Escreva antes de ler e leia para escrever mais

Se você estiver com saudade de ouvir a minha linda voz preferir uma versão em áudio deste post, ela está aqui embaixo:

Dificuldades para escrever a tese, o artigo, o TCC, ou qualquer outro produto acadêmico são algo tão comum e recorrente… Seria interessante se houvesse uma estratégia que garantisse lidar com essas dificuldades de forma rápida, fácil e indolor. Acho que tal estratégia não existe; mas existem algumas recomendações que podem talvez facilitar este processo. Eu acho que só escrevi um post sobre isso até agora, e, alguns anos depois, resolvi complementar ele.

Então, que conselho poderia eu dar para alguém superar as dificuldades na escrita e escrever melhor?

O meu primeiro conselho é o mesmo que o primeiro conselho dado por Neil Gaiman:

Escreva.

E vou roubar também o segundo o terceiro conselhos:

Coloque uma palavra depois da outra. Encontra a palavra certa, coloque-a no papel.

Finalize o que você estiver escrevendo. Não importa o que você tiver que fazer para isso, finalize.

Então, Pavel, você pode me perguntar, o seu conselho para escrever é “Escreva”?

Ao que respondo: Sim. E complemento: Isso faz sentido.

Digamos que você quer aprender a usar uma espada. Você vai precisar de alguém que te ensine como segurar uma espada, quais são os movimentos básicos, e seria interessante você ler algo a respeito, inclusive para colocar o que você está aprendendo em um contexto. Mas, além disso, você vai precisar fazer infinitos suburis e, depois de um tempo, participar de combates simulados ou atividades esportivas. Ou seja, se você quer aprender a usar uma espada, você vai precisar… usar uma espada.

Ou digamos que você quer aprender a tocar pandeiro. Alguém pode te mostrar como se segura o pandeiro e o movimento da mão, e você pode estudar ritmo, diferentes estilos etc; mas, acima de tudo, você vai precisar… tocar pandeiro.

Por que escrever seria diferente? Escrever é uma arte e uma habilidade e, como toda habilidade, precisa ser desenvolvida e refinada ao longo do tempo. Precisa de prática.

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A Viagem do Bem-te-vi

Este é o sexto conto publicado (o terceiro escrito por mim) no nosso podcast Econtos, de ecologia para crianças. Você pode ouvir ele no youtube, ouvir ele no spotify ou ler aqui! O conto foi baseado na pesquisa de Karlla Barbosa, cientista da Unesp de Rio Claro.

Essa é a história de Camilo, um bem-te-vi. Mas ele era um bem-te-vi diferentão dos que costumamos ver por aí. Por exemplo, ao contrário dos outros bem-te-vis, Camilo não gostava de falar “Bem te vi!”, e assim não ficava contando para o mundo sobre tudo e todos que ele via. Não, esse bem-te-vi era mais sossegado na sua fala, que era mais parecido com um “Tchí! Tchí!”.

E na verdade ele não era o único bem-te-vi diferentão naquele lugar. Ele fazia parte de um seleto grupo de indivíduos – de toda uma espécie, na verdade – os Bem-te-vis-rajados.

Imagine um bem-te-vi. Agora imagine que ele não domina tanto assim a tinta do amarelo, mas, ao invés disso, é rajado de amarelo e marrom. Bom, sua barriguinha pode ser mais amarela mesmo, mas asas são bem listradinhas.

E ao redor dos olhos ele tem uma mancha escura, como se tivesse passado maquiagem demais.

Assim era Camilo, um bem-te-vi-rajado.

Ilustração por Eduardo Lemos
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Tornando o ambiente acadêmico mais acessível para pessoas autistas

Este é um post convidado, escrito por Nabi Rocha, estudante de Ciências Biológicas da UFBA e que tem me dado ótimas dicas de como tornar meu ensino mais acessível na disciplina de estatística que estou ministrando este semestre.

Em decorrência do centenário de Paulo Freire, unindo-o a intensa propaganda a respeito da reforma do Ensino Médio, é importante falar sobre a educação e como ela pode tornar-se mais inclusiva, a mudança que realmente deveria ser foco de implementação e constante upgrade.

É importante partir sempre do pressuposto de que na sala de aula não haverá apenas um tipo de aluno, que aquele é um ambiente diverso e que, frente ao professor, necessidades infindas precisarão ser sanadas. A respeito disso é importante debruçar-se sobre a presença de alunos autistas em classe, principalmente na Universidade onde essa pessoa muitas vezes é maior de idade e não terá o mesmo aparato que uma criança, a qual a mãe, durante o processo de matrícula, informa que o infante possui um dado Transtorno.

Pressupõe-se que um adulto autista tem maior autonomia para lidar com as suas dificuldades, e que facilmente poderá reportar à coordenação de seu curso sobre suas tribulações, porém nem sempre é assim.

Não são todos os ambientes acadêmicos que possuem um Núcleo de Apoio ao Estudante, ao menos não um que é amplamente divulgado, e mesmo que haja esse espaço na instituição ele não busca o aluno, não mostra-se aberto e ansioso por seu aparecimento. Pessoas autistas e portadoras de outros transtornos que dificultam muitas situações em âmbitos sociais, acadêmicos ou de trabalho, estão sempre com a sensação de que o ambiente não foi feito para elas, que a Universidade não foi feita para que ela esteja ali, o que é verdade.

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Sala de aula invertida: um desafio botânico na pandemia

Este é um post convidado, escrito pelas/os professoras/es Lazaro B. Silva, Maria Luiza S. de Carvalho, Kelly Regina B. Leite e Gabriel do N. Santos, do Instituto de Biologia da UFBA (Laboratório de Anatomia e Identificação de Madeiras, Laboratório de Genética e Evolução de Plantas e Laboratório de Algas Marinhas). Este é o primeiro de uma série de postagens que tenho em mente sobre ensino remoto nesses tempos estranhos que vivemos.

Desde março de 2020, nossa universidade suspendeu suas atividades presenciais em virtude da pandemia do novo coronavírus (SARS COVID-19) e por isso, estamos trabalhando em casa.

Após o choque/estranhamento inicial, veio a dúvida: O que faremos? Inicialmente imaginava-se que ficaríamos alguns dias sem atividades educacionais presenciais, mas a realidade é que meses se passaram. Nesse período, foram muitas as discussões virtuais, mas quanto mais o tempo passava se tornava claro que a solução, ainda que com alguma resistência de alguns, seria o ensino remoto e virtual.

Foi possível identificar três grandes inquietações nas seguidas discussões: 1) Como desenvolver essa metodologia com professores acostumados ao modelo apenas presencial, e que não tinham nenhuma experiência de educação virtual remota? 2) Como trabalhar com esse modelo em tão pouco tempo, uma vez que a grande parcela dos docentes se sentia pouco familiarizada, e intimidada, por tantos recursos tecnológicos e por um universo tão distante dos ambientes virtuais? e 3) Como aplicar e desenvolver uma metodologia adequada, quando uma parcela significativa de nossa comunidade estudantil não possuía infraestrutura mínima?

Agradecemos aos gestores de nossa universidade pelas providências que foram oferecidas nesse momento. Nossas inquietações foram minimizadas com o oferecimento de oficinas, palestras e fóruns de discussão, além de aporte de materiais e internet para os estudantes. Um privilégio, apesar das condições em que se encontram as Instituições de ensino brasileiras.

Nossa experiência com as aulas virtuais remotas se iniciou efetivamente no segundo semestre de 2020 com a implementação, pela universidade, de um semestre atípico (Semestre Letivo Suplementar – SLS), concebido e aplicado de forma diferenciada para professores e alunos. Tivemos a oportunidade de criar componentes diferentes e/ou de experimentar novos formatos para componentes já conhecidos. Ganhamos mais familiaridade com as metodologias e pudemos nos preparar, de uma forma ou de outra, para novos desafios.

Nossa experiência com aula invertida começou após o SLS, no primeiro semestre de 2021, quando tivemos que retomar componentes obrigatórios, que não haviam sido oferecidos desde o início da pandemia. Tivemos um primeiro contato com essa metodologia durante cursos de capacitação que ocorreram previamente e também durante o SLS (muitos deles oferecidos pela própria universidade), além de leituras sobre o tema. Mas, em meio às diversas metodologias de ensino, porque a escolha da aula invertida?

Concordamos com o que afirma Dewey[1], que o processo de ensino-aprendizagem baseado na pura transmissão de informação é antiquado e ineficaz uma vez que essa concepção pedagógica parte do pressuposto de que todos aprendem no mesmo ritmo e da mesma maneira, absorvendo a informação, apenas ouvindo o professor, e assim, o profissional que deveria exercer um papel crítico, pesquisador e reflexivo[2], acaba por mecanizar o processo de ensino-aprendizagem e, como não consegue atender as peculiaridades de cada educando, prioriza o produto do conhecimento ao invés do processo de produção do mesmo[3].

Enquanto isso, a aula invertida é uma forma de ensino-aprendizagem dinâmica e inclusiva, já testada em diferentes países como Estados Unidos, inclusive na universidade de Harvard[4] e da Georgia Tech[5] e também aqui no Brasil, apresentando resultados positivos, segundo alguns autores[6], que mostram a necessidade de superação de um paradigma de passividade e reprodução, tanto da prática dos professores como de seus processos de formação[7].

Além disso, com as novas perspectivas de mercado, sociedade, ciência, tecnologia e, mais importante, dos discentes, a postura dos professores universitários tem sido ressignificada. Eles estão validando a importância de mudanças em certos paradigmas, e destacando a pesquisa, em um universo amplo de troca de conhecimentos e informações, como o pilar fundamental para produção de novos saberes que irão contribuir fortemente para um melhor desenvolvimento da prática pedagógica.

Trabalhamos com a aula invertida nos componentes BIOB69 (Morfologia Vegetal) e BIOA80 (Botânica Aplicada à Farmácia). Nossa proposta foi de estimular o estudante, durante o ensino remoto, a ter uma aprendizagem ativa, onde o próprio aluno se torna protagonista do processo de ensino-aprendizagem, assumindo uma postura mais participativa na construção do conhecimento. Assim, diversos órgãos, incluindo a UNESCO, têm proposto métodos de ensino alternativos, explorando a colaboração, a exploração, a investigação, o fazer, mais adequados para a idade pós-industrial[8], apoiados em outras concepções pedagógicas. Através dessa postura mais ativa, que possibilita uma reflexão do discente sobre si mesmo, e a consequente evolução no âmbito da formação superior, percebendo também a importância da sua profissão para a sociedade.

Segundo Valente[8], com o advento das tecnologias foram criadas diversas modalidades de ensino a distância, combinando atividades presenciais e atividades educacionais a distância, realizadas por meio das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC), sendo a sala de aula invertida, ou flipped classroom, uma delas. Nessa abordagem, o conteúdo e as instruções sobre um determinado tema não são transmitidos pelo professor em sala de aula. O aluno estuda antes de frequentar a sala de aula. Essa, por sua vez, passa a ser o lugar de troca de experiências e aprendizado ativo, pela realização de atividades como a resolução de problemas ou discussões colaborativas entre os estudantes sobre projetos e atividades práticas, etc., com a mediação do professor. Este, por sua vez, trabalha as dificuldades dos(as) alunos(as), ao invés de apenas explanar sobre o conteúdo da disciplina[9]

Uma parte que consideramos significativa nas aulas invertidas é o fato do(a) estudante ter contato prévio com um determinado tema, antes de vir para sala de aula. Nossa experiência foi fantástica! Apesar de algumas restrições impostas pelo ensino remoto (especialmente para disciplinas de caráter teórico-prático), fizemos adaptações.

O conteúdo a ser estudado por cada estudante foi previamente selecionado por nós, bem como bibliografias. Os (as) estudantes liam e dialogavam, assincronamente, em grupo com dois ou três colegas, e durante o momento síncrono traziam sua compreensão para os demais colegas em forma de apresentação. Nesse momento o professor atuava provocando dialógicas, e em seguida, realizava uma breve explanação, focando principalmente em questões mais controversas e pouco esclarecidas.

Como nossas disciplinas são de caráter teórico-prático, na falta de materiais didáticos (como exemplares, órgãos e tecidos vegetais), imagens foram essenciais no processo dialógico. Assim em todas as apresentações os estudantes utilizavam recursos visuais, pesquisados em mídias eletrônicas acadêmicas ou através de “coletas” de material in vivo ou de imagens, realizadas pelos próprios alunos. Vale ressaltar que o uso de conteúdos sob a licença Creative Commons (CC) – conteúdos liberados para uso sem exigência de permissão ou pagamento de taxa – e de materiais texto de apoio, produzidos por colegas da área botânica, que passaram a ser divulgados na internet, ajudaram bastante na produção de material didático para uso nas aulas invertidas.

Quanto à avaliação da aprendizagem, esta consistia de um processo continuado e de feedback a partir das apresentações e das dialógicas realizadas nos momentos síncronos, além da geração de produtos, na forma de catálogos, com imagens produzidas e/ou pesquisadas pelos(as) próprios(as) estudantes. Essa compilação de informações (na forma de catálogo) teve como intuito a reconstrução do processo de ensino-aprendizagem dos(as) alunos(as), refletindo sua jornada pela disciplina. Segundo Luckesi[10], o elemento básico que difere o avaliador do examinador é a atitude, pois enquanto o examinador age de maneira classificatória, o avaliador age de maneira diagnóstica. Assim a avaliação continuada teve como principal objetivo averiguar a interpretação do conhecimento dos alunos, e o valor de sua resposta frente a essa intepretação, e não somente a capacidade de se responder com base a nomes e/ou conceitos decorados.

Essa experiência, também nos implicou como professores, não apenas pelos desafios do aprendizado de como fazer o ensino remoto (com a aquisição de conhecimento de novas metodologias e com o distanciamento físico da sala de aula e dos alunos), mas também pelo nosso próprio processo de construção/desconstrução/reconstrução, enquanto educadores e seres humanos que têm se enfrentado cotidianamente durante a pandemia, pois é através desse movimento que se conhece a dinâmica do processo educativo para o ensino superior, gerando subsídios para a atuação docente, tornando-se assim indispensável na prática pedagógica.

Referências Bibliográficas

[1] DEWEY, J. Democracy and Education. Cópia revisada, 1944. New York: The Free Press, 1944.

[2] SOUZA, E. C. O Conhecimento de Si: Estágio e Narrativas de Formação de Professores. Rio de Janeiro: DP&A; Salvador: UNEB, 2006.

[3] SAVIANI, N. Saber Escolar, Currículo e Didática: Problemas da Unidade Conteúdo/Método no Processo Pedagógico. 5 ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2009.

[4] MAZUR, E. Farewell, Lecture? Science, v. 323, p. 50-51, 2009.

[5] MARGULIEUX, L.; MAJERICH, D.; MCCRACKEN, M. C21U’s Guide to Flipping Your Classroom. 2013. Disponível em: http://www.c21u.gatech.edu/sites/default/files .Acesso em: 15 abr. 2014.

[6] LAGE, M. J.; PLATT, G. J.; TREGLIA, M. Inverting the classroom: A gateway to creating an inclusive learning environment. The Journal of Economic Education, v. 31, p. 30-43, 2000.

[7] PIMENTA, S. P.; ANASTASIOU, L. G. C. Docência no Ensino Superior. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2005.

[8] VALENTE, J. A. Blended learning e as mudanças no ensino superior: a proposta da sala de aula invertida. Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Brasil. Educar em Revista, núm. 4, p. 79-97 2014.

[9] EDUCAUSE: Things you should know about flipped classrooms. 2012. Disponível em: http://net.educause.edu/ir/library/pdf/eli7081.pdf. Acesso em: 19 jul. 2013.

[10] LUCKESI, C. C. Avaliação da Aprendizagem na Escola: Reelaborando Conceitos e Recriando a Prática. 2 ed. rev. Salvador: Malabares, 2005.

Não, você não precisa usar o R [e nem o R Studio] (mas o R é lindo [e o R Studio também])

É provável que este post contenha opiniões impopulares e que alguns de vocês deixem de seguir o blog depois dele :-)

Ao dar aulas de estatística, falar com pessoas sobre estatística, ajudar pessoas com estatística, eu tenho a impressão de que muitas vezes o uso da estatística é praticamente equalizado com o uso do R (ou do R Studio), como se uma coisa dependesse necessariamente da outra. Também me parece que o ensino de estatística às vezes se transforma em grande parte em ensino de R, como se fossem a mesma coisa e como se estatística não pudesse ser ensinada sem o R. Então aqui vou escrever a minha opinião sobre isso tudo, a qual é resumida pelo título deste post.

Primeiramente, o R é lindo, e tem diversas vantagens, por exemplo ser realmente multi-plataforma (Linux, Windows, Mac), ser livre, ter uma quantidade quase infinita de pacotes que fazer uma quantidade quase infinita de coisas diferentes, ser bastante conhecido… Sério, para quem faz análises estatísticas e/ou gráficos regularmente, vale muito a pena usar o R e ele tem tudo para ser o único programa que você vai usar para essas coisas. O R é lindo.

Segundamente, o R é lindo, mas não é a única opção, e um trabalho que não use o R não é pior do que um que use.

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Idas e Vidas no Cerrado

Este é um conto que escrevi para o nosso projeto Econtos. Você pode ler o conto no blog mesmo, ou ouvir ele no Spotify ou ouvir ele no youtube!

Olá!

Me diga uma coisa.

Você conhece o Cerrado brasileiro?

Tudo bem se não conhecer; e talvez, a depender de onde você mora, é provável que você o conheça, ao menos de vista, sem saber que é ele. Se você mora em Goiás, ou Mato Grosso, ou Minas Gerais; ou no Oeste da Bahia; ou no interior de São Paulo… Talvez você já tenha passado pelo cerrado sem o conhecer pelo nome; talvez tenha reparado nas suas árvores retorcidas ou em seus extensos campos cobertos de grama, com um árvore aqui e outra acolá; e talvez até ouvido o canto das suas aves e o zumbido dos seus insetos…

Este é o Cerrado: um lugar de árvores que se contorcem como acrobatas no circo e de gramas que ocupam os espaços ao Sol. De noite, as silhuetas das árvores se destacam contra o céu escuro e límpido do inverno; de dia, o verde e o marrom contrastam com o céu azul. Mas chegue mais perto! Nem tudo que é belo precisa ser admirado de longe. Sinta a textura das folhas – as folhas cobertas de pelos, tão macias ao toque que lembram um bichinho de pelúcia, e outra duras, lembrando cartolina. As cascas das árvores são espessas, lembrando cortiça. Abaixe-se e olhe para o chão – o chão amarelado ou avermelhado, em alguns lugares tão duro que nem pegadas deixamos ao andar por ele; em outros, parecendo areia de praia. Sinta o cheiro das flores. Fique em silêncio, ouvindo as aves que cantam neste lugar, os saguis que assoviam, os insetos que zumbizam.

Ilustração por Eduardo Lemos

Sim, vale a pena caminhar pelo cerrado, com olhar atento para perceber os detalhes, ouvidos atentos aos sons da vida, olfato atento aos cheiros. Mas mesmo que você não tenha esse oportunidade – feche os olhos e imagine. Deixe as asas e as pernas da imaginação te levarem a lugares belos e fascinantes.

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Como facilitar (um pouco) o ensino remoto

Ano passado fomos todos pegos de surpresa com o encerramento das atividades presenciais e o início do ensino remoto, em alguns lugares com pouco aviso prévio, em outros (UFBA <3) depois de um longo processo avaliando as possibilidades e planejando como seria o semestre da melhor forma possível. Foi um processo de se adaptar a novas condições, aprender novas tecnologias, muitas vezes mudar a forma de ensinar – e, obviamente, mudar a forma de aprender. Por vezes adquirir equipamentos e transformar uma residência em um espaço de trabalho que combina laboratório, sala de aula, escritório e estúdio de gravação em um lugar só. Foi um longo processo; atividades de formação sobre uso de tecnologias digitais e sobre a natureza do ensino remoto foram oferecidas; e, a meu ver, tem sido feito o melhor que podia ter sido feito e vi muita gente se desdobrando para se adaptar às novas condições e oferecer o melhor ensino possível. Mas independentemente disso, ensino remoto é difícil, é complicado, e falhas acontecem, porque não tem como falhas não acontecerem. Assim, acho essencial que busquemos formas de minimizar essas falhas e de tornar este ensino mais fácil e acessível para estudantes ao mesmo tempo mantendo uma carga de trabalho razoável para docentes, porque sobrecarga não é legal.

A minha impressão geral nestes tempos ministrando disciplinas remotamente é que o ensino remoto é mais difícil do que ensino presencial, para ambos os lados. A carga cognitiva olhando para uma telinha com slides e ouvindo alguém falar é mais pesada do que a carga cognitiva olhando e ouvindo um professor ou uma professora na sala de aula; na sala de aula existem gestos, os silêncios são menos estranhos, e o olhar não fica o tempo todo focado em uma única tela, passando entre o slides, a pessoa que está dando aula, e a paisagem lá fora (nos raros casos em que há janelas abertas) quando a mente e os olhos precisam de um descanso. Remotamente, isso tudo se perde, exceto talvez a possibilidade de olhar pela janela. As distrações também são maiores: em casa, há as distrações constantes da vida cotidiana, a tentação de abrir o Whatsapp Web é mais forte do que a tentação de olhar furtivamente para o celular.

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Amigos da Noite

Este é um conto que Ana Beatriz Silva, idealizadora do projeto Econtos, escreveu para o projeto, que é um podcast de ecologia para crianças. O conto pode ser ouvido no youtube, neste link, ou no spotify, neste link.

Você já imaginou como deve ser ficar acordado por uma noite inteira?

Bem, alguns podem pensar que não é nada demais… ficar uma noite inteira acordado não parece grande coisa.

Bom, e que tal ficar acordado a noite durante toda a sua vida? Para o personagem do conto de hoje, isso não parece ser um problema, afinal, ele é um esfingídeo, ou, mariposa esfinge, que são nada mais do que mariposas noturnas, que passam a maior parte das suas vidas tomando néctar de algumas flores. O néctar é como uma aguinha com açúcar, que os polinizadores adoram!

A história de hoje é sobre Erinny, um esfingídeo  que tinha medo de tudo, inclusive da noite…

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Os Bodes do Catimbau

Este é um conto que escrevi para o nosso projeto de divulgação científica Econtos, um podcast de ecologia para crianças. Ele pode ser ouvido no youtube, neste link, ou no spotify, neste link.

Estava quente. E estava seco. O Sol não dava trégua fazia alguns dias, e isso devia incomodar muita gente. Muita gente, mesmo. Afinal, quem é que não se incomodaria de ficar debaixo do Sol, comendo plantas espinhudas, dia após dia após dia?

João não se incomodava.

João era um bode e vivia no Catimbau, no interior pernambucano, onde ele comia plantas espinhudas debaixo do Sol escaldante, dia após dia. Algumas vezes João se surpreendia, pois a planta que ele tinha acabado de comer estava lá, crescendo, verde e feliz e contente e espinhuda.

Ilustração por Eduardo Lemos

João ficava surpreso, mas a sua surpresa não durava muito tempo. Ao invés disso, ele ia lá e comia de novo a planta verde e espinhuda. E assim seguiam os seus dias.

Os amigos de João, o bode Morisvaldo e a bode Jucélia, seguiam a mesma rotina, embora Morisvaldo fosse mais preguiçoso e gostasse de ficar deitado debaixo da sombra de um cajueiro. E além dos bodes, naquela parte do Catimbau também havia pessoas. Algumas dessas pessoas eram bem estranhas: elas ficavam cavando a terra debaixo das plantas espinhudas e depois colocavam a terra de volta, e por vezes até tiravam umas folhas das plantas mas nunca as comiam. Essas pessoas se referiam a se mesmas com a estranha palavra “pesquisadores”, ou às vezes “cientistas”. Elas diziam que estavam lá Fazendo Pesquisa. João achava muito estranho elas não comerem as plantas espinhudas.

Um dia, uma dessa pessoas disse para outra: “Acho que nós já medimos esse cajueiro aqui, visse.”. Era a planta debaixo da qual o bode Morisvaldo estava deitado – e foi assim que João soube que aquela planta era um cajueiro. Não que isso fizesse muita diferença para ele, ou para Morisvaldo, ou para a planta.

As pessoas iam e vinham; eram muitas pessoas, mas ele lembrava da cara de algumas. Não dos nomes. João não se interessava por nomes de pessoas – pessoas não tinham folhas que ele pudesse mastigar. Cajueiros sim, cajueiros tinham folhas que ele pudesse mastigar, mesmo que não fossem as suas folhas favoritas. Mas bom, morando no Catimbau, debaixo do Sol que não dava trégua, não se podia ser muito exigente. João não era nada exigente em relação às plantas cujas folhas ele comia.

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A arte de (não) fazer coisas demais

Se quiser ouvir esse post em áudio, aperte play :-)

Fazia tempo que eu não escrevia um post né? Acho que eu estava fazendo coisas demais :-)

Mas se for ver, acho que estamos sempre fazendo coisas demais, né? Eu não lembro quando foi a última vez que alguém me falou “Cara, eu estou fazendo exatamente a quantidade de coisas que eu preciso estar fazendo”. Acho que sempre fazemos coisas demais, e quase sempre nos sentimos culpados por não estarmos fazendo elas com a qualidade que gostaríamos.

Afinal, eu só preciso preencher o relatório Sucupira, preparar aulas, corrigir coisas que pessoas que oriento me enviam, escrever posts pro blog, dar aulas, ler artigos, escrever artigos (reparem como falei “escrever artigos” por último? Minha principal meta pro ano é escrever os artigos do meu doutorado, sim, aquele que eu defendi seis anos atrás, e até agora acho que pude dedicar um total de duas horas ou menos a trabalhar nestes artigos. Isso dá uma média de dois minutos por dia. :-) )

Mas então… Por que sempre fazemos tantas, tantas, tantas coisas? Eu não acho que alguém acorda e pensa, “Vou colocar na lista de tarefas cinco vezes mais coisas que eu consigo fazer”. A pessoa acorda e pensa, “Hoje eu vou terminar tudo que preciso terminar hoje!” E, se tiver uma listinha de tarefas diária, coloca nela apenas as tarefas a serem terminadas naquele dia.

Disse Pavel enquanto olhava pra listinha de quarta-feira passada, com coisas ainda não terminadas nela. (Em agosto eu fiz uma pra terminar aquele mês. Em março eu decidi que estava cansado de olhar pras tarefas ainda não terminadas e joguei ela fora.)

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