Amigos da Noite

Este é um conto que Ana Beatriz Silva, idealizadora do projeto Econtos, escreveu para o projeto, que é um podcast de ecologia para crianças. O conto pode ser ouvido no youtube, neste link, ou no spotify, neste link.

Você já imaginou como deve ser ficar acordado por uma noite inteira?

Bem, alguns podem pensar que não é nada demais… ficar uma noite inteira acordado não parece grande coisa.

Bom, e que tal ficar acordado a noite durante toda a sua vida? Para o personagem do conto de hoje, isso não parece ser um problema, afinal, ele é um esfingídeo, ou, mariposa esfinge, que são nada mais do que mariposas noturnas, que passam a maior parte das suas vidas tomando néctar de algumas flores. O néctar é como uma aguinha com açúcar, que os polinizadores adoram!

A história de hoje é sobre Erinny, um esfingídeo  que tinha medo de tudo, inclusive da noite…

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Os Bodes do Catimbau

Este é um conto que escrevi para o nosso projeto de divulgação científica Econtos, um podcast de ecologia para crianças. Ele pode ser ouvido no youtube, neste link, ou no spotify, neste link.

Estava quente. E estava seco. O Sol não dava trégua fazia alguns dias, e isso devia incomodar muita gente. Muita gente, mesmo. Afinal, quem é que não se incomodaria de ficar debaixo do Sol, comendo plantas espinhudas, dia após dia após dia?

João não se incomodava.

João era um bode e vivia no Catimbau, no interior pernambucano, onde ele comia plantas espinhudas debaixo do Sol escaldante, dia após dia. Algumas vezes João se surpreendia, pois a planta que ele tinha acabado de comer estava lá, crescendo, verde e feliz e contente e espinhuda.

Ilustração por Eduardo Lemos

João ficava surpreso, mas a sua surpresa não durava muito tempo. Ao invés disso, ele ia lá e comia de novo a planta verde e espinhuda. E assim seguiam os seus dias.

Os amigos de João, o bode Morisvaldo e a bode Jucélia, seguiam a mesma rotina, embora Morisvaldo fosse mais preguiçoso e gostasse de ficar deitado debaixo da sombra de um cajueiro. E além dos bodes, naquela parte do Catimbau também havia pessoas. Algumas dessas pessoas eram bem estranhas: elas ficavam cavando a terra debaixo das plantas espinhudas e depois colocavam a terra de volta, e por vezes até tiravam umas folhas das plantas mas nunca as comiam. Essas pessoas se referiam a se mesmas com a estranha palavra “pesquisadores”, ou às vezes “cientistas”. Elas diziam que estavam lá Fazendo Pesquisa. João achava muito estranho elas não comerem as plantas espinhudas.

Um dia, uma dessa pessoas disse para outra: “Acho que nós já medimos esse cajueiro aqui, visse.”. Era a planta debaixo da qual o bode Morisvaldo estava deitado – e foi assim que João soube que aquela planta era um cajueiro. Não que isso fizesse muita diferença para ele, ou para Morisvaldo, ou para a planta.

As pessoas iam e vinham; eram muitas pessoas, mas ele lembrava da cara de algumas. Não dos nomes. João não se interessava por nomes de pessoas – pessoas não tinham folhas que ele pudesse mastigar. Cajueiros sim, cajueiros tinham folhas que ele pudesse mastigar, mesmo que não fossem as suas folhas favoritas. Mas bom, morando no Catimbau, debaixo do Sol que não dava trégua, não se podia ser muito exigente. João não era nada exigente em relação às plantas cujas folhas ele comia.

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A arte de (não) fazer coisas demais

Se quiser ouvir esse post em áudio, aperte play :-)

Fazia tempo que eu não escrevia um post né? Acho que eu estava fazendo coisas demais :-)

Mas se for ver, acho que estamos sempre fazendo coisas demais, né? Eu não lembro quando foi a última vez que alguém me falou “Cara, eu estou fazendo exatamente a quantidade de coisas que eu preciso estar fazendo”. Acho que sempre fazemos coisas demais, e quase sempre nos sentimos culpados por não estarmos fazendo elas com a qualidade que gostaríamos.

Afinal, eu só preciso preencher o relatório Sucupira, preparar aulas, corrigir coisas que pessoas que oriento me enviam, escrever posts pro blog, dar aulas, ler artigos, escrever artigos (reparem como falei “escrever artigos” por último? Minha principal meta pro ano é escrever os artigos do meu doutorado, sim, aquele que eu defendi seis anos atrás, e até agora acho que pude dedicar um total de duas horas ou menos a trabalhar nestes artigos. Isso dá uma média de dois minutos por dia. :-) )

Mas então… Por que sempre fazemos tantas, tantas, tantas coisas? Eu não acho que alguém acorda e pensa, “Vou colocar na lista de tarefas cinco vezes mais coisas que eu consigo fazer”. A pessoa acorda e pensa, “Hoje eu vou terminar tudo que preciso terminar hoje!” E, se tiver uma listinha de tarefas diária, coloca nela apenas as tarefas a serem terminadas naquele dia.

Disse Pavel enquanto olhava pra listinha de quarta-feira passada, com coisas ainda não terminadas nela. (Em agosto eu fiz uma pra terminar aquele mês. Em março eu decidi que estava cansado de olhar pras tarefas ainda não terminadas e joguei ela fora.)

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O que é personalidade animal? E qual sua função ecológica?

Este é o terceiro e último post escrito pelo Prof. Dr. Leonardo Resende, graduado em biologia pela Unip, Sorocaba (SP), mestre em ecologia pela UFSCar (SP) e doutor em ecologia pela ufba (BA), atuando, como pesquisador, nas áreas de ecologia evolutiva, etologia e sociobiologia. Eu convidei Leonardo a transformar partes da sua tese de doutorado em posts, e estou muito feliz que ele tenha aceitado o convite.

Quando falamos de personalidade animal, é comum a maioria das pessoas pensarem que estamos atribuindo a eles características humanas, pois para as pessoas em geral o termo personalidade se refere ao jeito de ser de uma pessoa, como por exemplo a timidez ou a agressividade, a preguiça ou a proatividade, enfim, qualquer adjetivo que se relacione com a maneira de agir de um indivíduo. Porém, isso é um engano, pois quando um pesquisador do comportamento animal se refere à personalidade de seu organismo de estudo, ele está se utilizando de um termo comum para designar um conceito bem diferente.

Então, do que afinal se trata a personalidade animal? Bem, desde o início do século XX, quando os estudos sobre o comportamento animal ainda estavam em seu início, os pesquisadores notavam e registravam a existência de individualidade no comportamento de seus objetos de estudo, ou seja, os indivíduos estudados se comportavam sistematicamente de forma distinta uns dos outros , por exemplo em estudos realizados por Hobhouse em 1915 e por Kinnaman em 1902. Porém, durante muito tempo tais registros anedóticos a respeito do comportamento dos animais foram tratados como anormalidades, erros de experimentação ou simplesmente negligenciados pela comunidade científica.

O primeiro estudo sistemático da personalidade animal, que de certa maneira criou as fundações para o programa de pesquisa que se configura atualmente, foi o desenvolvido por Ivan Pavlov durante a década de 1960 com seus cachorros condicionados. Isso se deve ao fato de ele ter desenvolvido um sistema de categorização do temperamento de seus cães adestrados, de acordo com o que ele acreditava na época serem derivados de suas qualidades neuronais.

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A Evolução da Socialidade nos Animais

Este é o segundo de três posts escritos pelo Prof. Dr. Leonardo Resende, graduado em biologia pela Unip, Sorocaba (SP), mestre em ecologia pela UFSCar (SP) e doutor em ecologia pela ufba (BA), atuando, como pesquisador, nas áreas de ecologia evolutiva, etologia e sociobiologia. Eu convidei Leonardo a transformar partes da sua tese de doutorado em posts, e estou muito feliz que ele tenha aceitado o convite.

A maioria das espécies animais apresenta períodos de seus ciclos de vida nos quais se encontram em agregações, seja como juvenis antes da dispersão de seu local de nascimento, como adultos que se agregam para forragear, ou como adultos que se juntam em grupos para procriar e cuidar de suas ninhadas.

Entretanto, há espécies que permanecem em agregações por todo seu ciclo de vida, sendo chamadas de espécies sociais, variando de grupos familiares até eusociedades com sistemas de castas[1]. A evolução e manutenção desses sistemas sociais é uma das questões mais intrigantes da ecologia e biologia evolutiva, devido às interações antagonistas entre os processos “egoístas” da seleção natural e a manutenção de comportamentos “altruístas” nas sociedades[2][3].

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Entendendo a Teoria da Construção de Nicho

Este é o primeiro de três posts escritos pelo Prof. Dr. Leonardo Resende, graduado em biologia pela Unip, Sorocaba (SP), mestre em ecologia pela UFSCar (SP) e doutor em ecologia pela ufba (BA), atuando, como pesquisador, nas áreas de ecologia evolutiva, etologia e sociobiologia. Eu convidei Leonardo a transformar partes da sua tese de doutorado em posts, e estou muito feliz que ele tenha aceitado o convite.

Em poucas palavras, a Teoria da Construção de Nicho nos diz que os seres vivos podem ativamente mudar as pressões da seleção natural que atuam sobre si mesmos, através da interferência direta sobre o ambiente biótico e abiótico que os cercam. Assim essa teoria evolutiva propõe que os seres vivos não são completamente passivos diante da ação da seleção natural e que outras formas de herança com modificação, para além da genética, também possuem um papel fundamental na evolução das espécies.

Nesse texto vamos explorar um pouco mais profundamente essa teoria, conhecer sua origem e os modelos e mecanismos que ela propõe para explicar como os organismos podem ser autores de sua própria evolução.

A teoria da construção de nicho surgiu de ideias introduzidas na biologia evolutiva, durante a década de 1980, pelo biólogo evolucionista, geneticista e matemático Richard Lewontin. Por construção de nicho referimo-nos às modificações no ambiente biótico e abiótico dos organismos, através de interações tróficas e intervenções diretas sobre os componentes do ambiente, por meio de seu metabolismo, dos comportamentos e das atividades fisiológicas, assim como das suas escolhas em relação ao habitat, sendo essas modificações importantes na alteração de pressões seletivas sobre as populações levando a mudanças evolutivas [1].

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Memórias de um voluntariado

Versão em áudio disponível clicando aqui.

Alguns anos atrás eu decidi passar as minhas férias – ou ao menos parte das minhas férias – fazendo voluntariado em lugares legais, que trabalhem com conservação, proteção de fauna ou temas relacionados. Pois bem, nestas férias de fim de ano eu finalmente coloquei este plano em prática; e foi uma experiência sensacionalmente boa. Acredito que estas ficarão na minha memória como as melhores e mais memoráveis férias desde que eu comecei a tirar férias; porque eu sou o tipo de pessoa que gosta de Fazer Coisas, mais do que passear e conhecer lugares, e se essas Coisas puderem ser Coisas Úteis, melhor ainda. :-) A Coisa Útil que estive fazendo foi ajudar o Projeto Mucky, um projeto que faz um trabalho lindo e sensacional cuidando de primatas – principalmente saguis e bugios – resgatados do tráfico de animais, maus tratos, acidentes… São muitos sagüis e bugios, diversos deles com problemas físicos e de saúde – em grande parte devido a maus-tratos e a acidentes que sofreram antes de chegarem ao Projeto – e uma equipe altamente dedicada a dar a estes animais uma qualidade de vida melhor – considerando que grande parte deles nem teria como ser reintroduzida à natureza.

Aqui sou eu ajudando nos cuidados com Leucena, uma fêmea de bugio-ruivo paraplégica, vítima de atropelamento.

Primeira vantagem de fazer um voluntariado: oportunidade de conhecer pessoas muito legais – que estejam estagiando, trabalhando ou voluntariando no lugar – e trabalhar junto com essas pessoas, em um trabalho em equipe de fazer inveja a muitos laboratórios de pesquisa [levando em conta, obviamente, que o foco no Mucky não é a pesquisa]. Fazia tempo que eu sentia a necessidade de trabalhar junto de pessoas assim. Pessoas que fazem bem o seu trabalho e inclusive se dispõem a ajudar em tarefas para as quais não estão escaladas mas que precisam de uma ajudinha, em prol de um objetivo maior. Foi inspirador, de verdade.

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A parcimônia nas Ciências e a simplicidade das coisas

Este texto foi escrito por Mariana Pereira, graduanda em Ciências Biológicas pela UFBA e com formação (graduação e mestrado!) em áreas da Comunicação. Na disciplina de estatística que ministro, uma das atividades é escrever uma resenha a respeito dos textos do Brian McGill (Dynamic Ecology) sobre Statistical Machismo. Eu adoro dar essa atividade na disciplina, porque sempre surgem alguns textos bem interessantes, e por vezes surgem textos absolutamente lindos como este. Inclusive achei ele muito apropriado para ser o último post deste ano :-)

Naquela que possivelmente é sua obra mais potente (e sem dúvida a minha favorita), Douglas Adams cria um computador gigante e fictício que opera por milênios a fio para nos informar que a resposta para as questões mais complexas sobre a vida, o universo e tudo mais é na verdade de ordem muito simples e objetiva: 42.

Postular uma resposta tão precisa para problemas tão complicados é um toque de gênio próprio de Adams, que transforma acalento em angústia ao nos levar rapidamente à realização de que os números importam tanto quanto o contexto que os cerca e que eles podem ser reveladores, mas só se tivermos a pergunta certa e as vias corretas para interpretá-la.

É difícil pensar que o uso indiscriminado de testes estatísticos complexos não seja uma roupagem diferente sob a qual impera essa mesma lógica, em que floreios e borrões perpassam resultados que são ofuscados pela própria complexidade do processo necessário para obtê-los. E que testes simples e igualmente (ou ainda mais) relevadores sejam preteridos em nome de uma densidade muitas vezes limitadora, que se confunde com confiabilidade.

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Ratos, doenças e a selva de pedra [mais selva do que esperado]

Este é um post convidado, escrito por Caio Graco Zeppelini, doutorando em Ecologia: Teoria, Aplicação e Valores pela UFBA.

A gente tende a não pensar nas áreas urbanas como ecossistema, como “meio ambiente”, embora a gente resida nela, divida espaço com diversas outras espécies, e possa observar como recursos (comida, água e energia, por exemplo) entram e saem transformados por sua passagem no ambiente urbano. Esse pontinho de cegueira que temos, que impede a gente de reconhecer a cidade como um ambiente e, portanto, parte da ecosfera atingiu diversas ciências por décadas, inclusive as ciências da saúde. Para ilustrar a situação, observemos uma doença infecciosa de grande importância de saúde pública nos centros urbanos dos países em desenvolvimento: a leptospirose.

Até poucas décadas atrás, leptospirose era uma doença rural com menor incidência. No ambiente rural, os roedores silvestres são o reservatório da Leptospira (o patógeno, a bactéria que causa a leptospirose), e a transmissão para os humanos se dá no contato destes com o ambiente contaminado pela urina dos roedores infectados. Quando saímos em direção ao ambiente urbano (seja por deslocamento, seja porque a mancha urbana se expandiu e agora cobre uma área antes rural), saem os roedores do campo e entram as ratazanas, a transmissão agora se dá nas ruas e terrenos, e a concentração de pessoas no espaço urbano aumenta a quantidade e frequência de casos a níveis que demandam intervenção das autoridades de saúde pública.

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Como interpretar uma ANOVA?

Você está estudando o comportamento de unicórnios, e percebeu algo interessante: parece que em alguns locais os unicórnios se movimentam muito mais ao longo do dia do que em outros. Analisando cuidadosamente os locais, você chegou à conclusão de que isso pode ser devido à quantidade de predadores: em áreas mais protegidas, os unicórnios da sua população de estudo se movimentam mais tranquilamente; por outro lado, na presença de predadores eles tendem a ficar mais quietinhos, e quanto mais assutador for o predador, mais quietinhos eles ficam.

Você então decidiu fazer um experimento manipulativo (com as devidas autorizações do comitê de ética e tomando todas as precauções para não causar um estresse demasiado aos bichinhos): você dividiu, aleatoriamente, um grupo de 40 unicórnios em quatro subgrupos, com de dez indivíduos em cada. Um subgrupo você colocou em uma área totalmente protegida de predadores, onde os unicórnios poderiam pastar tranquilamente sem serem incomodados por ninguém. Um segundo subgrupo você colocou dentro de um cercado protegido e à prova de fogo mas na presença de um predador não muito assustador (dragões-amarelos). Um terceiro subgrupo você colocou em um cercado também muito protegido, mas na presença de um predador mais assustador (serumaninhos). E o último subgrupo você colocou na presença dos dois predadores.

Ao apresentar o seu projeto para uma banca avaliadora, um dos membros da banca falou que as suas réplicas – os unicórnios – na verdade eram pseudoréplicas, pois os unicórnios no mesmo cercado não são indepedentes entre si. Você concordou, mas argumentou que seria inviável fazer um estudo com mais cercados, porque colocar os bichinhos em subgrupos com menos de dez indivíduos seria estressante pra eles e trabalhar com mais de quarenta unicórnios era logisticamente e eticamente inviável. A segunda avaliadora argumentou que, como os unicórnios estavam protegidos por cercados, o efeito não seria esperado, pois eles não seriam predados; a isso você respondeu que estava interessado no efeito do medo e que, mesmo de dentro de um cercado, um dragão é uma visão um tanto assustadora, e um serumaninho é mais assustador ainda. O terceiro avaliador argumentou que unicórnios não existem e foi sumariamente ignorado.

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