com a diminuição de sua função. Já o indicador desempenha seu papel mostrando a escala de poluição através da sua abundância (por exemplo número de indivíduos) ou ausência no ambiente. O tipo acumulador retem o poluente em seus tecidos, mapeando a porção biodisponível em um ecossistema. Sentinelas eficazes são indiferentes aos compostos tóxicos no que diz respeito à faixa de concentração ambiental, sinalizando e quantificando a poluição em um intervalo de área/tempo e permitindo estabelecer uma correlação entre os níveis de compostos tóxicos encontrados nos tecidos e no ambiente natural.

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