O paralisante medo de falhar

E se a banca não gostar da minha abordagem?

E se os revisores não gostarem do meu artigo?

E se eu não conseguir amostrar todos estes lugares?

E se eu não conseguir financiamento?

E se o meu trabalho não ficar bom?

E se meu artigo for rejeitado?

E se minha abordagem estatística for considerada ruim pela banca de seminários?

E se meu texto ficar ruim?

E se?… E se?… E se?…

Você já teve um pensamento parecido com estes na sua vida acadêmica? E, se sim, ele já te impediu de fazer importante ou algo que você queria fazer?

Se sim, talvez seja uma boa avaliar sua atitude com estes pensamentos.

Existe uma grande chance da banca não gostar da sua abordagem (mas aprovar mesmo assim), dos revisores não gostarem do seu artigo (e aí você submete para outra revista), de você não conseguir amostrar todos os lugares (e ter que trabalhar com o que conseguir), de não conseguir financiamento (e ter que mudar algo no projeto ou pedir outro financiamento), do seu texto ficar ruim (e aí você trabalha nele até ele ficar bom)… Eu diria que isso acontecer é mais provável do que isso não acontecer.

Mas, isso não deve ser um impedimento de fazer a coisa! Afinal… Se você submeter o artigo, ele pode (e provavelmente vai) ser rejeitado e assim não ser publicado. Mas se você não o submeter, ele com certeza não será publicado. É preciso tentar para conseguir, e é preciso muitas vezes errar antes de acertar.

Afinal, imagina Legolas pensando “E se eu errar o alvo?” e assim nunca atirar uma flecha? Ele deve ter errado inúmeros alvos antes de acertar consistentemente.

(Tem um trecho muito legal de um livro russo sobre hobbits e elfos. Um hobbit fica maravilhado com a forma como o elfo atira flechas, e pergunta como faz para aprender a atirar assim, com as flechas cantando. O elfo responde: “É simples. Basta praticar. Pelo menos uma hora por dia. E assim por pelo menos mil anos.” Mas estou digredindo.)

Não saber atirar uma flecha ou atirar mal não é desculpa para não atirar se você pretende ser um arqueiro.

Não saber escrever bem não é desculpa para não escrever se você pretende ser uma cientista!

Falhar faz parte do aprendizado e da vida e o medo da falha não deve nos paralisar. Muito pelo contrário – deve nos estimular a tentar, melhorar, prosseguir até conseguir! Ou até decidir que não vale a pena prosseguir nisso, e desistir com consciência tranquila. (Nunca deixe pra amanhã aquilo que você pode deixar pra lá.)

Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.

A primeira versão do texto que você enviar a quem te orienta não estará perfeita. Nem a segunda. Nem a terceira. Mas a terceira estará muito melhor que a primeira! E seu quinto artigo será provavelmente muito melhor que seu primeiro artigo. E isso vale pra tudo.

O importante é não deixar de tentar por medo de falhar. Afinal, “o maior mestre a falha é” (Mestre Yoda); e para ter sucesso em algo é necessário tentar este algo, e falhar até conseguir.

Qual é o seu diferencial?

Há – e isso é fato – mais gente se formando em um certo nível do que vagas de emprego direcionadas a este nível, ao menos nas ciências biológicas. Há mais gente com graduação do que vagas de emprego; e há muito mais gente fazendo uma pós-graduação do que empregos para cientistas profissionais, especialmente empregos universitários. A abertura de novos concursos para universidades públicas é um fenômeno raro, e estes concursos, além de serem raros, têm uma ampla dispersão espacial e às vezes coincidem entre si. Por exemplo, eu cheguei a me inscrever em concursos para Rio de Janeiro, Sergipe, Minas Gerais e Amapá, além da Bahia; só prestei estes últimos mas tinha me inscrito para outros. E dois concursos, para a UFBA e para a UESC, ocorreram na mesma semana, obrigando pessoas a escolher.

Isso não significa que conseguir emprego na área é impossível – é possível, só é difícil e pode exigir sacrifícios e escolhas. Ter o emprego na sua área de interesse pode ser inconciliável com continuar morando na sua cidade – ou estado – ou região. Então, é importante ponderar, quão longe você está disposta a ir? (O meu limite acabou sendo o oeste do Pará – quando vi um concurso para lá, pensei, não, isso é longe demais até pra mim.) E também é importante pensar que tipo de emprego você teria, se o seu plano A não der certo. E também se o seu plano B não der certo… Sim, recomendo sempre ter um plano A, no qual focar a maior parte dos esforços, mas também um plano B e um plano C. E talvez um plano D. E investir pelo menos algum tempo em todos eles, proporcionalmente à relevância que têm para você.

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A casa na praia

Este é um conto que escrevi para o projeto Econtos; você pode ouvir ele aqui no Youtube ou aqui no Spotify. Fotos da autoria de Ingrid Rodrigues, Jessyca Teixeira, Leonardo Braitt e Pavel Dodonov. Ilustração por Nathália Paiva.

Era uma casa muito engraçada, não tinha teto – mas tinha paredes, embora ninguém tivesse pendurado nelas uma rede. Também não tinha porta. Para entrar na casa, só rastejando parede acima, ou pulando, ou, se a maré estiver cheia, nadando.

Pinico ali também não tinha.

Mas algo que essa casa tinha era uma vista linda – uma vista direto para o mar! Tudo bem que ela não tinha janelas, então não era lá muito fácil aproveitar essa vista. Mas, a vista linda estava lá, para quem estivesse disposto, por exemplo, a subir nas paredes para olhar.

E quando eu falo que era uma vista direto para o mar, eu não me refiro a uma visão em que o mar estivesse longe, do outro lado da rua onde os carros passam e da faixa de areia onde pessoas ficam deitadas ao Sol. Não. O mar estava perto, muito perto, muito, muito perto, mesmo.

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E aquele artigo, já publicou? – um contraponto

Alguns anos atrás eu escrevi um post discutindo que talvez você não precise necessariamente publicar aquele artigo. Agora, professor Pavel está escrevendo uma resposta ao pós-doutorando Pavel sobre isso :-) (Olhem só, nunca pensei que este blog serviria para o Pavel do presente conversar com o Pavel do passado. Ou será o contrário? Me perdi aqui.)

Antes de tudo – eu concordo, ou melhor, continuo concordando com grande parte do que escrevi naquele post. Publicar um artigo não é tudo! E não é porque você não publicou o seu artigo que você não fez um bom trabalho! E não é porque você não publicou um artigo que você não está dando um retorno à sociedade – inclusive talvez você esteja dando menos retorno ao focar apenas em publicar um artigo. Existe mais na vida e na Ciência do que publicar.

Dito isso… Publicar é, sim, essencial. Porque, por mais que nossas dissertações e teses sejam publicamente disponíveis, o rigor da sua avaliação normalmente é menor do que para uma publicação como artigo (ou quiçá livro) e elas não são consideradas como argumentos tão fortes. Publicar um artigo dá um peso maior à sua argumentação, e se você está argumentando sobre algo, por exemplo, relevante para conservação da natureza, ter uma argumentação com peso maior pode ser importante.

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Avaliações em disciplinas, ou: Você mentiria para o seu professor de matemática?

O título é uma resposta a este post muito legal, cujo autor é, pasmem, um professor de matemática :-) Inspirado por ele, decidi transformar em post um assunto sobre o qual tenho pensado bastante, e também sobre o qual já gravei um videozinho: como avaliar o desempenho discente em disciplinas?

Já vou começar falando que eu não acredito em provas. Ou melhor, eu não acredito que provas são a única ou melhor forma de avaliação, embora tenham seu papel. Mas qual papel seria este?…

Para responder a isso, precisamos pensar sobre qual é a função das avaliações. E avaliar, oras! não é uma resposta válida :-)

Provavelmente não há uma única resposta a essa pergunta. Diferentes pessoas podem e devem ter diferentes visões, todas das quais poderão estar certas. Depende do contexto, depende da abordagem educacional que se segue, e depende das e dos estudantes. O que funciona bem para uma pessoa pode não funcionar nem um pouco para outra.

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O melhor do projeto Aliança dos Saberes

Este é um post convidado, escrito pelas Professoras Camila R. Cassano e Maíra Benchimol, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) em Ilhéus – BA. As convidei para escreverem este post porque elas estão à frente de um projeto lindo de extensão, chamado Aliança dos Saberes, de cuja concepção eu tive a felicidade de contribuir um pouquinho nos meus tempos de pós-doc. Inclusive, é um projeto que eu sempre cito quando falo de Educação Ambiental, pois, na minha opinião, ele incorpora de forma excelente os preceitos de uma educação ambiental crítica e que realmente possa fazer diferença na vida das pessoas.

Foi um prazer receber o convite do professor Pavel para contar um pouco sobre o projeto de extensão que estamos desenvolvendo na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Este projeto, que tem o nome de “ALIANÇA DOS SABERES: educação ambiental para a melhoria da qualidade de vida e conservação da natureza”, tem como objetivo fomentar mudanças no comportamento em relação ao meio ambiente por meio da sensibilização e troca de conhecimentos, e diminuir a lacuna entre a academia e a sociedade. Como reunimos em nossa equipe um grupo de pesquisadores atuantes na realização de pesquisas ecológicas, pretendemos compartilhar nosso conhecimento com a sociedade como um todo, mas oferecendo uma atenção especial à zona rural do município de Una – área que abrange a maior Reserva Biológica da região e encontra-se relativamente próxima cidade de Ilhéus, onde a UESC está estabelecida.

Nosso projeto teve início em 2018, durante uma visita ao projeto BioBrasil de conservação do mico-leão baiano (Leontopithecus chrysomelas), que fica no distrito de Colônia de Una, cerca de 90 km da UESC. Fomos ao local com um grupo de professores e estudantes da UESC, já com a intenção de identificar interesses comuns e construir uma parceria. Saímos de lá com muitas ideias, parte das quais vem sendo concretizadas com o fortalecimento de ações pré-existentes neste projeto parceiro ou por novas ações propostas por nós. De lá para cá muitas ações já ocorreram: participamos da construção do roteiro para uma trilha interpretativa do projeto BioBrasil, atuamos na avaliação da visita por grupos de estudantes em 2019 e atualmente somos parceiros na reformulação do roteiro, condução de visitas e construção de material de apoio. Também construímos juntos um curso para técnicos agrícolas e ambientais que atuam em municípios da região sul da Bahia e produzimos um jornal local com participação de membros da equipe BioBrasil.

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Os Tubarões de Boa Viagem

Este é um conto escrito para o Econtos por Ana Beatriz. Você pode ouvir ele no youtube ou no spotify, ou ler ele aqui! E inclusive caso você lendo isso de repente trabalhe com teatro e queira transformar ele em uma peça teatral, fique à vontade! E se puder, nos convide para assistir e nos conte depois como foi :-)

[PERSONAGENS]
Galeo- Repórter
Gingly- Repórter
Sotalia- Entrevistada-boto
Tursio- Entrevistado-golfinho
Manatus- Entrevistado-peixe-boi – Pavel
Leucas- Repórter de campo
Senhora1- Humana
Senhora2- Humana
Tubaroa- Entrevistada

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Sobre autorizações para pesquisa de campo

Nós na ecologia passamos muito (muito (muito)) tempo pensando sobre desenho amostral, forma de coletar os dados, onde coletar estes dados, como analisar os dados, como interpretar os dados, como escrever sobre os dados… Mas me parece que frequentemente nos esquecemos de algo muito importante: das autorizações de que precisamos para coletar os dados. Então neste post vou escrever um pouco sobre isso.

Disclaimer: Este post não é conselho legal, eu não sou especialista no assunto e vocês não podem usar ele para decidir o que fazer sem buscar outras informações. Este post serve mais para primeiro argumentar que o seu trabalho muito provavelmente precisa de autorizações e segundo para indicar por onde começar a descobrir o que fazer.

E se pessoas comentarem coisas importantes que eu não tenha colocado, vou atualizando o post com essas informações adicionais :-)

Mas minha pesquisa precisa mesmo de autorização?

Olha, não sei mas provavelmente sim. Pela minha experiência (a qual deveria estar bem embasada em alguma legislação mas no momento está embasada apenas superficialmente porque se eu estudei essa legislação eu já esqueci), alguns dos tipos de pesquisa que precisam de autorização são:

  • Pesquisas em unidades de conservação (UCs)
  • Pesquisas em áreas particulares
  • Pesquisas envolvendo captura de animais, mesmo que o animal liberado logo em seguida
  • Pesquisas com espécies ameaçadas
  • Pesquisas com seres humanos.

Basicamente, a única coisa que se salva são pesquisas com plantas fora de UCs e não envolvendo espécies ameaçadas. Acho que pesquisas com animais que não envolvam captura também podem ser feitas sem necessidade de autorização caso não provoquem um estresse nos animais. Alguns tipos de pesquisa com seres humanos – por exemplo, pesquisa de opinião com participantes não identificados – também estariam dispensados – ou não, a resolução a meu ver não é muito clara e abre brechas que me deixam confuso. Então, se sua pesquisa envolve seres humanos, na dúvida eu sugiro tirar um tempo para conseguir as autorizações necessárias.

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A importância do trabalho de campo na formação em Ecologia

Fazer trabalho de campo dá trabalho, né? Senão não se chamaria trabalho de campo. :-)

Mas fazer trabalho de campo é uma das coisas mais divertidas que fazemos nessa vida estudando biologia e ecologia. Bom, pelo menos para pessoas que gostam de trabalho de campo… E principalmente se é um trabalho de campo que achamos divertido.

Mas trabalho de campo é caro – ou não, dependendo do projeto, sistema e local de estudo. Um trabalho pode ser feito em uma área distante com equipamentos caros ou em uma área próxima com um paquímetro e uma fita métrica, e ambos podem ser publicados na mesma revista. O que importa é quão interessante é o trabalho… E, é claro, se é o tipo de coisa que você gostaria de estudar. Existem perguntas que só podem ser respondidas em lugares distantes e/ou usando equipamentos caros.

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Por que fazer extensão universitária?

(Olhem só, parece que escrevi um post parecido seis anos atrás e só lembrei disso quando estava na metade deste :-) )

O Manual de Extensão Universitária da UFBA, publicado em 2014, entende extensão universitária como “um eixo de atuação que articula as funções de ensino e pesquisa, de forma indissociável, e amplia e viabiliza a relação transformadora entre a Universidade e a sociedade, contribuindo, assim, para a formação cidadã dos sujeitos nela envolvidos”

Eu pessoalmente não sei o quanto concordo com esa definição porque acredito que, sim, extensão, ensino e pesquisa são indiscutivelmente os pilares de uma Universidade e que, sim, é muito interessante que atividades de pesquisa e ensino incluam também um componente de extensão. Mas, por outro lado, esse entendimento me parece limitar um pouco as possibilidades, ao dar a impressão de que atividades de extensão devem necessariamente estar vinculadas a atividades de ensino e pesquisa, sendo que eu acho que não é necessariamente o caso. Nada impede alguém de desenvolver uma pesquisa em biologia molecular e ao mesmo tempo atuar em (ou até mesmo coordenar) um projeto de extensão sobre conservação do cerrado. Assim como nada impede uma pessoa que trabalha com conservação do cerrado desenvolver um projeto de extensão nesta linha, ou uma pessoa que faz pesquisa em biologia molecular desenvolver extensão com divulgação científica nesta área. Talvez se desenvolvermos pesquisa, ensino e extensão na mesma área, estaremos otimizando nossos recursos; mas talvez ao nos limitar a isso estaremos restringindo possibilidades de atuação.

De qualquer modo, essa discussão se relaciona apenas de forma tangencial com o que quero abordar neste post: por que fazer parte de um projeto de extensão? E sim, existem nas Universidades muitos projetos de extensão; talvez não tão visíveis quanto gostaríamos, e com certeza em menor quantidade do que gostaríamos, mas eles existem e frequentemente geram resultados muito legais. Este blog, inclusive, está registrado como projeto de extensão pela UFBA! Assim como o projeto Econtos, o qual também coordeno. É legal registrar projetos porque, mesmo que sem o registro ele tenha relevância social, ao registrar ele pode ser contabilizado pela Universidade e também ser considerado algo oficial e que conta com respaldo institucional. Embora haja também projetos lindos de extensão que, por um motivo ou outro, não foram registrados oficialmente.

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